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Pandemia acelera recurso à telemedicina no mundo

Por Kelly MACNAMARA
Consulta de telemedicina em Shenyang, China, em fevereiro de 2020

Com a pandemia, uma mudança prevista para os próximos anos se concretizou em poucas semanas: o recurso à telemedicina acelerou no mundo, graças às novas tecnologias e à impossibilidade de sair de casa durante o confinamento.

As consultas médicas por meio de um aplicativo de vídeo no computador, ou no smartphone, aumentaram, especialmente as de clínica geral, cujos profissionais enfrentaram em muitos países uma escassez de material de proteção.

"A medicina geral viveu mudanças significativas na forma como os médicos tratam os pacientes durante a epidemia. É notável a rapidez com que as mudanças aconteceram", diz à AFP Martin Marshall, presidente do Royal College of General Practitioners, organismo britânico de médicos generalistas.

Com o avanço da pandemia, as regras nacionais foram adaptadas em muitos países para permitir as consultas a distância.

Na França, onde esta prática coberta pela Previdência Social desde o fim de 2018 não conseguia emplacar, o número de teleconsultas subiu de 10.000 por semana no início de março para quase meio milhão em meados de maio, com um pico de 1,1 milhão durante a segunda semana de abril.

A tendência prosseguiu mesmo depois do fim do confinamento, de acordo com o organismo de Seguridade Social Assurance Maladie.

As teleconsultas permitem, sobretudo, reduzir o tempo de espera nas consultas físicas, onde os prazos aumentaram, devido às novas medidas de higiene e aos atrasos acumulados durante o confinamento.

Nos Estados Unidos, várias restrições sobre a prática foram suspensas, assim como algumas regras de proteção de dados.

De acordo com Layla McCay, da NHS Confederation, organismo vinculado ao sistema britânico de saúde pública, a maior parte de 1,2 milhão de consultas diárias para tratamentos básicos aconteceu a distância durante o confinamento no Reino Unido, uma mudança que ocorreu no prazo de poucas semanas.

- "Um desastre" -

A revolução aconteceu com alguns problemas.

"Minha primeira consulta por vídeo foi um desastre. Havia operários perfurando uma parede, o microfone deu problema, um colega entrou no consultório", recordou a a doutora Camille Gajria, que é professora da Imperial College de Londres, em entrevista ao "British Medical Journal".

Uma teleconsulta pode ser eficaz, mas é preciso ter cuidado com os erros de interpretação, que podem acontecer com mais facilidade a distância, destaca a médica.

A epidemia do novo coronavírus também estimulou a telemedicina na Índia, país com a média de 8,6 médicos para cada 10.000 habitantes - dados da OMS de 2018. A maioria dos profissionais de saúde se concentra nas cidades, enquanto 70% da população vive no campo.

Ayush Mishra, fundador da empresa de telemedicina Tattvan, explica que a epidemia convenceu o governo a flexibilizar as regras sobre esta prática.

O empresário, que perdeu uma perna em um acidente de moto por falta de atendimento adequado, tem atualmente 18 centros de teleconsultas no país e espera abrir outros rapidamente.

"Temos que oferecer este acesso, é um direito fundamental", diz Mishra à AFP, em referência à maioria dos indianos que moram afastados dos grandes centros urbanos.

Mas as teleconsultas, que usam dispositivos conectados à Internet, como termômetros e aparelhos para verificar a pressão, também têm seus limites, já que muitos gestos necessários para um exame devem ser feitos de maneira presencial, enfatiza Martin Marshall.

Apesar das dificuldades, a era da telemedicina começou, destaca McCay.

"Nossos membros dizem que a experiência mudou sua maneira de ver as coisas. Médicos que antes estavam relutantes, agora percebem os benefícios que podem obter. Não haverá retorno", prevê.