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Palantir: a empresa que promete 'prever crimes' e vale US$ 20 bilhões

Finanças Internacional
·7 minuto de leitura
Sede da Palantir em Palo Alto, no Vale do Silício (Foto: Smith Collection/Gado/Getty Images)
Sede da Palantir em Palo Alto, no Vale do Silício (Foto: Smith Collection/Gado/Getty Images)

A Palantir, uma desenvolvedora de big data secreta, criada pelo bilionário cofundador do PayPal e investidor do Facebook Peter Thiel, anunciou, na segunda-feira, planos para abrir seu capital. A empresa, sediada em Palo Alto, avaliada em cerca de US$ 20 bilhões, protocolou o formulário S-1 junto à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão americano similar à Comissão de Valores Mobiliários no Brasil, e está aguardando a análise da documentação.

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Mas até os seguidores mais fiéis da empresa desconhecem boa parte do que a Palantir faz e como usa sua vasta quantidade de informações. A organização já se envolveu em grandes polêmicas por causa do seu trabalho com órgãos públicos, incluindo a Agência de Imigração e Alfândega dos EUA. E, da mesma forma que muitas das veneradas e extremamente valiosas empresas de tecnologia, ainda há dúvidas quanto à capacidade da Palantir de ser lucrativa.

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A seguir, apresentamos as principais informações sobre uma das empresas mais obscuras do Vale do Silício antes de sua estreia no mercado acionário.

O que é a Palantir e quem são seus administradores?

Fundada em 2004 com recursos da In-Q-Tel, um braço sem fins lucrativos do capital de risco da CIA, a Palantir foi assim batizada por causa dos orbes místicos do universo de "O Senhor dos Anéis", de J. R. R. Tolkien, que são capazes de ver o passado e o presente e permitir a comunicação a enormes distâncias,

o que não difere tanto da forma como a Palantir funciona. A empresa consegue coletar dados de diversas fontes para os clientes, com o objetivo de determinar ou indicar possíveis soluções para suas demandas.

No momento, ela presta dois serviços principais: o Palantir Gotham e o Palantir Foundry.

O Palantir Gotham é uma opção personalizada usada por empresas, órgãos governamentais e polícias para combinar informações e, a partir delas, construir padrões antes despercebidos e identificar relações entre conjuntos de dados que vão de publicações em redes sociais e endereços até placas de veículos e relações pessoais. O serviço compila todo esse conteúdo em gráficos e tabelas de fácil leitura.

O Foundry é uma opção pronta, não adaptável, voltada a clientes dos setores farmacêutico, automotivo e transporte aéreo, como a Airbus, que tem como objetivo reduzir os custos associados ao Gotham, como a necessidade de ter diversos engenheiros trabalhando internamente na estrutura empresarial.

A Palantir oferece o que chama de soluções para diversos tipos de aplicação, seja para empresas automotivas, setor armamentista, compliance financeira, seguradoras, serviços de inteligência, polícia e outros.

NEW YORK, NEW YORK - AUGUST 09: Entrepreneur and venture capitalist Peter Thiel visits "FOX & Friends" at Fox News Channel Studios on August 09, 2019 in New York City. (Photo by John Lamparski/Getty Images)
Peter Thiel, famoso investidor do mundo tech, é um dos principais acionistas da empresa (Foto: John Lamparski/Getty Images)

A empresa é liderada pelo bilionário, cofundador e CEO Alex Karp. Formado na Escola de Direito de Stanford, assim como Thiel, Karp passou a comandar a Palantir logo após a fundação. Antes da Palantir, Karp fundou a gestora de capital Caedmon Group.

O administrador não se mostrou convicto da abertura de capital da Palantir, apesar do pedido de funcionários que querem investir em ações da empresa.

Durante uma palestra no First Data Cyber Security Summit, em 2014, Karp afirmou que empresas que abrem seu capital perdem a vantagem competitiva em virtude da diferença que há entre engenheiros "criativos e excêntricos", cuja motivação é resolver problemas, e os lobos de Wall Street, cuja motivação é o lucro.

Karp ainda externou sua ideia de que as empresas do Vale do Silício precisam trabalhar com órgãos do governo e a polícia dos Estados Unidos.

Em uma entrevista concedida à CNBC em 2019, o bilionário não poupou críticas a empresas que, como o Google, rescindiram contratos com o governo.

"É uma postura que faz todo mundo perder, não faz sentido. Não faz sentido para as pessoas comuns, não é sustentável academicamente. E estou muito feliz por não estarmos desse lado do debate", afirmou.

Karp também mostrou ver com bons olhos a mudança de sede da Palantir, abandonando o Vale do Silício, em uma entrevista à Axios, afirmando que poderia levar o negócio para o Colorado para se libertar da "monocultura" do Vale.

Conquistas e controvérsias

A Palantir afirma que seu software único ajudou empresas e órgãos do governo em tudo, desde a condenação de Bernie Madoff até a recuperação de ataques cibernéticos e o combate à exploração infantil. Existe, inclusive, uma lenda urbana de que a tecnologia da empresa foi utilizada nos esforços para encontrar Osama Bin Laden.

Segundo a Palantir, sua tecnologia foi utilizada para lidar com as consequências do Furacão Florence em 2018, em parceria com a Team Rubicon, uma organização de veteranos militares que oferece apoio a regiões em que ocorreram desastres. Com o módulo operacional do Gotham, o grupo conseguiu identificar e atuar nos bairros mais necessitados.

A Palantir também mencionou que o Centro de Integridade Pública e o Programa de Jornalismo da Universidade de Georgetown usaram sua tecnologia para o projeto Pearl. A iniciativa foi fundada para investigar o assassinato do repórter de Wall Street Daniel Pearl, morto por militares no Paquistão, em 2007.

Existe, inclusive, uma lenda urbana de que a tecnologia da empresa foi utilizada nos esforços para encontrar Osama Bin Laden.

A empresa afirma que o software identificou 27 pessoas que participaram do sequestro e do assassinato, mapeando as relações entre elas para dar respostas a questionamentos sobre a morte de Pearl.

A empresa ainda alega que o software ajudou o Exército americano a rastrear rebeldes que estavam plantando dispositivos explosivos improvisados (IEDs) no Afeganistão ao encontrar correlações entre padrões de clima, ataques com IED de comando elétrico e informações biométricas encontradas em dispositivos explosivos.

A Palantir afirma que o software funcionou bem no Departamento de Polícia de Salt Lake City, pois, segundo a empresa, ele ajudou a reduzir em 95% o tempo de investigações complexas.

Mas a Palantir também tem suas controvérsias. A grande quantidade de informações que o software da empresa é capaz de processar — placas de veículo, números de identificação fiscal, perfis em rede social, endereços, registros bancários, relações interpessoais — gerou comparações com o Departamento Pré-crime da obra de ficção "Minority Report".

A Palantir usou esse tipo de modelo de policiamento preditivo em Nova Orleans, de acordo com informações do The Verge. Mas o policiamento preditivo é controverso em si. Estudos afirmam que ele pode gerar uma maior aplicação da lei e da força sobre minorias e comunidades de baixa renda.

E a questão não é só o medo do oceano de dados coletados. A empresa tem sido alvo de manifestantes e até de seus próprios funcionários pelo trabalho feito com a Agência de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA.

Após anos negando que a Palantir é parceira da ICE, o braço da Agência de Fiscalização de Alfândega e Proteção de Fronteiras responsável por deportar imigrantes sem documento, Karp admitiu, em uma entrevista à CNBC, que sua companhia está envolvida nas operações de deportação.

A WNYC já havia denunciado anteriormente que o aplicativo Falcon da Palantir foi usado por agentes da ICE em operações como a fiscalização-surpresa em quase 100 lojas da 7-Eleven nos EUA em 2019.

O CEO também admitiu que o software da Palantir provavelmente foi usado para matar pessoas no âmbito militar em sua entrevista à Axios, mas não deu mais detalhes sobre quem ou como.

No passado, de acordo com a Bloomberg, a Palantir perdeu diversas parcerias com empresas conhecidas, como Hershey’s, Coca-Cola, Home Depot e American Express, em virtude dos altos custos dos serviços da desenvolvedora.

Mesmo com tudo que ainda não se sabe sobre a Palantir, é certo que a abertura de capital da empresa atrairá a atenção do público, especialmente quando ela revelar a real extensão de suas operações.

Daniel Howley

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