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'Ou você come ou paga as contas', diz manicure sobre redução no valor do auxílio

JÉSSICA SILVA, LUANA NUNES E LUCAS VELOSO
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO E MOGI DAS CRUZES, SP (FOLHAPRESS) - Autônoma, Maria Cícera, 61, vendia bolo na rua em Parelheiros, no extremo sul da capital paulista, onde mora. Ela também fazia faxinas no Grajaú, a duas horas dali. Com a pandemia, perdeu as duas fontes de renda e pediu o auxílio emergencial. "Quando entramos de quarentena, eu não podia sair para vender os bolos nem limpar a casa de ninguém. As coisas ficaram difíceis", afirma. Após três parcelas de R$ 600, o valor caiu para R$ 300 em setembro, e as coisas apertaram ainda mais. A única alternativa foi voltar a sair de casa, diz. Atualmente, Maria Cícera vende novamente bolos no terminal Parelheiros. Mesmo trabalhando de novo, ela teme perder os R$ 300 que ainda recebe de auxílio. "Se cortar o auxílio, vai ser difícil, porque, mesmo sendo pouco, ajuda bastante", diz. O calendário de pagamentos do auxílio se encerra em dezembro, e até o momento não há previsão de extensão do benefício ou implementação de novo programa social. As propostas de criação de um Renda Brasil ou Renda Cidadã, aventadas pelo governo Jair Bolsonaro, não avançaram, e a expectativa de governo e aliados é que 2021 comece sem nenhum substituto para o Bolsa Família. A situação de Maria Cecília é a mesma enfrentada por outras famílias nas periferias da capital, que vivem um cenário de apreensão e já sentem o impacto da redução do valor do auxílio. Agravam o quadro a crise econômica provocada pela pandemia e o aumento do desemprego. Em Heliópolis e Paraisópolis, as duas maiores favelas paulistanas, relatos de líderes e agentes comunitários indicam que a procura por ajuda aumentou desde que o valor da parcela diminuiu para R$ 300. "O número de desempregados só aumenta. A fila de pedidos de cestas [básicas] e das marmitas diariamente só aumenta", afirma Gilson Rodrigues, 35, líder comunitário em Paraisópolis. Uma opção que servia de apoio para a população da região era o Bom Prato, que serve café da manhã a R$ 0,50 e refeições por R$ 1. No entanto, o local, que serve em média 2.800 refeições por dia, foi fechado para reforma em outubro, sem data de retorno. O fechamento do local durante a crise sanitária agravou a situação da região, segundo Rodrigues. "Nossa fila aqui deve aumentar mais, quando as doações só diminuem." Procurada, a Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo diz que, desde o início de novembro, implantou um plano de ação emergencial que tem entregado marmitas diárias em frente ao Bom Prato de Paraisópolis. A pasta não informou a quantidade de refeições entregues e nem se são gratuitas. Parte do grupo de risco, a manicure Lisbela Rodrigues, 66, de Suzano, recebeu quatro parcelas de R$ 600 e três de R$ 300. Com o dinheiro, os principais gastos foram com alimentação, remédios e despesas da casa. Segundo ela, o fim do auxílio vai dificultar a vida. "Ficará muito difícil. Estou sem trabalho e não tenho outra renda, não tenho de onde tirar dinheiro", diz. "O que impactou é que ou você come ou você paga as contas, não tem como sobreviver com R$ 300." Nas redes sociais, grupos de bairro têm sido utilizados para pedidos de alimentos, como arroz, feijão e ovo. Em Pirituba, por exemplo, pessoas comentam que há semanas não comem carne nas refeições. Entre elas, uma mãe afirma que há duas semanas tem comido apenas arroz e cuscuz com as filhas de cinco e sete anos. Moradora do Vargem Grande, também na zona sul, a dona de casa Mariana Santos, 20, mora com o marido, o filho e mais duas pessoas. Entre os residentes, apenas o marido trabalha, como autônomo, e Santos foi a única que recebeu auxílio emergencial. "Me ajudou muito. Quando entrou a quarentena, não tinha ninguém trabalhando em casa. As coisas estavam difíceis, e a gente tem criança pequena", diz. Ela chegou a se inscrever para receber cesta básica, mas não foi contemplada. Hoje, com parcelas de R$ 300 e o marido trabalhando, diz que a situação melhorou. No entanto, sem um emprego e nem uma renda fixa, a dona de casa se diz preocupada com o futuro. O auxílio emergencial foi gasto principalmente para a compra de alimentos --segundo pesquisa Datafolha de agosto, 53% dos beneficiários usaram o recurso com esse fim. Morador do Jardim Felicidade, na zona norte de São Paulo, o estudante de jornalismo Rodrigo Souza Marcelino, 22, recebeu cinco parcelas de R$ 600 e uma de R$ 300. O jovem trabalhava como estagiário na área de marketing, mas foi demitido. Para Marcelino, o valor recebido foi fundamental para ajudar a pagar os estudos. "Meu principal gasto com o auxílio foi para pagar a faculdade", diz. No entanto, mesmo quando recebia R$ 600 não era possível cobrir o valor integral da mensalidade, o que fez o jovem pedir ajuda dos pais. Ele mora com a mãe, empregada doméstica e vítima de um AVC (acidente vascular cerebral) isquêmico que deixou sequelas físicas. "Meu objetivo não é depender do auxílio emergencial. Estou disparando currículo. O dinheiro é um valor baixo e não supre a renda da minha casa nem o meu gasto com a faculdade, mas é importante neste momento", ressalta. Para o estudante, o governo federal "não tem noção" de quanto custa viver no país. "O arroz está caro, a carne está cara. Atualmente tudo custando muito, e os pobres estão ficando mais pobres e os ricos estão ficando mais ricos em plena pandemia." Na Grande São Paulo, a situação se repete. Em Mogi das Cruzes, a psicóloga Ana, 24, afirma que o auxílio funcionou como uma complementação de renda. "Me ajudou no período em que fiquei sem trabalhar, entre março e maio, a pagar contas atrasadas e agora a completar minha renda." Com a redução do auxílio, ela afirma que a vida financeira foi afetada. "Vou ter que rever gastos e ter uma nova reorganização para pensar as contas básicas, como água e luz." Quando retomou o trabalho, Ana voltou a andar de transporte público. São 25 minutos no trajeto de ônibus, além de uma caminhada. "Mas preciso sair uma hora e 20 minutos antes porque reduziram os ônibus, então se eu perco, chego atrasada", afirma. De acordo com a economista Regiane Vieira Wochler, 43, a pandemia do novo coronavírus explicitou a desigualdade social e racial no país ao afetar de maneira diferente ricos e pobres, brancos e negros. "Não à toa um negro tem até 61% mais chances de morrer de coronavírus que um branco no país", afirma.