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Os segredos da felicidade no meio do caos e da ansiedade

·6 minuto de leitura

Em mais uma comprovação de sua resiliência, a felicidade permaneceu surpreendentemente estável ao redor do mundo durante o último ano, apesar da pandemia que tem afetado a vida de bilhões de pessoas. Ao menos foi isso o que demonstrou o Relatório Mundial da Felicidade de 2021.

Como estudiosa do classicismo, não considero novidade essas discussões sobre a persistência da felicidade em meio a crises pessoais ou sociais.

“Hic habitat felicitas” – “Aqui mora a felicidade” – proclama a otimista inscrição de uma padaria de Pompeia, encontrada cerca de 2 mil anos depois da morte de seu dono, uma provável vítima da erupção do vulcão Vesúvio, que destruiu a cidade em 79 D.C.

Mas o que significava “a felicidade” para aquele padeiro pompeiano? E como a visão romana de felicitas pode nos ajudar em nossa atual busca pela felicidade?

FELICIDADE PARA MIM, MAS NÃO PARA TI

Para os romanos, tanto Felicitas quanto sua correlata, a Fortuna, eram deusas. Ambas tinham templos em Roma, nos quais aqueles que esperassem por alguma intervenção dessas divindades podiam depositar oferendas e fazer pedidos. Felicitas também foi retratada em moedas romanas desde o primeiro século antes de Cristo até o quarto século – fato que sugere sua conexão com a prosperidade financeira do Estado. Aliás, moedas cunhadas por diversos imperadores costumavam associar a boa sorte às suas regências. “Felicitas Augusti,” por exemplo, é uma frase encontrada na moeda dourada do imperador Valeriano, em iconografia comprova a intenção de proclamar que ele seria o homem mais feliz do Império, favorecido pelos deuses.

Ao associar a felicidade (“felicitas”) ao seu próprio estabelecimento, afirmando que ali era a sua morada, o padeiro pompeiano talvez também estivesse praticando a filosofia de manifestar o seu desejo com palavras, na esperança de atrair, na prática, bênçãos para seu negócio e para sua vida.

No entanto, essa mesma forma de encarar dinheiro e poder como fontes de felicidade propiciou uma cruel ironia durante o Império Romano.

Felicitas e Félix também eram nomes frequentemente dados a mulheres e a homens escravizados. Antônio Félix, o procurador de Judeia no primeiro século, por exemplo, era um ex-escravo cuja sorte virou. Já Felicitas é o nome da mulher escravizada que foi martirizada junto com Perpétua (conhecida no cristianismo como Santa Perpétua), em 203 D.C.

Os Romanos enxergavam nas pessoas escravizadas as provas vivas do status de seus mestres, uma espécie de materialização da sua prosperidade. Vista sob essa perspectiva, a felicidade mais parece um jogo de soma zero, porque poder e prosperidade dependiam diretamente da dominação. A Felicitas, no mundo romano, tinha um preço, afinal. E eram as pessoas escravizadas que o pagavam, para conceder aos seus donos a felicidade.

Do ponto de vista de um escravo romano, evidentemente, a felicidade morava em qualquer lugar bem longe dali.

ONDE A FELICIDADE REALMENTE MORA?

E na sociedade de hoje? A felicidade continua existindo somente às custas dos outros? Onde mora a felicidade quando os índices de depressão e de outras doenças mentais disparam, e quando os dias de trabalho ficam mais longos?

Ao longo das duas últimas décadas, os trabalhadores americanos vêm trabalhando mais e em jornadas mais longas. Uma pesquisa da Gallup de 2020 descobriu que 44% dos empregados em tempo integral trabalhavam mais de 45 horas por semana, enquanto 17% das pessoas estavam trabalhando 60 horas semanais ou mais.

O resultado dessa cultura de sobrecarga é que a equação entre felicidade e sucesso realmente parece somar zero. Quando trabalho e família entram em um cabo de guerra pelo nosso tempo e pela nossa atenção, há um alto custo envolvido. Geralmente, esse custo é humano, já que a felicidade pessoal sairá prejudicada de qualquer forma. Isso tudo já era verdade desde antes da pandemia de COVID-19.

Mas estudos sobre felicidade parecem se tornar mais populares justamente durante períodos de grande estresse social. Não por acaso, o mais longo estudo sobre a felicidade, conduzido pela Universidade de Harvard, surgiu durante a Grande Depressão de 1929. Em 1938, pesquisadores mediram a saúde física e mental de 268 então secundaristas e, durante 80 anos, monitoraram essas pessoas e alguns de seus descendentes.

O principal achado desta pesquisa? “São os relacionamentos próximos, mais do que dinheiro ou fama… os fatores capazes de manter as pessoas felizes durante suas vidas.” Isso inclui tanto construir e estar em casamentos e famílias felizes, quanto pertencer a uma comunidade acolhedora, ter amigos próximos. É importante ressaltar que os relacionamentos destacados no estudo são aqueles baseados no amor, no cuidado e na igualdade – o exato oposto do abuso e da exploração.

Assim como a Grande Depressão havia motivado o estudo de Harvard, a atual pandemia inspirou o cientista social Arthur Brooks a lançar, em abril de 2020, uma coluna semanal sobre felicidade chamada “Como Construir Uma Vida” (“How to Build a Life”, no título original). Em seu primeiro artigo da série, Brooks se debruça sobre pesquisas mostrando que fé e trabalho significativo – somados aos relacionamentos íntimos – podem aumentar a felicidade.

ENCONTRANDO A FELICIDADE EM MEIO AO CAOS E À DESORDEM

O conselho de Brooks se correlaciona com os achados do Relatório Mundial da Felicidade de 2021, que notou “um aumento de cerca de 10% no número de pessoas que disseram estar preocupadas ou tristes no dia anterior”.

Fé, relacionamentos e trabalho significativo contribuem para sentimentos de segurança e de estabilidade. Tudo isso também foi atingido pela pandemia. O padeiro pompeiano, que escolheu colocar a placa no seu negócio, provavelmente concordaria com a relevância da conexão entre felicidade, trabalho e fé. E, embora o padeiro não estivesse atravessando nenhuma pandemia (até onde os historiadores sabem), o estresse social não lhe era estranho.

É possível que sua escolha de decoração refletisse uma sensação subjacente de ansiedade – compreensível, dada a turbulência política em Pompeia e no Império de modo geral, nos últimos 20 anos da existência da cidade. No período da erupção vulcânica final, em 79 D.C., sabemos que alguns pompeianos ainda estavam se reerguendo e se reestruturando depois de um terremoto de 62 D.C. A vida do padeiro, portanto, deve ter sido permeada por lembranças de instabilidade e pelo medo de um desastre iminente. Possivelmente, a placa era uma tentativa de combater esses temores.

Pessoas realmente felizes precisam colocar um sinal proclamando a presença de felicidade em suas casas, apesar de tudo?

Talvez eu esteja superinterpretando esse objeto, talvez a inscrição da padaria fosse só uma bugiganga produzida em massa – uma versão do primeiro século dos atuais cartazes de “Lar doce lar” ou “Aqui vive uma família feliz” – que o padeiro ou sua esposa escolheu por impulso.

Mas a placa nos lembra de uma verdade importante: as pessoas na antiguidade manifestavam sonhos e aspirações de felicidade, assim como muitas pessoas fazem hoje. Vesúvio pode ter colocado um fim nos sonhos daquele padeiro, mas a pandemia não precisa ter um impacto permanente nos nossos. E, se por um lado o estresse do último ano e meio pode parecer insuportável, por outro, não há melhor momento para reavaliarmos prioridades e colocarmos pessoas e relacionamentos em primeiro lugar.

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