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Os desempregados 'desesperados para ter algo no currículo' que tentam a sorte em cursos profissionais

·10 min de leitura
Soraya Ribeiro, 55, em certificado do curso de porteiro nas mãos
Depois de uma década como vigilante, Soraya Ribeiro, 55, concluiu o curso de portaria

O professor Carlos Quiroga aconselha: "Vocês colocam e-mail no currículo? Muita gente não coloca, não, viu? Erro fatal. E vocês atendem o telefone? Tem que atender, gente. Vocês acham que é só telemarketing com cobrança? Mas e aí, se a empresa quer contratar vocês, como ela faz se não tem e-mail e vocês não atendem ligação?"

Manhã de segunda-feira, quarto andar do Edifício Claudina, rua Barão de Itapetininga, centro de São Paulo. Esse é só o começo da aula. Seis pessoas desempregadas iniciam o curso de portaria, controlador de acessos, recepção e fiscal de piso - carga de oito horas em um dia - na escola Discimus ("aprendemos", em latim).

Todos os meses, centenas de pessoas procuram escolas como essa em busca de cursos profissionalizantes de um único dia, a chamada "reciclagem profissional", no centro de São Paulo. Em outubro, a BBC News Brasil acompanhou duas aulas em duas escolas na região.

Em sua maioria, os alunos estão "parados" há vários meses (alguns, há anos). São moradores de bairros das periferias da cidade ou da região metropolitana, tem baixa escolaridade e pouca perspectiva de mobilidade no mercado de trabalho.

Alguns culpam a crise econômica pela situação difícil. Segundo o IBGE, o Brasil tinha 14,1 milhões de desempregados em julho, taxa de 13,7% da população. Esse índice vem caindo lentamente, mas os economistas não acreditam em uma ampla retomada do mercado nos próximos meses.

Já outros alunos reclamam das empresas por não darem oportunidades a quem tem mais de 40 anos. Por outro lado, os mais jovens dizem que a falta de experiência também pesa na hora da seleção.

Para ir ao centro da cidade, muitas vezes eles gastam o pouco dinheiro que sobrou do mês, ou pegam emprestado de parentes. Tudo válido pela busca do certificado de conclusão da "reciclagem". Veem na profissão de porteiro (ou controlador de acessos, ou recepcionista), uma chance de reencontrar um salário novo no fim do túnel.

E quem sabe agora, com o currículo um pouco mais recheado, algum empregador não se convença de que chegou a hora de dar uma oportunidade?

Professor Carlos Quiroga em frente a uma imagem de um currículo
No início da aula, o professor Carlos Quiroga explica aos alunos como se faz um currículo

'Ninguém me chama'

A rua Barão de Itapetininga ganhou a fama de Meca dos desempregados paulistanos por causa das dezenas de agências de recrutamento, lan houses que escrevem e imprimem currículos, empresas terceirizadas de serviços gerais, escritórios de advogados trabalhistas e centenas de anúncios de emprego colados nos postes do calçadão de pedras portuguesas.

No quarto andar do edifício Claudina, número 273 da Barão, fica a escola Discimus Cursos e Treinamentos, um dos locais procurados por desempregados todos os dias.

Em média, ela vende cursos a 200 pessoas por mês: tem de zelador, portaria virtual, gerente de condomínio, monitoramento por vídeo, controlador de acessos, informática básica. As aulas, em duas salas, duram no máximo dois dias e custam de R$ 40 a R$ 270, a depender do curso.

Antes de falar sobre questões técnicas de cada profissão, o professor Carlos Quiroga sempre ensina como fazer um currículo e dá dicas de boas maneiras para se portar em uma entrevista.

Segundo ele, no dia do embate final: 1) "Esteja descansado, não beba na noite anterior"; 2) "Evite gírias, tenha postura, vá bem vestido, nada de boné"; 3) "não fale mal de sua ex-empresa nem de seus antigos colegas"; 4) "seja verdadeiro, não venha com textos prontos"; 5) "explique como você será útil para aumentar os lucros da empresa".

Para Aldo Amaro dos Santos, de 54 anos, o problema é que as entrevistas ainda parecem distantes. "Para mim, a dificuldade mesmo é ser chamado. Ninguém me chama. Nem para a entrevista", conta ele, desempregado desde março.

Foram 20 anos organizando um arquivo até que... "A empresa fechou na pandemia, fui o último funcionário. No final eu não não era nem mais registrado", diz, num dos intervalos da aula. "Acho que conta muito a idade, desistem de me chamar quando veem 54 anos..."

Nos últimos meses, tem vivido do pé de meia que construiu com seu emprego anterior, onde ganhava R$ 1.600 por mês. "Minha sorte é que desde jovem sempre guardei um pouquinho aqui, outro ali. Mas uma hora o dinheiro acaba: eu tinha para um ano, mas já são sete meses parado", conta ele, que mora no Jardim Monte Azul (periferia da zona sul paulistana).

Então Aldo dos Santos decidiu que era melhor mudar de área para ter mais chances de receber um salário de novo - um porteiro ganha por volta de R$ 1.500 em São Paulo. "Acho que essa área de segurança e de portaria tem mais vagas e não se importam tanto com a idade", diz.

Mulheres olhando vagas de emprego
Na Barão de Itapetininga, em São Paulo, vagas de emprego são expostas na rua e em postes (imagem de 2019)

Para Tailane de Almeida, 24, o empecilho não é a idade, mas a falta de experiência. "Se você tenta entrar numa área nova, pedem experiência. Mas como a gente vai ter isso se ninguém te dá uma chance de entrar? Não dão oportunidade de você aprender...", diz ela, desempregada desde o início do ano.

De família pobre, Tailane parou de estudar no 6º ano do ensino fundamental. Trabalhou como operadora de telemarketing e, mais recentemente, em uma lanchonete de São João do Miriti, na Baixada Fluminense, onde vivia com a família. Mas o comércio fechou na pandemia de covid-19. "Vim para São Paulo pra tentar alguma coisa. No Rio estava muito difícil", diz.

Hoje ela mora no Tremembé (periferia da zona norte), onde divide a casa com outros familiares. Soube do curso de fiscal de piso por uma prima, que também emprestou os R$ 170 da inscrição. "Acho que é uma área que posso deslanchar, porque tem bastante vaga. A gente só coloca a mão onde consegue alcançar", diz.

Sem emprego garantido

Um dos sócios da escola Discimus é Fábio de Oliveira, de 50, que por duas décadas trabalhou na área de segurança. Em 2018, juntou-se a um primo e abriu a empresa de cursos no Edifício Claudina.

"Somos procurados por pessoas desesperadas por colocar alguma coisa no currículo. Eu diria que a maioria tem ensino médio incompleto, ou parou de estudar no fundamental", diz ele, que anota os dados dos alunos em uma planilha.

Segundo Oliveira, a procura pelos cursos aumentou durante a pandemia, principalmente depois que o governo Bolsonaro instituiu o auxílio emergencial de R$ 600, em abril do ano passado. "Muita gente pegou o dinheiro e pensou: 'preciso melhorar, fazer um curso, me atualizar", diz. Depois da diminuição do benefício para valores abaixo dos R$ 400, o movimento caiu um pouco, afirma.

professor dando aula
Na escola Discimus há cursos de portaria e monitoramento eletrônico

"A maioria das empresas não exige experiência na área de portaria, mas só contrata se tiver certificado", explica Oliveira.

Porém, o diploma não significa emprego garantido, ressalta. "Um médico consegue emprego só com a faculdade? Eu acho que não. Mas é o que sempre digo para os alunos: a qualificação é o que vai te diferenciar, ou, pelo menos, é o que vai colocar você na média", explica.

Segundo Oliveira, embora algumas empresas terceirizadas procurem a Discimus em busca de candidatos, a escola não promete emprego certo para ninguém.

Empresas e escolas que condicionam uma vaga à compra de um curso, por exemplo, podem ser alvo de operações da polícia por fraude. Há diversos vídeos na internet sobre desempregados que caíram em golpes de empresas que garantiam trabalho se elas fizessem um curso em determinado local - ao final, a vaga não existia.

Produção de currículos

Embora menos procurado, o curso de informática básica (R$ 40 por quatro horas de aula) também reúne alguns desempregados ao longo do mês.

"Muita gente não tem computador em casa, às vezes não sabe nem ligá-lo. Mas, quando chega na empresa, os chefes pedem para a pessoa fazer uma planilha de Excel com nome dos visitantes do condomínio. A gente ensina o básico: abrir o Word, o Excel, fazer uma planilha", diz Oliveira.

Na aula, o professor Quiroga pergunta se Aldo dos Santos é quem faz o próprio currículo. "Minha irmã me ajuda", responde. "Sua irmã deve saber disso, mas, se não souber, explica que nunca colocamos um idioma estrangeiro se a pessoa estiver um nível abaixo do intermediário. Inglês básico, não. Melhor não colocar", explica.

Fazer o currículo dos desempregados é uma atividade que movimenta o comércio da Barão de Itapetininga. Algumas lan houses escrevem e imprimem o documento por R$ 2. Uma delas fica na "sala F" do próprio Edifício Claudina, três andares abaixo da Discimus.

Quem produz o resumo é Robson Silva, 60, que há 22 anos trabalha no prédio. Na verdade, a principal atuação dele é tocar uma empresa de contabilidade na mesma sala, mas aproveita o espaço para escrever e imprimir currículos aos desempregados - às vezes até de graça.

"O pessoal até tem acesso (a computadores), mas não sabe fazer. Hoje em dia, aparece pouca gente aqui, o pessoal da periferia não tem dinheiro para vir até o centro. Precisa de pelo menos uns R$ 30 pra condução e alimentação. Muita gente não tem. Faço muito currículo de graça aqui... O cara não tem dinheiro, eu pego e faço, e Deus ajude...", diz.

painel com cartazes sobre a impressão de currículos e xerox
No edifício Claudina é possível fazer e imprimir um currículo por R$ 2

Silva também arrisca algumas dicas para um bom currículo. "O objetivo tem que ser claro: 'estou à disposição'. O que tiver, você pega", brinca.

"Se você tiver mais de 35 anos, coloca a data de nascimento, nunca a idade. O recrutador tem que ler vários currículos por dia. Ele bate o olho e vê '40 anos', já exclui... Se tiver a data de nascimento, ele vai ficar com preguiça de fazer a conta", diz.

'Futuro melhor'

Outra escola que oferece cursos de reciclagem profissional, o Instituto Educacional 6 de Maio, fica no primeiro andar da Galeria Boulevard, na rua 24 de Maio, paralela à Barão de Itapetininga.

Ali, o curso de porteiro e fiscal de piso custa R$ 70 por oito horas de aula. No período, o estudante aprende, por exemplo, os códigos repassados pelo rádio dos condomínios (QAP: na escuta; QRV: estou à disposição; QSM: repita a mensagem).

Depois de uma aula no início de outubro, a ex-vigilante Soraya Ribeiro, 55, desempregada desde fevereiro, exibiu orgulhosa à reportagem seu certificado de conclusão dos quatro cursos dos quais participou na manhã de um sábado.

Antes, ela já trabalhou de faxineira, ajudante geral, assistente de produção, vendedora de roupas e, no último emprego, foi segurança particular.

"Fiquei dez anos na empresa. Terminou o contrato, eles não renovaram e me dispensaram. Estou tentando uma nova área agora, na portaria, porque acho que nesse setor é mais fácil de conseguir emprego com minha idade. Parece que mulher não serve mais depois dos 40", diz.

Soraya mora em São Caetano, e hoje vive da ajuda de uma das filhas e do seguro-desemprego. Mas as parcelas do benefício estão chegando ao fim. "A gente se vira como pode, esperando um futuro melhor, dependendo da mão de Deus", afirma.

Renan Batista
Renan Batista está desempregado desde 2014

Já Renan Batista, 38, foi ascensorista, telefonista, assistente administrativo e, nos últimos meses, detetive particular - até nessa área o serviço anda escasso.

Ele não tem um trabalho regular desde 2014, sobrevivendo de bicos e do salário mínimo que recebe como pensão por ser cadeirante. O custo de vida e o aluguel de sua casa no Capão Redondo (periferia da zona sul) estão pesando no bolso. As conta se avolumam, diz. Se a situação apertar, ele pretende voltar para a Bahia para viver com a família que tem por lá.

Então ele decidiu tentar a vida como porteiro ou controlador de acessos. "Estou investindo nessa área, porque tem mais vagas. Sou otimista: uma hora o emprego vai aparecer, tenho certeza", diz, segurando o certificado do curso.

Agora é a atualizar o currículo.

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