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Os 10 melhores RPGs lançados para o PlayStation

Rafael Arbulu

O primeiro Playstation foi um dos consoles mais influentes do mercado mundial de jogos, além de, hoje, um item desejado por diversos colecionadores. Muito desse sucesso pode ser atribuído ao engrandecimento do gênero dos jogos de RPG. Foi naquela época que franquias lembradas até hoje encontraram seu nascimento, ou seu sucesso: nomes como Final Fantasy e Star Ocean persistem até hoje e, embora seu sucesso seja um arremedo do que representavam na época, é fato que estão entre os nomes mais queridos dos gamers.

E não é para menos: o primeiro console da Sony também foi o primeiro da história a superar a marca de 100 milhões de unidades vendidas, um feito obtido nove anos após o seu lançamento original. Jogos para a plataforma continuaram sendo desenvolvidos até 2006, um ano antes da chegada do PlayStation 3 ao mercado. Por isso, sobreviventes daquela época perduram com firmeza até hoje.

Pensando neles, o Canaltech listou os 10 melhores RPGs que foram lançados para o PlayStation.

10. Front Mission 3

O primeiro item da nossa lista é justamente um que foge do padrão tradicional medieval dos jogos de RPG, abordando uma temática mais voltada à alta tecnologia de guerra.

Front Mission 3 trouxe dois aspectos essenciais à franquia: o primeiro jogo da série a ser lançado oficialmente no Ocidente, bem como o primeiro (e único) a adotar um sistema de progressão estratégica ao invés de se concentrar no combate e orientação de ação. Ambientado no ano de 2112, o jogo coloca você no papel dos protagonistas Kazuki e Ryogo, dois amigos que se veem em meio ao conflito armado de duas cidades gigantes. Aqui temos um dos mais antigos exemplos de decisão que afeta todo o progresso de um jogo: Kazuki e Ryogo possuem narrativas específicas, e uma pergunta no início do jogo determina qual dos dois caminhos você seguirá.

Visualmente falando, os sprites animados conferiam um tom evolutivo aos gráficos primariamente cartunescos, agradando muito aos olhos sem precisar apelar para o aspecto high end dos Final Fantasy da época, e um sistema de combate voltado ao posicionamento estratégico de unidades, que lembra muito jogos como XCOM e Final Fantasy Tactics. Fora que a trilha sonora é um primor lembrado até hoje.

9. Wild Arms

Aqui temos um RPG que, estranhamente, ambienta sua narrativa em arquétipos mais inerentes a produções ocidentais, apesar de seu visual e origem obviamente japoneses. Em Wild Arms, você assume o controle de Rudy, o líder de uma gangue local que quer apenas ser o próximo conto bem-sucedido de “pobre que ficou rico”, mas uma inata capacidade de controlar armamentos gigantes antigos — os titulares “ARMS” — o coloca em rota de colisão com um grupo que busca dominar o mundo.

Wild Arms é um RPG sem muitos elementos inovadores, apostando no clássico roteiro “grupo de três luta contra monstros e faz level up”. O real charme do jogo está no volume de coisas auxiliares a serem feitas, um verdadeiro paraíso para os jogadores que vivem de completar todas as nuances de um título. Cada personagem aqui é evoluído à sua maneira, com os ARMS de Rudy, as magias branca e negra de Cecilia e as habilidades extras de Jack exigindo, para cada personagem, um bom tempo de dedicação.

Ademais, os visuais que mesclam tons de anime e sprites 2D animados ajudam na progressão da história, apostando em referências visuais para sinalizar momentos de grandes reviravoltas no enredo, bem como outros momentos de destaque. Finalmente, esse jogo conseguiu se destacar mesmo saindo pouco mais de um mês antes que outro item poderoso da nossa lista: Final Fantasy VII.

8. The Legend of Dragoon

Um dos títulos que mais merece um remake completo, The Legend of Dragoon é um “clássico injustiçado”, pois só atingiu fama e sucesso anos depois de seu lançamento, angariando um séquito cult de jogadores que só puderam apreciar sua beleza depois que o jogo deixou de existir.

Você assume o papel de Dart, um intrépido mercenário que, devido a uma série de reviravoltas, se vê capaz de despertar o poder da “Joia do Dragão Vermelho”, efetivamente tornando-se um Dragoon, um guerreiro de um exército lendário que salvou o mundo há milênios. Junto de outros guerreiros — cada qual com a sua joia draconiana —, é seu dever impedir o fim do mundo por parte de um vilão tão antigo que todos julgavam morto e esquecido, mas que voltou ainda mais poderoso.

The Legend of Dragoon trazia mecânicas pouco comuns em sua jogabilidade: nas lutas, todas baseadas em turno, os ataques se baseavam em um sistema chamado de Addition, — uma série de combos disparados dentro do mesmo turno. A graça estava na aleatoriedade com a qual inimigos respondiam a isso, por vezes contra-atacando no meio do seu ataque e, fosse você um pouco mais lento que o comando de tela pedisse, era o seu personagem a receber o dano. Adicione a isso uma das histórias mais criativas dos RPGs até hoje e uma empatia incomum com os personagens e suas construções, e você tem um título que vale qualquer oportunidade de ser jogado.

7. Xenogears

Xenogears dispensa apresentações para os fãs do gênero: uma lição ainda bastante moderna em storytelling e como a abrangência de uma narrativa pode contemplar vários episódios distintos em um único arco principal, o jogo coloca você na posição de Fei, um protagonista amnésico que leva uma vida pacata em um vilarejo interiorano, até que este é atacado por um exército capaz de pilotar as chamadas Gears, enormes máquinas de destruição bélica. Aqui é o real início do jogo, já que Fei de repente descobre-se capaz de pilotar não apenas Gears, mas ser o único compatível com aquela destinada a ser a maior de todas elas.

O jogo é interessante por abraçar vários conceitos ainda bastante modernos: genocídio de raças, comando de exércitos ultra-avançados por governos excessivamente religiosos, lavagem cerebral de personagens essenciais... tudo na narrativa de Xenogears se amarra de forma que até o mais coadjuvante dos personagens traz um passado que tem alto impacto na aventura.

Além disso, o jogo recebeu críticas bem favoráveis em relação ao seu visual, com sprites 2D animados sobre um fundo em 3D; e uma trilha sonora imersiva e com tantos detalhes que, ao se dar conta, você já dedicou horas e horas ao jogo sem nem ver o dia passar. É também uma ótima introdução para sua continuação espiritual no PlayStation 2, Xenosaga, mas isso é assunto para outra lista.

6. Breath of Fire IV

Este jogo foi o primeiro RPG de muitos jogadores hoje adultos a abordar a temática da dualidade na construção de um personagem — ainda que nós fôssemos jovens demais na época para compreender isso. Breath of Fire IV segue a narrativa de Ryu, um homem meio humano, meio dragão que busca determinar sua própria identidade e encontrar seu rumo de vida. Ao longo da narrativa [leve spoiler aqui], Ryu descobre que na verdade é a metade de um ser, sendo a outra uma divindade antiga chamada Fou Lu — ambos foram separados quando uma tentativa mal concebida de invocação divina prendeu Fou Lu, deixando apenas Ryu livre.

Essa premissa torna-se interessante por estabelecer um dilema moral ao jogador: você é quem determina se Ryu, junto de outras divindades menores, segue um rumo justo, tornando-se uma entidade benevolente e colaborativa; ou se persegue o caminho da força, efetivamente unindo-se a Fou Lu, com o resultado sendo um ser que prioriza o domínio — um “deus alfa”, se preferir.

No que tange à jogabilidade, Breath of Fire IV segue o mesmo padrão da maior parte dos jogos de RPG: batalhas em turnos, evolução comum de personagens com base em pontos de experiência e visual isométrico com sprites animados em duas dimensões. Aqui, porém, tudo se amarra na história, e a empatia gerada pelos personagens fazem com que você queira ver o desfecho desse conto até o fim, aproveitando de todos os seus recursos até o máximo.

5. Vagrant Story

Outra joia dos tempos áureos do PlayStation que, a exemplo de The Legend of Dragoon, apenas foi alçada ao status de “grande RPG” muito tempo após seu lançamento e descontinuação. Vagrant Story coloca você no papel de Ashley Riot, um agente conhecido como Riskbreaker por trabalhar sozinho e assumir apenas missões de alto perigo, porém alta recompensa.

Sua função é desvendar todo o mistério por trás da morte de um Duque, ao ponto de o jogo de fato começar uma semana antes do fatídico momento, estabelecendo as ações e passos de cada personagem-chave até culminar na morte da figura política. O interessante é que o jogo traz tantas reviravoltas que até parece um livro escrito por Agatha Christie, só que com magias, demônios e um esquema de progressão diferente de tudo o que a Square Enix já tenha produzido.

Na jogabilidade, outra inovação: um sistema de batalha que favorece um esquema de “círculo de ação” e que permitia a você atacar diversas partes do corpo de um oponente (similar a como Fallout faz ao mirar na cabeça, braços ou tronco de um inimigo), além de magias visualmente deslumbrantes, feras massivas em tamanho e um sistema de “Risco” que trazia impacto direto na eficácia de seus movimentos.

4. Star Ocean: The Second Story

É verdade que Star Ocean: The Second Story não é bem o RPG mais bonito — mesmo no PlayStation original —, mas o que o destaca é sua capacidade narrativa, trazendo um enredo bem expansivo, rivalizando com qualquer Final Fantasy em escopo. Embora deposite contra o jogo o fato de ele apostar em velhos clichês (herói começa sem entender nada > estabelece um ponto de inflexão > descobre quem é o grande antagonista), é no seu final que o jogo mostra a que veio.

Bom, finais, na verdade: todos os 87 deles, embora alguns sejam repetidos com uma ou duas variações. O interessante é que isso, junto da jogabilidade característica, estabeleceu um padrão para toda a franquia. Os finais se alteram de acordo com detalhes ocorridos no jogo (alguns, facilmente ignoráveis) e a jogabilidade requer que você se mantenha em movimento o tempo inteiro, eliminando a batalha por turnos e priorizando o combate em tempo real — algo bem raro naquela época.

Hoje, a franquia Star Ocean é bem estabelecida, embora não tenha a grandeza de outros títulos da lista, mas ainda assim é um nome bastante lembrado pelos gamers mais hardcore.

3. Final Fantasy VII

Você sabia que esse jogo estaria aqui, certo? Por mais que seja um clichê bem batido falar isso (especialmente com pelo menos três outras listas no Canaltech com alguma referência ao jogo), Final Fantasy VII é inegavelmente o jogo que marcou a geração noventista fã do primeiro PlayStation. A forma como a Square Enix criou uma narrativa que envolve preconceito junto de evidentes problemas psicológicos — o “Complexo de Messias” atribuído a Sephiroth; os lapsos de memória que denunciam o real passado de Cloud —, tudo isso fez deste um jogo à frente de seu tempo.

Adicione a isso o fato de que havia tanta coisa a ser abordada nesse enredo que toda a história acabou crescendo além do próprio jogo, sendo necessária a criação de todo um compêndio de expansão do universo do jogo para abraçar tudo o que ele traz à mesa. Fazendo as contas, tivemos, além do jogo principal, um filme, uma novela em áudio, um OVA e três jogos principais que expandem em linhas temporais que antecedem e sucedem a aventura primária. A paixão dos fãs por Final Fantasy VII é tanta que a Square Enix não teve outra escolha a não ser desenvolver um remake completo para a geração atual de consoles.

Seus personagens, profundamente detalhados, também acabaram aparecendo em outras séries, de outros jogos, atestando à influência que seus nomes — e seu jogo — trazem ao mercado como um todo.

2. Suikoden II

A continuação direta e ambientada alguns anos depois do Suikoden original, Suikoden II é um exemplo de como montar uma narrativa massiva em tamanho, trazendo nada menos que 108 personagens recrutáveis, todos com algum peso no storytelling maior que estabelece o pano de fundo do jogo. Claro, nem todos os personagens são utilizáveis, mas explorar o mundo em busca de todos eles assegura uma progressão diferente, com vários finais a serem descobertos.

O arco majoritário do jogo envolve uma nação que viola um tratado de cessar-fogo, uma trégua desejada por todos os soldados, dos dois lados. Você assume o papel de um herói (nomeado por você mesmo) e seu amigo Jovy, “parças” desde a infância, mas que, conforme a trama de desenvolve, acabam indo parar em lados opostos. É um conto bastante interessante e, a julgar pelos rumos do mundo, bem atual.

O jogo perde um pouco do seu brilho na jogabilidade, apostando em mecânicas comuns de batalha por turnos, mas compensa isso oferecendo magias que, quando lançadas, são um verdadeiro deslumbre visual, mesmo desenhadas em 2D.

Menções honrosas

Grandia e Chrono Trigger: sim, você deve estar se doendo horrores por não termos incluído Chrono Trigger em nossa lista principal. E todos os pontos que você posicionar — visuais belíssimos, enredo detalhado e ambientado em viagens no tempo e o fato de que é uma espécie de “clássico dos clássicos” — não terá qualquer oposição de nossa parte. O mesmo vale para Grandia, que apesar não ser tão charmoso, ainda é um dos RPGs mais lembrados da época, até mesmo por ser um dos únicos que contava com dublagem direta.

O problema fica mesmo na nossa parametrização da lista: embora ambos jogos tenham encontrado seu maior sucesso no PlayStation, nenhum deles pertenceu ao console da Sony. Chrono Trigger foi originalmente lançado no Super Nintendo, enquanto Grandia saiu antes no falecido (porém icônico) SEGA Saturn. Então, a fim de manter a objetividade, mas sem deixar passar ambas as menções, optamos por posicioná-los aqui.

Agora, se você ainda quer mais “Chrono” nesta lista...

1. Chrono Cross

E chegamos: por mais que Final Fantasy VII tenha sido o RPG que mais perdurou na preferência do público até hoje, é Chrono Cross que, pelo nosso entendimento, sagrou-se como uma sequência perfeita. Vindo diretamente dos eventos de Chrono Trigger, aqui somos apresentados a Serge, uma anomalia temporal que serve como o ponto de uma enorme bagunça entre diversas dimensões — ainda que ele próprio não tenha ciência disso no começo.

A partir do momento em que você é capaz de transitar entre duas versões bem diferentes do mesmo mundo (algo que acontece bem no início do jogo), a primeira coisa a se notar é que os mesmos personagens seguiram rumos diferentes em suas vidas, e olha que, em uma dessas dimensões, Serge é uma figura desconhecida para a maioria. Ao mesmo tempo em que essa questão de “outras vidas” é bastante explorada, também há o conflito interno de Serge, que se dá conta de que não existe em uma parte dessa viagem, levando-o a uma busca por identidade própria. Quer mais prova de que o jogo transparece isso com maestria? Serge é um personagem mudo, seus diálogos não são vistos pelo jogador. Isso e as muitas referências aos protagonistas do jogo anterior e a continuidade de suas vidas após os eventos daquela batalha.

No âmbito da jogabilidade, você tem horas e horas de exploração de um mundo que, embora menor que outros desta lista, traz uma riqueza de detalhes incomum, com mais de 40 personagens recrutáveis e controláveis e nada menos que 12 finais diferentes, acionados de formas desconexas, justamente para confundir sua progressão.

Não gostou? Pega nóis!

Como sempre, sabemos que elaborar listas ranqueadas como esst é um prato cheio para discordâncias e opiniões contrárias. Convenhamos, o PlayStation teve bem mais que 10 RPGs de sucesso e muitos outros foram considerados aqui.

O que nos leva a você: sentiu falta de algum jogo ou acha que vale a pena uma menção especial a algum que nós deixamos passar? Que tal contar para nós nos comentários abaixo? Nossa equipe até entra na brincadeira e interage com a maior parte dos leitores. Estaremos esperando por você.

Fonte: Canaltech

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