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Oprimidos pela realidade, haitianos trocam sonho americano por oportunidade no México

·3 minuto de leitura
Migrante haitiana em Ciudad Acuña, estado de Coahuila, México, em 23 de setembro de 2021 (AFP/PEDRO PARDO)

O paraíso americano se desfaz para Yslande e outros refugiados haitianos em um acampamento na fronteira com Ciudad Acuña. Em seu lugar, surge uma opção mais realista: legalizar sua residência e conseguir um emprego no México para sobreviver.

"Não estou com pressa de entrar nos Estados Unidos. Se eu encontrar uma oportunidade, sim, mas se não puder, não vou arriscar cruzar", diz Yslande Saint Ange, de 29 anos, que chegou ao país acompanhada do marido e da filha.

"Se eu não conseguir, e eles [as autoridades mexicanas] puderem nos ajudar com os papéis para podermos procurar emprego, alugar um quarto, ficaremos tranquilos", acrescenta com determinação.

Espalhados pelo parque Braulio Fernández, grupos de homens e mulheres deliberam.

As reuniões acontecem depois que uma operação policial assustou-os pouco antes do amanhecer de quinta-feira (23), quando o parque foi repentinamente cercado por dezenas de viaturas e mais de 100 policiais.

"Levantei correndo e disse pro meu marido que se levantasse para correr, porque a migração ia levar a gente", lembra Saint Ange.

- Voltar ao "inferno" -

Logo depois, funcionários do Instituto Nacional de Migração (INM) apareceram para informá-los de que a ação visava a "protegê-los" e "convidá-los" a deixar o espaço e voltar para Tapachula, na outra ponta do México. Eles ficariam nesta localidade para aguardar a resposta às suas solicitações de refúgio.

Situada na fronteira com a Guatemala, essa cidade está mergulhada no caos, em meio à presença de dezenas de milhares de centro-americanos e de haitianos que aguardam há meses a resposta da Comissão Mexicana de Ajuda aos Refugiados (COMAR), tendo de se virar como podem para comer e subsistir.

A grande maioria dos haitianos presentes em Ciudad Acuña deixou Tapachula por conta das dificuldades.

"Se eu for para Tapachula, como vou fazer? (...) Saí do meu país há quatro anos. Não tenho minha irmã, não tenho meu pai, não tenho nada. Nada!", exclamou entre lágrimas Hollando Altidor, de 25 anos, a um funcionário do INM.

"Tapachula parece um inferno para nós", acrescenta um jovem sentado ao lado de Altidor que se recusa a revelar seu nome.

Depois de discutir veementemente com outros colegas sobre o que fazer nas próximas horas, Marc Desilhomme, um jovem alto de 29 anos, diz que não se importa em ficar no México para enviar algum apoio para sua filha que mora no Chile.

"Por enquanto, não tenho nada. Não tenho dinheiro e tenho uma menina para ajudar. Preciso de papéis para trabalhar, porque você sabe que a migração te incomoda se não tiver papéis", explica.

- Resignação -

Os imperativos são maiores para quem viaja com crianças. Etlover Doriscar, de 32 anos, pegou o filho e a esposa pela mão e fugiu com a roupa do corpo, acreditando que seria detido durante a operação policial.

"Você não pode brigar com a polícia, ou com a imigração. Eles sabem o que podem fazer conosco, e nós não podemos fazer nada", afirma, resignado.

Tentar entrar nos Estados Unidos e correr o risco de ser deportado está fora de questão para Doriscar. Nos últimos dias, ele viu centenas de compatriotas devolvidos do país vizinho para Porto Príncipe.

Ele também não planeja voltar ao Brasil, onde aguentou sete anos como motorista de Uber com uma renda que não dava para sustentar a família.

Agora recuperada do choque, Sonja Pierre, uma mulher corpulenta de 43 anos com uma voz poderosa, insiste em que as autoridades não devem forçá-los a voltar para Tapachula para concluírem suas solicitações.

"Que o COMAR faça uma visita aqui", diz Pierre, que chegou a Ciudad Acuña há uma semana. "Somos pobres, procuramos trabalho. Não estamos de férias", afirma.

jla/axm/rsr/mr/tt

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