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Oposição na Hungria acerta com nome conservador, diz especialista

·5 min de leitura

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - A oposição da Hungria está fazendo tudo tão certo para tirar do poder o premiê autocrata Viktor Orbán que um fracasso pode ter consequências graves, diz o especialista em estratégia Maciej Kisilowski, professor da Universidade da Europa Central.

"É como uma terapia muito eficiente dada a um doente de câncer avançado. Ele pode morrer não porque o remédio era errado, mas porque o tratamento chegou tarde demais", afirmou o analista em entrevista por videoconferência, de Viena, onde vive.

No ano passado, os seis principais partidos húngaros de oposição a Orbán fizeram um pacto para lançar candidato único na eleição parlamentar, no próximo semestre.

Com siglas de todo o espectro político, da esquerda à direita, a frente ampla fez prévias nacionais e escolheu na semana passada o católico e conservador Péter Márki-Zay como adversário do atual primeiro-ministro da Hungria.

Em dezembro do ano passado, antes da união, nenhuma das siglas superava os 14% das intenções de voto, na média das pesquisas. Unidas, elas estão com 47%, empatadas com o Fidesz, partido do premiê.

Para Kisilowski, os progressistas entenderam que a sociedade húngara é majoritariamente conservadora e é preciso engajar esse eleitorado para recuperar a democracia.

Folha - O sr. diz que a oposição húngara fez uma manobra perfeita, mas assustadora. Por quê?

Maciej Kisilowski - Não foi tudo suave, mas eles se mostraram capazes de refrear os egos e aceitar um candidato que, institucionalmente, era o mais fraco.

Mas é como uma terapia excelente dada a um paciente cujo câncer está tão avançado que mesmo o melhor remédio não funciona mais.

A abordagem até aqui foi brilhante; a não ser em teoria, é difícil imaginar como poderia ser melhor. E é isso que é assustador.

Folha - Que risco o assusta?

Maciej Kisilowski - Se a oposição na Hungria falhar, outras sociedades em que o autoritarismo não está tão avançado podem achar que não vale a pena se unir. É uma conclusão perigosa, porque o problema não é com a terapia, mas com o estágio da doença. Já são 12 anos, há toda uma geração de húngaros de até 20 anos de idade que não sabe o que era o mundo antes de Orbán.

Por isso o desfecho dessa eleição significa tanto para países como a Polônia, e pode interessar também aos brasileiros.

Onde a democracia está ameaçada, adotar estratégias de países democráticos é um equívoco. É preciso olhar não para França ou Alemanha, mas para a Rússia, Turquia e Hungria.

Folha - Que lição pode sair da Hungria? ]

Maciej Kisilowski - Orbán, educado no exterior, fluente em inglês, tornou-se a face do iliberalismo, articulou uma ideia assustadoramente coesa, até o termo democracia iliberal foi ele que cunhou.

Se essa estratégia da oposição levar à vitória desse extraordinário líder iliberal, será um divisor de águas. Um daqueles momentos históricos em que a democracia reage e consegue virar o jogo, como o Acordo da Mesa Redonda na Polônia em 1989 [com o até então proibido sindicato Solidariedade]. Vai influenciar enormemente outros países sob regimes autoritários.

Se não funcionar, desaguará em muito desapontamento e vai alimentar os demônios que costumam consumir as oposições democráticas: as brigas de ego, desentendimentos, rivalidades, certamente insufladas também por ações deliberadas do regime.

Folha - Como a oposição húngara contornou essa armadilha?

Maciej Kisilowski - Estipularam regras muito claras e se amarraram ao mastro. Disseram "haja o que houver, vamos manter o processo e aceitar seu resultado". E aceitaram.

O acerto vem de adotar uma só meta: livrar-se da máfia que capturou o Estado. Não estão se propondo a resolver um zilhão de outros problemas; isso fica para uma segunda etapa. É admiravelmente modesto e focado.

Folha - O fato de se organizarem em todos os distritos aumenta a chance de vitória, já que o sistema é parlamentarista?

Maciej Kisilowski - Também, mas, para mim, o fator-chave foi a decisão do [prefeito de Budapeste, Gergely] Karácsony, um notório progressista, de desistir da disputa e apoiar Márki-Zay.

Ele percebeu que, por causa do regime autoritário, o centro político se moveu para a direita, e um democrata conservador tem mais chances.

Há uma grande parcela do eleitorado que desconfia de políticas progressistas. Há muito racismo e medo de perder privilégios, claro que apelar para esses eleitores não é agradável. Mas é preciso ser pragmático: democracia é pré-requisito. Sem ela, temas como desigualdade de renda, direitos humanos ou racismo nem chegam à mesa.

Klára Dobrev é uma política articulada, competente, com vida própria, seria a primeira mulher no governo da Hungria, mas não chegou ainda a hora de ter esses sonhos.

Folha - O fato de que Márki-Zay surgiu com uma plataforma antissistema não revela fraqueza dos partidos?

Maciej Kisilowski - Não acredito. Tudo o que está acontecendo seria impossível sem os partidos tradicionais. De fato Márki-Zay tem uma retórica populista, mas isso valoriza ainda mais a capacidade dos partidos de se manterem firmes no acordo que fizeram.

Folha - Colocar um populista no poder não seria arriscado?

Maciej Kisilowski - Sempre há risco. Orbán, nos anos 1990, era o líder dos liberais. Mas, como diz meu compatriota [professor de política da Universidade de Nova York] Adam Przeworski, democracia é um sistema em que partidos perdem eleições.

Vamos ser modestos e garantir a derrota deste regime húngaro cujo único propósito é não perder eleições.

Vai haver outras ameaças. Não vamos viver felizes para sempre. Podemos fazer melhor, mas não estamos nessa etapa ainda. Precisamos de partidos políticos responsáveis, em que progressistas entendem que um sistema estável depende de ceder e estabelecer regras do jogo que os conservadores aceitem, porque eles são parte desse jogo.

Sim, eles questionam pontos que para nós são direitos humanos, mas essa é a realidade na qual temos que agir se queremos ter uma democracia. Não adianta fantasiar que só um lado do espectro político é democrático e cruzar os dedos na esperança de que esse lado sempre vença. Isso não seria democracia.

Precisamos combinar regras que garantam eleições livres e competitivas e criar instituições que protejam essas eleições livres e justas, não importa quem vença. Há espaço suficiente de políticas públicas para depois promover mudanças dentro do sistema, sem destruí-lo.

Porque este é o problema: a democracia vai enfrentar dificuldades sempre, e os partidos precisam mostrar aos eleitores que existem outras maneiras de resolvê-las que não passam por jogar tudo fora, desistir da democracia.

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