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OPINIÃO | Grow nos lembra por que devemos desconfiar do capitalismo sustentável

Rafael Rodrigues da Silva

Nas últimas semanas, todos nós já nos indignamos com a história da Grow, a empresa que chegou no Brasil vendendo um discurso de economia sustentável e que, após finalizar suas atividades no país, foi descoberta jogando todas as suas bicicletas em terrenos e galpões vazios, misturando equipamentos em perfeito estado com aqueles que estão danificados, criando um verdadeiro lixão de bicicletas.

Claro, em declaração para o Canaltech, a companhia garante que isso é só “temporário” e que ela, na verdade, irá fazer a separação das bicicletas que funcionam e doá-las para ONGs e instituições de caridade. Mas, se uma imagem vale mais do que mil palavras, a que a companhia está deixando gravada na cabeça de todos não é a de crianças felizes recebendo uma bicicleta nova, mas a dessas bikes amontoadas como se fossem lixo em terrenos baldios.

Muitos clientes da empresa ficaram bastante decepcionados pelo tratamento, e alguns chegaram até mesmo a se sentir “traídos” pela atitude. Mas, no fim, a Grow não é a primeira e nem será a última empresa a se aproveitar do discurso ambiental apenas quando lhes convém, e pode nos servir como um lembrete de por que devemos desconfiar de toda essa ideia mais recente de um “capitalismo sustentável”.

Sustentabilidade x rentabilidade

A ideia condutora daquilo que conhecemos como capitalismo sustentável é, por si só, bastante louvável: continuar a busca pelo lucro, mas de um modo que respeite o meio-ambiente e a dignidade humana. Mas há uma palavrinha ali que torna difícil levar a sério essa ideia: “capitalismo”.

Primeiro, é preciso deixar bem claro que, independente do nome que se dê, qualquer empresa que opere sob uma base capitalista vai ter sempre uma única coisa como prioridade: o acúmulo de capital (dinheiro, grana, bufunfa, verdinhas, dóls, ou qualquer outra palavra de sua preferência). Ganhar mais dinheiro do que gastar será sempre o primeiro, segundo e terceiro objetivo de qualquer empresa. E, por mais que quase todas façam propagandas bonitas sobre como o “cliente está sempre em primeiro lugar”, não faltam exemplos de empresas literalmente escolhendo matar pessoas ao invés de precisar gastar.

O caso mais emblemático disso aconteceu com o Ford Pinto, um automóvel lançado na década de 1970 e que foi um enorme sucesso de vendas nos Estados Unidos. O problema é que esse automóvel vinha com um defeito de fábrica no tanque de gasolina que, caso houvesse uma colisão traseira no veículo com uma velocidade de cerca de 50 km/h, um vazamento no tanque fazia o carro explodir, tornando um acidente que poderia ser rotineiro (afinal, em batidas nessa velocidade, se o motorista e os passageiros estiverem usando cinto de segurança, há pouco risco de vida) em algo que pode matar todos os ocupantes do veículo ou, ao menos, causar queimaduras gravíssimas, do tipo que podem atrapalhar durante todo o resto da vida.

Ford Pinto, de 1973, o carro mais controverso da história (Imagem: Mark Brooks)

Ao efetuar um estudo interno do problema, a Ford confirmou que o que estava fazendo os carros explodirem era mesmo uma falha de projeto no tanque de gasolina, e a empresa gastaria 11 dólares por veículo para fazer a troca da peça por uma que deixasse os ocupantes do veículo em segurança no caso de batida traseira, enquanto ela foi condenada a pagar US$ 200 mil para cada vítima fatal da explosão do Pinto e US$ 67 mil para cada sobrevivente da explosão que ficou com queimaduras graves. A empresa então fez os cálculos de quanto iria gastar para efetuar o recall de todos os Pintos que vendeu e, com base nas estatísticas de veículos acidentados e porcentagem de vítimas fatais/queimaduras graves desses acidentes, a Ford chegou à seguinte conclusão: ela gastaria US$ 137 milhões para efetuar o recall e trocar as peças de todos os veículos que vendeu, e cerca de US$ 49 milhões caso escolhesse pagar automaticamente a indenização de todo mundo que foi vítima do erro da fábrica.

Assim, a Ford não teve dúvidas: a empresa não faria o recall, e assumiria o risco do Pinto de — segundo o próprio relatório — matar em média 180 pessoas por ano, simplesmente porque saía muito mais barato pagar as indenizações do que corrigir o erro de fabricação.

E este não é o tipo de decisão que acontecia no passado, mas que não ocorre mais hoje. A Boeing é um belo exemplo de que este tipo de coisa continua a acontecer, pois a empresa sabia do problema de software que havia no 737 MAX, mas preferiu não mexer em nada para economizar uns trocados — e isto acabou causando a queda de dois aviões deste modelo e a morte de centenas de pessoas a bordo deles.

O segundo ponto é lembrar qual é o principal motivo do capitalismo ser um sistema econômico que se mantém forte há séculos e não corre qualquer risco de ser substituído (como aconteceu com todos os outros sistemas econômicos da história): a capacidade que ele possui de subverter e tomar para si qualquer ideologia que se coloque contrária ao que prega.

Foi assim com o hippie, que surgiu como um movimento progressista anti-guerra e anti-ganância, e acabou sendo transformado em uma forma de vender roupas largas, super coloridas e com estampas floridas; foi assim com o punk, que surgiu como um movimento musical/operário inglês de denúncia da exploração capitalista e foi transformado em um discurso de rebeldia vazia para vender calças rasgadas, piercings e tinta de cabelo para adolescentes; e foi assim até com a revolução cubana, que durante anos foi o símbolo da maior ameaça ao capitalismo nas Américas e acabou tendo todo seu contexto histórico esvaziado, transformando o rosto de Che Guevara em uma marca tão reconhecida quanto a Coca-Cola e o McDonald's.

E é exatamente isso que, nos últimos anos, está acontecendo com o discurso ambiental: ele está sendo distorcido, esvaziado de significado e transformado em um produto que garantirá que o acúmulo de capital continue a acontecer. E isso cria alguns efeitos interessantes para as próprias empresas.

O primeiro deles é a projeção de uma sombra de positividade sobre o público consumidor; a (falsa) ideia de que a empresa se importa mais com o meio-ambiente do que com o lucro, e que por isso deveríamos, como consumidores, adquirir mais produtos e serviços daquela empresa do que das concorrentes, pois ao fazer isso, estaríamos ajudando a salvar o mundo com nosso consumo.

Outro efeito é a distração do público para assuntos menos importantes da própria pauta ambiental. Por exemplo, todo o barulho que foi feito nos últimos anos por causa da questão do canudo de plástico e as tartarugas: não que salvar tartarugas não seja importante, mas não estamos fazendo nenhuma melhoria real para o meio-ambiente quando focamos toda a nossa força para discutir um problema que responde a menos de 1% de todo o lixo que é jogado nos oceanos e ignoramos a discussão sobre o que fazer para reduzir a produção de lixo não apenas como consumidores, mas em escala comercial.

Descarte de bikes na China (Foto: Reprodução/The Guardian)

E é isso que o capitalismo faz com o discurso ambiental: esconde aquilo que não quer que seja discutido (como a redução da produção de lixo industrial) e cria uma narrativa de fácil resolução (é só parar de usar canudos de plástico que iremos salvar as tartarugas da extinção). Mas, além destas questões não serem resolvidas de verdade (agora não é mais o canudo que mata as tartarugas, mas todas as outras toneladas de lixo que são jogadas diariamente nos oceanos), o modelo de mercado ainda atiça nossa vontade de “fazer o bem” enquanto consumidores, utilizando-a para aumentar ainda mais os lucros de algumas companhias (a indústria de canudos sentiu o baque, mas as grandes redes de lanchonete economizaram milhões com o discurso do fim dos canudos).

Enquanto isso, a mesma retórica faz com que sintamos que “cumprimos nosso papel” (salvamos as tartarugas, yay!) e rapidamente já cria outro “fantasma” de combate fácil que servirá apenas para nos fazer sentir felizes por aumentar o lucro das empresas — mas que não influencia em nada os reais problemas ambientais, que em sua maioria são causados justamente pela necessidade de se explorar ao máximo a natureza em troca de lucro.

Por isso, não há porque ficarmos “frustrados” ou nos sentirmos “traídos” pelo tratamento que a Grow está dando às suas bicicletas: este não é um “ponto fora da curva”, mas apenas mais um exemplo de uma empresa colocando o lucro próprio acima de qualquer outro valor. E é por isso que devemos desconfiar de qualquer companhia que venha com um discurso de sustentabilidade e respeito ao meio-ambiente, pois assim como tantas empresas já nos provaram ao longo dos anos, ele será prontamente abandonado no exato momento que não mais estiver gerando lucros.

Este é um artigo de opinião e pode não refletir a ideologia do Canaltech


Fonte: Canaltech

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