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Startups brasileiras sofrem com onda de demissões

Foto: Getty Images

Por Matheus Mans

Grandes startups brasileiras estão passando por uma fase de cortes de funcionário em decorrência da crise do novo coronavírus. Falta de investimentos, baixo fluxo de caixa e impacto por conta do isolamento social obrigaram empreendedores a cortar a folha de pagamentos e reduzir as suas equipes.

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De acordo com fontes consultadas pela reportagem, o número de demissões em startups brasileiras já passa das 1,5 mil. Dentre as principais afetadas, estão as de viagens, academias, imóveis e bancos digitais. Especialistas apontam que este número pode triplicar caso a crise se prolongue até o final de junho. Além dessa data, o cenário é incerto.

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Segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), o país conta com 13 mil startups. Cada uma delas, em média, conta com um quadro entre 30 e 60 funcionários.

“As startups, por definição, estão numa fase da vida vulnerável. Por não estarem totalmente maduras, dependem de investimentos. É o que está mais escasso no momento”, afirma Josilmar Cordenonssi, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Assim, elas começam a entrar num estado de hibernação, reduzindo gastos e retraindo”.

Viagens e academias

A MaxMilhas, startup que intermedia a compra e venda de milhas em programas de fidelidade de empresas aéreas, teve que fazer um corte brusco em sua equipe. Com o setor praticamente paralisado, 42% dos profissionais da startup foram desligados durante a crise. São cerca de 167 demissões, em um quadro antes composto por mais de 400 funcionários. 

“A alteração do mercado refletiu fortemente em nosso negócio. Tivemos uma queda brusca nas vendas de passagens ao longo de março e abril e grande parte dos voos comprados em nosso site foram cancelados”, disse a startup em comunicado. “O impacto foi grande e, infelizmente, nos vimos forçados a tomar medidas extremas frente a um cenário extremo”.

Agora, a startup tenta remediar a situação como pode. Segundo o mesmo comunicado divulgado, a empresa diz que está acompanhando a recolocação dos profissionais desligados e que tem tomado medidas práticas. Como, por exemplo, “possibilidades de auxílio de custo e da manutenção do plano de saúde ao longo dos próximos meses”. 

Na Gympass, que conecta usuários com academias, o impacto foi sentido após a obrigatoriedade do fechamento desses estabelecimentos durante a quarentena. A empresa não confirma o número de demitidos, mas informações do mercado indicam que o corte foi de até 300 funcionários. Em nota, a startup confirma que foi afetada pela atual crise.

“Com a maioria das academias sendo obrigadas a fechar, foi necessário fazermos algumas mudanças para reduzir custos, o que incluiu a decisão mais difícil de todas: reduzir a nossa equipe”, explica.

Bancos e imóveis

O banco digital C6 Bank afirma que fez uma redução de 80 posições num grupo, dentre 1 mil contratados. De acordo com comunicado, a motivação foi uma “parada da economia”.

Outro banco digital seguiu um mesmo caminho: a Neon Pagamentos confirmou que fez um reajuste de “menos de 10% de seu quadro de colaboradores” — aproximadamente 70 posições, segundo apuração do Yahoo Finanças. Em comunicado, a empresa diz que parte das demissões foi para reajustes internos. Um outro montante, porém, por conta da crise.

Na área de imóveis, os impactos também foram sentidos. O QuintoAndar confirma que precisou reduzir seu quadro de funcionários em 8% -- antes da crise, o número total de funcionários era de aproximadamente 1,1 mil. Segundo a startup, os cortes chegaram após “redução nos volumes projetados de demanda por aluguel e venda de imóveis residenciais”.

“O ajuste otimiza e aumenta a eficiência da estrutura interna do QuintoAndar”, disse a startup por nota. “Assim, reforça a capacidade da empresa de cumprir seus compromissos atuais e futuros, dos quais dependem milhares de clientes e centenas de colaboradores, e atravessar o período de menor demanda no mercado imobiliário causado pela pandemia”.

A concorrente Loft, também da área de imóveis, teria cortado cerca de 47 posições. No entanto, em nota, a startup de revenda de imóveis diz que “durante o mês de março e início de abril realizou uma reorganização do seu quadro funcional” e que, com isso, acabou gerando 80 novas vagas de trabalho. As 47 demissões seriam de sobreposição de funções.

Impactos futuros

Todas as startups citadas não estão falando especificamente sobre as demissões ou sobre o cenário futuro, dada as incertezas da crise. No entanto, especialistas do setor alertam para um prolongamento da crise e como isso pode se abater sobre as empresas. Mudanças de rumo, por exemplo, devem ser fortemente consideradas durante o período de pandemia.

“O tempo dessa crise é o principal complicador. Ninguém sabe quando, nem como termina. É interessante que as empresas, neste momento, avaliem seus negócios e, talvez, assim, redirecionem seus esforços para outras coisas mais relevantes agora”, afirma o professor do Mackenzie, Josilmar Cordenonssi. “Adaptações serão a tônica durante esse período”.

Já Carlos José, pesquisador em nova economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que a crise, junto com essas demissões, podem mudar a configuração de startups, assim como o meio empreendedor como um todo. O impacto deverá ser profundo.

“A gente estava vendo uma aceleração de empresas de viagens, de bancos digitais, de imobiliárias digitais. Isso vai mudar”, diz o analista. “Durante um longo período, até que a gente tenha vacina, nossa percepção de sociedade vai mudar. Essas empresas vão ter que entender o que está se transformando. Senão, acabarão simplesmente sumindo do mapa”.

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