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Oito perguntas sobre: open banking!

Rui Maciel

Já há algum tempo, tem se falado muito sobre a chegada do open banking ao Brasil, mas poucas pessoas, de fato, conseguem visualizar o que esse novo padrão trará ao sistema bancário brasileiro. Mas o fato é que não demorará muito para que ele comece a influenciar no cotidiano financeiro do país.

Isso porque, no último 1º de maio, o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central (BC) regulamentaram o open banking no Brasil. Sua implementação começará no dia 30 de novembro deste ano e, ao longo de quatro etapas, ela será concluída em outubro de 2021.

E, para finalmente deixar mais claro para você o que é o open banking e como ele entrará no seu dia a dia, esta nova edição do "Oito perguntas sobre..." conversou com dois especialistas no assunto: Leo Monte, diretor de inovação da Sinqia, uma fintech especializada em tecnologias financeiras; e Renato Terzi, CEO da GR1D, startup que desenvolve soluções tecnológicas para áreas de Finaças e Seguros.

Confira como foi o papo logo abaixo:

Canaltech- Falando de uma forma prática: o que é o open banking e como ele influenciará a vida bancária do brasileiro?

Leo Monte: Para entender o conceito de Open Banking é preciso pensar na lógica de quem é detentor das informações dos consumidores. Historicamente, o mercado financeiro sempre funcionou da mesma forma: o usuário abre sua conta e todas as transações são realizadas dentro desta mesma empresa, mantendo todas as suas informações em posse desta instituição. Isto limita as oportunidades, aumenta as barreiras e direciona os produtos financeiros pela ótica da empresa, limitando preço, modo de oferta e operacionalização.

O Open Banking, ou Sistema Financeiro Aberto, surge para quebrar este paradigma. Ele parte da premissa que as informações financeiras dos usuários pertencem a eles e não às instituições. Com isso, permite - desde que haja autorização do usuário - o compartilhamento de seus dados e suas movimentações financeiras, além de utilização de produtos e realização de serviços entre as instituições reguladas pelo Banco Central.

Esse contexto abre um leque infinito de possibilidades, desde serviços a novos modelos de negócios que serão criados a partir da iniciativa e da convergência de tecnologias que estão surgindo.

Renato Terzi: Essa mudança tem um enorme efeito em produtos que exijam precificação com informações, tais como créditos, financiamentos e seguros. Além disso, permite a uma grande quantidade de empresas (não necessariamente bancos) que iniciem pagamentos, de modo a facilitar as transações financeiras dos clientes.


CT - Que serviços ficarão facilitados - ou eliminados - a partir da adoção do open banking no dia a dia do correntista brasileiro?

L.M.: Por conta dessa lógica dos dados, atualmente os serviços ainda são vendidos de forma vertical, ou seja, estão limitados à estrutura e funcionalidade de cada instituição financeira. Com o cenário do open banking vamos experienciar uma horizontalidade nos serviços. Para citar um exemplo, com os dados dos consumidores abertos para instituições variadas, podemos experimentar novas formas de escoragem de crédito, baseadas em dados de saúde, por exemplo, não apenas no seu comportamento financeiro.

Além disso, as instituições financeiras passem a se concentrar mais em suas operações principais,o que possibilita que outras empresas tenham acesso às suas interfaces e desenvolvam novos produtos a partir disso. Esse é também é o cenário para o surgimento dos bancos exponenciais. Resultado da convergência de diversas tecnologias emergentes e do avanço da computação quântica, esse novo conceito de banco voltado completamente para o cliente, como objetivo utilizar os gigantescos bancos de dados para criar uma nova gama de serviços financeiros e democratizá-los, por meio da tecnologia.

Leo Monte - diretor de inovação da Sinqia

R.T.: A cotação e precificação de produtos que exigem análise de risco serão bastante facilitados, pois o cliente poderá permitir que a candidata a lhe prestar serviço tenha acesso a dados que, hoje, não tem. Uma operação que terá sua função reduzida será a do Cadastro Positivo, que fornece apenas um parecer binário sobre o histórico de cumprimento dos compromissos financeiros. Com o open banking, uma grande quantidade de dados – dos 12 meses anteriores – estarão disponíveis para análise.

CT - O custo dos serviços bancários e do crédito tendem a diminuir com a entrada do open banking em nosso sistema bancário?

L.M.: Não é uma certeza, mas é bem provável que haja um cenário positivo em termos de custos para os consumidores, já que existe uma tendência a um aumento da competitividade do mercado e a possibilidade de realizar a comparação das contas de diferentes instituições e seus respectivos produtos financeiros. Desta forma, a proposta é que o usuário ter a visão de toda a sua vida financeira em um só lugar e com acesso aos produtos mais adequados ao seu perfil e com taxas mais atrativas.

R.T.: O open banking tem a capacidade de permitir que novos entrantes ou pequenos operadores precifiquem os riscos dos clientes com informação muito semelhante àquela que os atuais bancos do cliente têm. Isso reduz o risco das operações e deve aumentar o número de empresas oferecendo serviços, reduzindo os custos de todos os produtos, em especial dos que exijam precificação baseada em análise de dados pregressos (crédito, seguros, garantias etc.).


CT - O WhatsApp liberou na última semana o seu sistema de pagamentos*, bem como o Banco Central regulamentou oficialmente a PIX. Esses sistemas de pagamentos instantâneos estão, de alguma forma, relacionadas ao open banking? Se sim, como?

L.M.: Tanto o PIX como os pagamentos via Whatsapp são tecnologias que poderão ser incorporadas ao sistema do Open Banking convergindo em novas oportunidades de negócios e serviços. Nesse contexto, o Whatsapp pode representar um marco importante pela questão da democratização desses serviços, visto que o aplicativo já é amplamente utilizado por mais de 120 milhões de pessoas no Brasil. A funcionalidade também pode indicar um movimento da empresa na oferta de multi serviços, à exemplo do que acontece com o Wechat na China. Os SuperApps são uma grande tendência que deve vir com o Open Banking, já que com os dados abertos crescerá a necessidade de gerenciamento de diferentes contas de diferentes instituições.

R.T.: Sim. A regulamentação do open banking organiza a forma como empresas poderão iniciar o Pagamento Instantâneo, sem que isso tenha de ser feito pelo cliente. De forma simples, o restaurante em que o cliente almoçou poderá iniciar o pagamento, enviando uma mensagem para a instituição financeira do cliente que, por sua vez, vai pedir uma confirmação imediata a esse correntista, para que o pagamento seja finalizado. Isso facilita a operação, fazendo com que o cliente tenha apenas de se identificar, o que poderá ser feito por um número de telefone, um endereço de e-mail, o CPF ou um QR Code, sem que seja necessário agir para iniciar o pagamento, apresentar o cartão ou se lembrar de banco, agência e conta.

*Nota da redação: na última semana, o WhatsApp Pay, sistema de pagamentos do WhatsApp, teve sua operação suspensa tanto pelo Banco Central, quando pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Ambos analisarão se oferece riscos à livre concorrência. Logo, ela não tem prazo para voltar a funcionar. Saiba mais aqui.

CT - Como será a adoção do open banking entre as grandes e pequenas instituições, além das fintechs? Quem está mais preparada para se adaptar a esse cenário?

L.M.: Do ponto de vista das grandes instituições financeiras, acredito que Open Banking pode ser visto como uma grande oportunidade de acelerar a inovação, melhorar a experiência de seus clientes e ampliar suas fontes de receita. Se hoje um grande bancos está limitado à venda de seguros a seus correntistas, por exemplo, com o novo sistema, estará disponível para quantas outras instituições quiser, com acesso aos correntistas das mesmas e mais.

Pelo lado das fintechs, é uma oportunidade de oferecer produtos para uma base muito maior de consumidores, compartilhando suas ofertas com a de grandes instituições financeiras. Não acredito em que exista alguma vantagem competitiva em nenhum dos lados dessa corrida, mas sim um ambiente de convergência de tecnologias, uma troca, que virá em benefício dos consumidores e do mercado, com múltiplas oportunidades de negócio.

R.T.: O open banking pode ser adotado por todos que enxergarem valor nele, sendo essa a sua maior fortaleza – igualar instituições de dimensões muito diferentes. Algumas poderão ter mais dificuldades em função da necessária organização de seus sistemas e bancos de dados legados e outras, talvez, tenham mais facilidade por ter seu público alvo já concentrado em uma faixa mais tecnológica da população ou por ter sistemas novos, mais fáceis de se adequar.

Renato Terzi - CEO ds GR1D

CT - O Brasil, hoje, vive um cenário econômico delicado, ampliado pela pandemia da COVID-19. A entrada do open banking nesse momento é algo positivo?

L.M.: Com certeza. Em meio a tantas más notícias, acredito que a chegada e a manutenção do cronograma de regulamentação é um movimento positivo para o mercado brasileiro. Nesse cenário de retração econômica, as pequenas empresas, que são as grandes responsáveis pela criação dos empregos, são as primeiras a quebrar. Uma das grandes dificuldades para a obtenção de crédito é a perda de confiança na capacidade de pagamento. As instituições financeiras, que também são afetadas pela crise, ficam mais receosas com a inadimplência e, na falta de informações mais precisas, preferem não arriscar.

A chegada do Open Banking permite uma rica troca de dados em tempo real que proporciona uma avaliação mais rápida e precisa sobre a saúde financeira de um negócio. Com o novo sistema, é possível conhecer a saúde de um negócio, seu nível de liquidez bem como seus fluxos de caixa. Desta forma, o Open Banking se torna uma ferramenta vital para garantir que as empresas possam mitigar os riscos criados durante a pandemia e fornecer de maneira eficiente uma recuperação econômica robusta.

R.T.: À medida que o open banking consiga, efetivamente, democratizar o acesso de empresas aos clientes e o acesso de clientes a mais produtos e serviços, então haverá uma efetiva redução de custos para o cliente, em especial para produtos que serão muito demandados no futuro próximo, de crédito e financiamentos. O open banking surge em um ótimo momento para ajudar o consumidor brasileiro a passar por um dos momentos mais difíceis de nossa história.


CT - Já existe algum país que pode ser considerado um case de referência na adoção do open banking?

L.M.: Podemos considerar a Europa como o berço do Open Banking no mundo, com 279 terceiros registrados até março deste ano para prestar serviços junto a alguma autoridade nacional competente do continente. O Reino Unido lidera na produção de iniciativas com 129 empreendimentos, ou 46% dos casos. A Alemanha segue no segundo posto com 35 ou 12,5% dos registros, logo à frente da Suécia, com 24 ou 8,6%. Mas existem iniciativas em outros continentes como em Singapura, que liberou a política de APIs, que serviu de base para os padrões de comunicação, a serem utilizados no Open Banking em 2016. Austrália e Hong Kong também têm se destacado com iniciativas e celeridade no processo de implementação do sistema.

R.T.: Há diversos casos mais maduros, embora não muito mais do que dois ou três anos à frente. Mais do que ser referência, são exemplos do que dá certo e do que deu errado. Vimos o crescimento desordenado nos EUA, não permitindo uma cobertura mais ampla do open banking. No Reino Unido, a falta de regulamentação inicial sobre UX quase colocou o projeto todo em risco. O Banco Central brasileiro está atento e aprendendo com essas experiências.


CT - A adoção do Open Banking envolve o uso de APIs e esse conjunto de instruções que conecta um sistema ao outro pode ser um alvo de cibercriminosos. Como se vem trabalhando a questão de segurança nesse ambiente?

L.M.: A segurança com certeza é um dos pontos mais levantados quando falamos em Open Banking. O Brasil é possui um dos sistemas bancários mais seguros do mundo e o que vemos é que o País vem adotando os mesmos passos que países que foram bem sucedidos considerando uma padronização tecnológica, o faseamento na implementação, e a necessidade do consentimento do usuário para compartilhamento dos dados. É claro que novos sistemas podem encorajar novos golpes, mas do ponto de vista da estrutura todo o processo é completamente seguro.

R.T.: O risco de crimes cibernéticos sempre existirá. O uso de APIs confere mais segurança para o processo, pois são sessões monitoradas e reguladas e a arquitetura de sistemas baseado no consumo de APIs tende a ser mais seguro do que nas interações desenhadas P2P. Seguramente, os criminosos continuarão a inovar nas formas e esforços para quebra de segurança. Por enquanto, os demais caminhos de acesso aos sistemas legados tendem a ser mais frágeis do que as integrações por APIs.

Fonte: Canaltech