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OCDE teme estagnação de longo prazo da economia mundial

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Chefe economista da OCDE, Laurence Boone, em 21 de maio de 2019

A economia global não deve se recuperar no próximo ano ou em 2021, prejudicada pelas tensões comerciais, Brexit e pela desaceleração chinesa. Diante desses riscos, a OCDE insta os Estados a reagir rapidamente.

Ao contrário do que apontou em setembro, a instituição internacional sediada em Paris estimou nesta quinta-feira que o crescimento da economia mundial não chegará a 3% no próximo ano, mas deve permanecer no ritmo de 2,9% já esperado para este ano.

"Estamos em um período preocupante e os políticos devem estar preocupados", alertou a economista-chefe da OCDE, Laurence Boone, sem rodeios em entrevista coletiva.

Porque, mesmo que a organização preveja uma leve recuperação em 2021 com uma progressão de 3% do PIB global, "essas taxas de crescimento são as mais baixas desde a crise financeira", observou, apontando para a ameaça de uma "estagnação de longo prazo".

Em questão, "mudanças estruturais não levadas em conta (pelos Estados) mais do que um eventual choque cíclico", desenvolve a OCDE em seu relatório detalhado sobre as perspectivas econômicas globais até 2021, citando a digitalização da economia, mudanças climáticas e uma nova ordem comercial geopolítica e mundial desde o final dos anos 1990, marcada por um reforço das barreiras comerciais.

"Na ausência de uma política clara sobre esses quatro tópicos, a incerteza continuará pesando muito, penalizando as perspectivas de crescimento", insiste.

Soma-se a isso a profunda evolução da economia chinesa, menos orientada para a exportação de manufaturados e mais para serviços e seu mercado interno, o que contribuirá menos para o crescimento do comércio mundial.

"Será um erro político considerar essas mudanças como fatores temporários que podem ser tratados pela política monetário ou fiscal: são estruturais", alerta a instituição, reconhecendo ainda que a ação dos bancos centrais, sobretudo por meio da diminuição de taxas de juros, sustentou a economia mundial nos últimos anos".

- Momento de agir -

Se o quadro é sombrio, nem tudo está perdido, de acordo com Boone. "Há muitas coisas que os governos podem fazer (...) e este é o momento", disse ela.

Como vem fazendo há vários meses, como outras instituições internacionais, a OCDE apontou para o "desequilíbrio" entre políticas monetárias e fiscais e reiterou seu apelo a que mais países adotem políticas de "incentivo" para estimular o investimento a longo prazo, aproveitando as baixas taxas de juros.

Isso pode incluir a criação de fundos nacionais de investimento, aponta a organização, como o fundo de 50 bilhões de euros que a Holanda planeja lançar no início de 2020.

Também pede aos países que resolvam suas disputas comerciais. As medidas adotadas neste ano pelos Estados Unidos e pela China deverão reduzir o crescimento mundial de 0,3 a 0,4 pontos percentuais em 2020, e entre 0,2 e 0,3 pontos percentuais em 2021.

As economias americana e chinesa, as maiores mundiais, obviamente sofrerão, com crescimento esperado de 2,3% este ano, depois 2% em 2020 e 2021 nos Estados Unidos, apesar das medidas de apoio adotadas no nível federal.

Do lado chinês, a desaceleração continua com o crescimento do PIB esperado de 6,2% este ano, antes de cair abaixo de 6% no próximo ano (5,7%) e em 2021 (5,5%).

A zona do euro também é penalizada pelas tensões entre os dois gigantes mundiais, além do Brexit.

Desta forma, enquanto a França continua resistindo com um crescimento esperado de 1,2% em 2020 (inalterado) e 2021, após 1,3% este ano, a economia alemã deverá desacelerar mais do que o esperado no próximo ano antes de voltar a crescer em 2021.

Entre os países emergentes, a situação deve ser ainda mais crítica na Argentina, com uma recessão de 3% este ano, antes de melhorar um pouco em 2020 e um retorno ao crescimento esperado em 2021.