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Obras de usinas solares aquecem economia da mineira Janaúba

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JANAÚBA, MG (FOLHAPRESS) - Localizada a cerca de 550 quilômetros ao norte de Belo Horizonte, a cidade de Janaúba (MG) vive um momento peculiar em seus 72 anos de história. Os pouco mais de 70 mil habitantes do município convivem hoje com uma população flutuante de cerca de 5.000 forasteiros, segundo estimativa da prefeitura.

Eles são facilmente reconhecíveis: com seus macacões coloridos, saem todos os dias bem cedo em dezenas de ônibus rumo a obras na área rural e retornam ao fim do dia para formar aglomerações em bares, restaurantes, praças ou portas de hotéis.

Principal cidade da microrregião da Serra Geral, Janaúba tinha sua economia baseada no agronegócio, com orgulho da qualidade de suas frutas e de sua carne. Hoje, é um dos maiores polos de investimentos em energia solar do país.

São 14 parques já em construção, incluindo aquele que será o maior do Brasil, com capacidade para abastecer 6 milhões de pessoas. Outros 83 projetos no município já foram outorgados pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

Não é um caso isolado na região. Com fortes índices de irradiação, pouca nebulosidade e terras baratas, o norte de Minas Gerais se tornou uma espécie de eldorado para investimentos em energia solar.

Perto de Janaúba, há parques operando ou em construção em Jaíba, Capitão Enéas, Januária e Itacarambi. Um pouco mais distante, Pirapora vem despontando como outro polo de investimentos no setor.

Segundo dados da Aneel, Minas Gerais tem hoje metade da capacidade de geração fotovoltaica em construção no país: são 41 projetos com uma potência total de 1,8 GW (gigawatts).

Em sua maioria, são usinas de pequeno porte, que apostam em um modelo de economia compartilhada, como os aplicativos de mobilidade ou alojamento: clientes de todos os portes podem comprar uma fatia da energia gerada, o que lhes garante desconto na conta de luz.

Mas há também usinas maiores, voltadas tanto para grandes clientes industriais ou comerciais que buscam melhorar sua pegada ambiental quanto para venda de grandes lotes em leilões do governo.

É o caso da usina Janaúba, projeto da Elera, empresa que pertence ao fundo canadense Brookfield. Em uma área de 3.069 hectares, o equivalente à cidade de Diadema, na Grande São Paulo, serão instalados 2,2 milhões de módulos fotovoltaicos para gerar 1,2 GW quando o empreendimento estiver concluído.

O investimento de R$ 2,3 bilhões foi garantido pela venda da energia no mercado livre. "A crise não afetou nossos planos de investimentos no Brasil. Ao contrário, ela trouxe oportunidades de crescimento para que a companhia continue contribuindo com o desenvolvimento econômico do país", diz a empresa.

No fim de novembro, quando a reportagem esteve na região, quase 2.000 pessoas trabalhavam no projeto. No pico das obras, o número deve superar 2,5 mil. É gente que se hospeda, come e bebe em Janaúba.

"A situação melhorou bastante por aqui", diz Adelson Barbosa, 43, que há dois anos mudou seu restaurante para um espaço duas vezes maior no centro da cidade. "O pessoal que está vindo prestar serviço melhora as vendas e dá melhores margens."

Um dos forasteiros, o piauiense Paulo Leite, 39, tem uma história que se confunde com o processo de transição energética que beneficia o município. Ele trabalhou por 20 anos no setor de petróleo, mas com a redução dos investimentos em refinaria, migrou para a energia solar.

"Fiquei um ano parado", diz ele. Hoje, trabalha com escavação de valas para a passagem de cabos, mas já pensa em fazer um curso de especialização em elétrica para seguir no setor. Vê o estudo como uma possibilidade de melhores ganhos e chances de ascensão profissional.

Se espelha no colega Tomé Mendes, 32, que está emendando sua quinta obra de parque solar em sequência, vivendo uma "vida de hotel" pelo país. "Na pandemia, só o que salvou foi a solar mesmo", afirma Mendes.

Com a enxurrada de investimentos e os gastos dos trabalhadores, a arrecadação de ISS do município quadruplicou entre 2017 e 2021, chegando a R$ 12 milhões, diz o secretário de Administração, Fazenda e Recursos Humanos do município, Fábio Cantuária.

A receita tributária em geral duplicou no mesmo período, passando de R$ 20 milhões, segundo dados do Ministério da Economia. O excedente de receita movimenta a construção civil no município, que decidiu reformar escolas e unidades de saúde.

As obras do parque da Elera mudaram a vida dos moradores do distrito rural de Quem-Quem, ao lado da entrada do projeto e parte da rota dos mais de 40 ônibus que transportam trabalhadores pelos 45 quilômetros que separam a usina do centro urbano de Janaúba.

Por um lado, os empreendedores priorizaram a contratação de mão de obra na região e têm movimentado o pequeno comércio local; por outro, o tráfego intenso de ônibus e caminhões e a substituição de pastos e plantações por placas solares são motivo de preocupação.

"Tem muito serviço para o povo", diz Cristiane Martins Costa, 46, proprietária de um mercado com padaria. "Para mim, foi bom também, porque eles tomam café aqui comigo", completa, dizendo estimar um crescimento de 40% nas vendas da padaria após o início das obras.

Com cerca de três mil habitantes, Quem-Quem é uma pequena amostra dos efeitos dos investimentos sobre a economia local: geração de empregos e renda, especulação imobiliária e uma grande preocupação com o momento em que as obras terminarem.

O secretário Cantuária minimiza o impacto no desemprego dizendo que os empregados já são, em sua maioria, forasteiros e que a cidade deve atrair empresas de manutenção para cuidar dos parques. Mas há grande receio entre comerciantes e a população mais pobre.

As fazendas que estão recebendo as placas solares eram fonte de empregos para comunidades rurais da região. Com menor qualificação, eles são aproveitados nas obras civis, mas esperam poucas oportunidades quando os projetos da região forem inaugurados.

Usinas solares geralmente têm poucos empregados durante a operação. As menores, nem isso: podem ser operadas e monitoradas de forma remota. "Enquanto [as obras] estiverem aqui dando serviço, está bom. Mas, e quando acabar?", resume Cristiane.

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