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O temor de jovens sobre 'futuro assustador' com crise climática

·9 min de leitura
Jovens mulheres de diferentes países entrevistadas pela BBC para reportagem
Jovens estão experimentando o que especialistas chamam de 'eco-ansiedade'

Uma recente pesquisa global com 10 mil entrevistados em dez países descobriu que muitos jovens estão profundamente preocupados com as mudanças climáticas.

Quase 60% dos participantes, com idades entre 16 e 25 anos, disseram se sentir "muito ou extremamente preocupados".

Para três quartos deles, "o futuro era assustador". Mais da metade (56%) acredita que a humanidade está "condenada".

Desde 1995, líderes mundiais têm se reunido para cúpulas do clima global, chamadas COPS.

Com a proximidade da 26ª cúpula, marcada para acontecer no início de novembro em Glasgow, na Escócia, a BBC conversou com jovens mulheres de países em desenvolvimento que nasceram depois de 1995, como a brasileira Sabrina Oliveira.

E todas compartilham algo em comum: um medo real sobre o futuro.

Confira os depoimentos.

Sabrina Oliveira segura câmera fotográfica
Sabrina observou declínio na população de pássaros

Sabrina Oliveira, 19 anos

Pesqueira, Pernambuco

Passei minha infância em uma área rural perto de Pesqueira, no agreste pernambucano.

Agora moro na cidade de Areia, no Estado da Paraíba, onde estudo Biologia na universidade.

A seca está deixando a vegetação aqui mais seca. As árvores estão desaparecendo, os pássaros estão diminuindo e as vacas estão ficando mais magras.

Outubro é o mês em que nossos reservatórios deveriam estar cheios de água, mas ultimamente não tem chovido o suficiente.

Nossa cidade teve que racionar água.

A maioria das pessoas por aqui vive da agricultura e da venda de leite e queijo. Elas normalmente possuem de cinco a 20 vacas. Algumas pessoas estão soltando as vacas na selva para ver se conseguem encontrar comida lá.

Já vi fazendeiros pagar cerca de R$ 250 para comprar água em caminhões-pipa.

Há muita ansiedade em relação ao nosso futuro. Sinto isso e os outros ao meu redor, também. Nos perguntamos se haverá água no futuro.

Tememos por nossa natureza.

Sou voluntária em uma organização que ajuda agricultores a implementar soluções tecnológicas para tornar a agricultura sustentável.

Alguns deles abraçam as novas tecnologias, mas outros continuam com a prática de corte e queima para abrir áreas de floresta para o cultivo.

Pessoalmente, estou perdendo as esperanças, porque os dados ambientais não são um bom presságio.

É muito alarmante ver o número de incêndios florestais aumentar.

Precisamos fazer a nossa parte controlando o uso de água, reciclando e reduzindo o consumo de carne.

Mas em termos globais, as grandes empresas são as principais culpadas. O governo prioriza os interesses das grandes empresas e precisamos atacar a raiz do problema.

Opeyemi Kazeem-Jimoh em área inundada
Inundações em Lagos tornaram investimento em casa própria uma decisão difícil, conta Opeyemi

Opeyemi Kazeem-Jimoh, 26 anos

Nigéria

Nasci em Lagos, na Nigéria em 1995, quando a primeira cúpula do clima da COP foi realizada em Berlim.

Estou com raiva porque os líderes mundiais falam demais e fazem de menos.

A Nigéria e a maior parte da África não contribuíram muito para as causas das mudanças climáticas.

No entanto, infelizmente, temos que conviver com a maioria de seus piores efeitos.

É necessário um plano de ação coletivo em nível global. Mas todos precisam se adaptar localmente.

Quando era criança, uma tia minha perdeu a casa durante as enchentes. O mesmo aconteceu com meus amigos.

Os padrões climáticos mudaram. A estação das chuvas não chega mais na época normal do ano.

E quando chega, é mais intensa, causando muito alagamento.

Esses eventos eram muito mais raros no passado; talvez uma vez em uma década. Mas agora as inundações estão acontecendo com muito mais frequência.

Após a formatura, comecei a atuar como voluntária para algumas ONGs envolvidas em mudanças climáticas, especialmente na atualização de mapas de inundações.

Lagos é muito plana, por isso, não existem muitas zonas à prova de enchentes.

Imagine comprar uma casa. É uma decisão de longo prazo, na qual você investe muito dinheiro e isso está se tornando cada vez mais difícil.

Mas vale realmente a pena? Você não sabe se sua casa vai ficar submersa em dez ou 20 anos.

Comparei o mapa atual da cidade com imagens de satélite de dez anos atrás.

Ele mostra como a terra entre as áreas habitadas e o mar está encolhendo. A água do mar está cada vez mais perto.

Não sei como vamos viver aqui em uma década.

Fora da cidade, os agricultores não conseguem ganhar a mesma quantidade de dinheiro. Estou preocupada pois talvez não teremos comida suficiente para comer no futuro.

Precisamos de mais consciência e mais ação dos governos para impedir a destruição.

Ameera Latheef sentada à beira-mar
Local favorito de infância de Ameera na praia desapareceu com elevação do nível do mar

Ameera Latheef, 23 anos

Malé, Ilhas Maldivas

Cresci em uma ilha ao norte de Male, a capital das Ilhas Maldivas. Quando saio de casa, posso literalmente ver a praia e o mar.

Sempre que estou feliz, triste, zangada ou com vontade de celebrar algo, vou à praia. O mar é minha terapia. Sempre me acalmou e aumentou meu nível de felicidade.

Às sextas-feiras, a maioria das famílias vai à praia aqui, como se fosse uma tradição. Podemos ver pessoas de todas as idades.

Quando tinha 16 anos, fui diagnosticada com câncer e tive que me mudar para a Índia para tratamento. Depois de passar 32 meses lá, voltei para minha ilha.

Ao chegar à praia, meu lugar de sempre, onde costumava sentar e ouvir as histórias da minha avó, ela havia sumido.

O lugar onde brinquei com meus amigos estava debaixo d'água. A palmeira perto da costa havia sumido.

Foi devastador. Fiquei com o coração tão partido. Era como se uma parte da minha identidade tivesse sido destruída.

Além disso, o branqueamento de corais (fenômeno que leva à morte dos corais devido ao aumento da temperatura das águas) está acontecendo com muita frequência agora. Por causa do aquecimento global, nossos recifes de coral estão morrendo.

Não temos as ferramentas para lidar com o impacto das mudanças climáticas.

Às vezes, vejo pessoas tentando interromper a erosão colocando pedregulhos e pedras na costa.

Se o aumento do nível do mar continuar como está, 80% das Maldivas terão desaparecido até 2100.

É um cenário apocalíptico para nós. É doloroso pensar que um dia toda a população do país terá de partir.

As Maldivas e muitas outras nações insulares estão na vanguarda das mudanças climáticas.

Mas o dano não vai parar apenas aí. Mais cedo ou mais tarde, os países desenvolvidos também serão atingidos.

Comecei a estudar para o bacharelado em Gestão Ambiental — um assunto que me agrada muito.

Acredito que os países do G-20 têm uma grande responsabilidade no combate às mudanças climáticas.

Já falamos demais; é hora de agir agora.

Fithriyyah Iskandar em frente ao hospital onde trabalha
Fithriyyah Iskandar, uma jovem médica, tem muitos pacientes com infecções respiratórias

Fithriyyah Iskandar, 24 anos

Bornéu Ocidental, Indonésia

Cresci em Pontianak, uma cidade que fica próxima à Linha do Equador.

O aquecimento global está tornando a vida muito mais difícil.

O tempo está ficando mais quente e imprevisível. Às vezes, fica quente e seco, seguido por um dilúvio.

Nessa parte da ilha, temos solo de turfa. Durante a estação seca, ele pode facilmente pegar fogo.

O fogo pode se espalhar rapidamente e é difícil de extinguir. Ele queima e se espalha até mesmo sob o solo.

Pete é um depósito de carbono. Uma vez em chamas, os gases de carbono são liberados na atmosfera.

As atividades humanas, como o desmatamento comercial da floresta para o cultivo de óleo de palma, estão piorando as coisas.

Em 2015, tivemos os piores incêndios florestais da história. A poluição atingiu o sul da Ásia.

Em 2019, estava em um voo voltando para minha cidade. O avião teve que ser desviado porque a visibilidade era muito baixa.

Normalmente, no início de março, começamos a ter problemas de poluição atmosférica. E isso pode durar até três meses por ano.

Terminei minha graduação em Medicina e agora estou fazendo um estágio. A maioria dos pacientes que trato sofre de infecções respiratórias nas vias superiores.

Medimos a qualidade do ar regularmente. Quando piora, as pessoas ficam com dor de garganta, febre, tosse e outros problemas respiratórios.

Quando saímos de casa, temos que colocar máscaras.

As pessoas estão aprendendo a lidar com essas mudanças.

Moro com minha avó. Estou profundamente preocupada com a saúde da minha família.

Como médica, sei que, se a qualidade do ar continuar piorando, mais pessoas ficarão doentes e morrerão.

Sokoita Sirom Ngoitoi com vestimenta tradicional de seu país, a Tanzânia
Sokoita diz que sua cultura está ameaçada por causa da mudança climática

Sokoita Sirom Ngoitoi, 20 anos

Arusha, Tanzânia

Sou da comunidade Maasai — um grupo étnico indígena na África. Seguimos um estilo de vida semi-nômade. Criamos gado, cabras e ovelhas.

Acho que os Maasai têm uma cultura extraordinária e valorizamos nossas tradições.

Mas nosso povo e gado estão sendo infectados por novas doenças.

Quando era criança, bebia leite direto da vaca, sem ferver. Era uma coisa comum de se fazer.

Agora, nossos filhos ficam doentes quando bebem leite que não foi fervido.

Além disso, a produção de alimentos diminuiu.

O tempo está ficando mais quente. A precipitação é imprevisível e esporádica.

As mulheres Maasai agora precisam caminhar longas distâncias para buscar água para suas famílias e seus rebanhos.

O vento carrega muita poeira para nossos assentamentos. A seca forçou algumas famílias Maasai a se mudarem em busca de melhores pastos e água.

O futuro parece sem esperança para mim. Temo que as coisas piorem nas próximas décadas.

As mudanças climáticas estão nos forçando a mudar nosso estilo de vida. Menos chuvas significam mais fome. Nossa identidade e sobrevivência estão em perigo.

Mudar-se para as cidades será desastroso para nossa comunidade. Como outras tribos, as meninas Maasai acabam se prostituindo ou se transformando em empregadas domésticas nas cidades. Os jovens vão se envolver com as drogas.

É muito assustador pensar em um cenário tão sombrio, nossas músicas e danças morrendo e a próxima geração não sendo capaz de falar a língua Maa.

Por enquanto, a compreensão das mudanças climáticas é pequena em minha comunidade, apenas um pequeno número de pessoas percebe as consequências devastadoras.

Algumas ONGs estão tentando conscientizar e ensinar estratégias para enfrentar o aquecimento global.

As pessoas são aconselhadas a não criar muitos animais porque, quando vier a seca, todos podem morrer. As famílias são incentivadas a manter um pequeno número de vacas que seja fácil de manejar.

Elas também aprendem sobre como evitar o desmatamento.

Minha comunidade está usando energia solar. E estou plantando árvores e tentando influenciar outras pessoas a fazer o mesmo.

Mas, em nível global, precisamos de novas regras para governar atividades importantes como mineração, agricultura, desmatamento e gestão de resíduos.

*Com reportagem adicional de Pablo Uchôa

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