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O ser humano como centro do desenvolvimento digital nacional

José Otero
·7 minuto de leitura

A contínua inovação trazida pelas tecnologias da informação e da comunicação (TIC) cria pressão sobre os governos para implementar políticas que impulsionam sua adoção. No entanto, a maior dificuldade é a assimetria observada em termos de utilização das TIC na sociedade, uma vez que em localidades remotas, com baixa densidade populacional ou com uma população de baixo poder aquisitivo, apresentam obstáculos que dificultam a chegada de novas tecnologias à estas regiões geográficas.

Uma das principais lições que as três décadas de pesquisa global por soluções para as brechas digitais trouxe foi a compreensão de que as diferenças no uso das TIC não são resolvidas apenas com a implantação de mais infraestrutura. Não há dúvida de que as redes de telecomunicações são um insumo essencial para o funcionamento das TIC, mas o que determina como a inclusão digital aumenta ou diminui é o uso que se dá a essa infraestrutura.

Pensar que, por possuir tecnologia de ponta, um país entrará imediatamente na transformação digital e se diferenciará globalmente de seus concorrentes comerciais, não é correto. É preciso analisar quem usa esta tecnologia e com qual finalidade. Um exemplo claro desta relação é Porto Rico. O país é um dos mercados líderes no desenvolvimento e adoção de novas tecnologias móveis, porém o Fórum Econômico Mundial mostra que o governo local praticamente não participa deste avanço.

Ao contrário do que é visto na menor das Grandes Antilhas, onde mais de 80% dos usuários utilizam serviços 4G e nos últimos meses as taxas de crescimento das linhas 5G são de dois dígitos percentuais, a Colômbia realizou somente em 2019 um segundo leilão para impulsionar a adoção do 4G, mesmo sendo a terceira economia das Américas. A iniciativa espera que até 2024 essa tecnologia represente pelo menos 80% das linhas móveis do país. O primeiro leilão na região ocorreu em 2013.

Por isso, avaliar o nível do avanço tecnológico de um país tendo somente como base o tipo de tecnologia implantada é um grave erro. Enquanto em Porto Rico as autoridades recebem inúmeras advertências de especialistas quanto às questões de segurança e de digitalização do governo, a Colômbia é um dos países mais adiantados quanto à adoção das TIC por entidades governamentais. Parte desse avanço se deve à adoção de políticas públicas que visam o desenvolvimento de todos os setores da economia por meio dos meios digitais, bem como o entendimento de que é necessário envolver os setores acadêmicos, a sociedade civil e as empresas na modernização digital do país.

A criação de um vice ministério de transformação digital, o esforço para fomentar o incremento de estudantes em carreiras técnicas e a reformulação de escopos acadêmicos para abordarem o impacto das TIC são só algumas das medidas que foram implementadas na Colômbia. Obviamente, nem tudo ocorreu da maneira mais perfeita, mas o esforço é real e os erros estão sendo reparados conforme o desempenho das ações. Como disse o poeta: “O caminho é feito caminhando”.

A comparação entre estes países é importante para entendermos que o conceito de “brecha digital” sofreu mudanças desde a sua criação na última década do século XX, pois hoje a diferença existente entre duas, ou mais, partes no uso da tecnologia não se limita a uma divisão de quem tem acesso e quem não tem. As redes de telecomunicações evoluíram muito nestas últimas três décadas, assim como suas funcionalidades. Hoje, a conectividade está intrinsecamente ligada à digitalização de todos os processos produtivos da economia, já que o Estado está em constante busca pela eficiência.

Diante desta nova realidade de digitalização, os países da América estabeleceram projetos que os permitam enfrentar este novo paradigma no qual o mundo digital se faz cada vez mais presente e importante em nossa vida. Um destes esforços foi o Plano Ceibal criado no Uruguai em 2007, que buscava ensinar habilidades em tecnologia a todas as crianças do país. Foi justamente devido a este plano que o país sul-americano conseguiu enfrentar da melhor forma os efeitos impostos pela Covid-19, pois por meio da plataforma CREA do Plano Ceibal os meninos e meninas puderam continuar com suas atividades educacionais de forma remota.

A diferença entre o Plano Ceibal, que foi se aprimorando ao longo dos anos a cada novo aprendizado, e iniciativas de outros países que visam unicamente a entrega de dispositivos, como computadores e tablets, concentra-se no desenvolvimento de conteúdo educacional, na logística para o reparo ou substituição dos dispositivos e na capacitação dos docentes. Mais uma vez, a mera entrega de dispositivos não resolve os problemas de desigualdade e acesso às TICs. É preciso entender para poder explicar e explicar para poder entender, para que em algum momento deste processo os cidadãos sejam empoderados digitalmente.

Pensar na educação digital das novas gerações é o primeiro passo na preparação para um mundo em que a transformação digital demandará cada vez mais desenvolvedores de aplicações, novas patentes de tecnologia e novos modelos de negócio. Essa mudança não está restrita à mais infraestrutura ou pacote de dados, é preciso que as pessoas também se adaptem a esta nova vida, pois a mudança é inevitável e exigirá que as pessoas aprendam e reaprendam novas habilidades constantemente.

Quando as autoridades do governo pensarem em reduzir as brechas digitais ou modernizar suas redes de telecomunicações, ou até na digitalização de seus setores produtivos, é preciso manter em mente que uma das consequências da tão desejada transformação digital é que o ecossistema nacional das TIC deixa de responder somente aos fatores endógenos para também ser impactado por eventos externos, como o barateamento de produtos e serviços que competem com as exportações locais devido ao uso de novas tecnologias. O problema não é resolvido com a modernização das redes de telecomunicações nas áreas urbanas.

Se analisarmos qual é o status atual e o futuro da digitalização, veremos que a situação é de expansão do uso da 4G e da 5G, ao mesmo passo em que cresce a capilaridade de fibra ótica e o aumento de transponders em Banda Ka nos satélites com pegadas na América Latina e no Caribe. Todas estas plataformas permitirão que sejam utilizados diferentes dispositivos remotamente em setores como a mineração, o agronegócio e a manufatura. Desta forma, a falta de conectividade em áreas remotas representará uma deterioração acelerada da situação econômica dos setores mais vulneráveis ​​da população.

Tudo isso sem entrar no mérito de quanto os governos poderiam poupar ao expandir e melhorar a saúde, a educação e os procedimentos burocráticos por meio de plataformas digitais, nem mencionar o impacto positivo em termos de direitos humanos e cultura que o uso das TIC nos traz.

O tema da conectividade e o desenvolvimento digital é bastante complexo e não se resolve apenas com cobertura ou doação de aparelhos. Requer uma abordagem minuciosa da qual a sociedade civil, o setor privado e os governos devem participar. O que não se pode tolerar é a inércia ou as decisões políticas que nada têm a ver com o desenvolvimento nacional.

As brechas de conectividade nas localidades mais vulneráveis ​​só podem ser corrigidas com o apoio de todos. Ignorar o problema e não tomar as medidas necessárias para corrigir esse problema terá um impacto negativo no desenvolvimento econômico e social de todo o país.

A inevitável chegada da transformação digital eliminou o significado de “brecha digital” como uma simples divisão entre quem tem e quem não tem acesso aos serviços de telecomunicações. Deixar de conectar aqueles que tradicionalmente foram ignorados pela sociedade, mais cedo ou mais tarde acabará afetando segmentos econômicos com alto poder aquisitivo da população. Chegamos a esse ponto onde se pode dizer que digitalmente cada país é um único organismo e o que afeta as partes acaba afetando o todo.

Por isso é tão importante que cada país tenha um plano nacional de desenvolvimento digital com objetivos claros que, além de considerar a infraestrutura, lembre dos conteúdos, e que principalmente lembre que o centro de qualquer estratégia de inclusão digital de sucesso deve ser o ser humano.

*José F. Otero tem mais de 3 décadas de experiência no setor das TIC. Esta coluna é escrita em caráter pessoal.

Fonte: Canaltech

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