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O que torna um filme cult?

·8 minuto de leitura

Quando você diz que um filme é cult, o que você está querendo dizer? Para um filme ser classificado dessa forma, é necessário que seja algo diferentão como A Montanha Sagrada de Alejandro Jodorowsky? Ou também podemos chamar um filme Marvel de cult? Aliás, a palavra determina um filme "culto" ou diz respeito a uma obra "de culto"? A discussão é complexa e não tem uma resposta definitiva, mas vamos investigar um pouco o que isso significa.

Primeiramente, precisamos falar sobre preconceitos e conhecimentos: a palavra “cult” já foi muitas vezes utilizada nos mais diversos contextos, o que significa que seus sentidos e significados também são plurais. Quem usa a expressão é a pessoa responsável por determinar em que sentido a está utilizando e não há teórico no mundo capaz de determinar o que “cult” significa definitivamente, ou seja, não somos obrigados a assumir uma única definição do conceito como correta.

Tradicionalmente

A concepção mais conhecida é que um filme é classificado como cult quando crítica ou bilheteria definem uma obra como fracasso, enquanto o público desenvolve algum gosto ou carinho, iniciando uma espécie de culto. Longe de parecer coisa do Cthulhu, quando falamos “cultuar” queremos apenas dizer que um grupo de fãs segue mantendo a obra viva, como é o caso de filmes como Pink Flamingos (1972), de John Waters, ou The Room (2003), uma produção que fez tudo errado desde o princípio e se tornou um dos casos mais bizarros de filme ruim da história do cinema. É justamente por serem considerados ruins (ainda que de formas distintas) que esses filmes são cultuados e, portanto, podem ser chamados de cults.

Pink Flamingos (Imagem: Reprodução/Dreamland)
Pink Flamingos (Imagem: Reprodução/Dreamland)

Pode acontecer também de um filme ter sido incrível em seu lançamento e, muitos anos depois, se tornar cultuado apenas por fãs de um nicho, como acontece com frequência no terror. Nesse sentido, todos os gêneros têm seus próprios clássicos cult, títulos que se tornaram canônicos ou que comumente serão vistos como referência. Embora A Hora do Pesadelo (1984) tenha sido uma franquia popular em seu surgimento, hoje o filme é visto como um cult, seja pela nostalgia de quem viu Freddy Krueger nos cinemas e no VHS, seja porque já é antigo demais para "exigirmos" que as gerações mais novas tenham conhecimento.

O termo cult ainda pode ser usado para se referir a todos os grandes clássicos do cinema, porque eles são cultuados justamente por sua importância, por terem marcado a sua época, tornando-se títulos que merecem ser vistos mesmo após mais de um século do seu surgimento, como é o caso dos curtas de Georges Méliès.

Viagem à Lua (1902), de Georges Méliès (Imagem: Reprodução/Grand Théâtre de Genève)
Viagem à Lua (1902), de Georges Méliès (Imagem: Reprodução/Grand Théâtre de Genève)

Com isso, já temos dois tipos tradicionais de “filmes cults”: a peça mal-sucedida que caiu no gosto do público e os marcos históricos que sobreviveram aos testes do tempo e se tornaram clássicos representantes da sétima arte. Nesse segundo aspecto, podemos perguntar: mas quem determina qual filme ou personalidade merece ser cultuado como pilar do cinema?

Expansão do termo

Gostemos ou não, até hoje a história do cinema “cultua” (ainda que com muito peso na consciência) filmes como os de D. W. Griffith, entre os quais podemos encontrar O Nascimento de uma Nação (1915). Embora Infiltrado na Klan (2018) nos dê uma dimensão diferente do culto a esse filme, a história “imparcial” do cinema sempre o invoca como uma raiz da linguagem cinematográfica que conhecemos hoje. Ao longo da história, diversos artistas foram responsáveis por criar obras que ajudaram a moldar o pensamento de uma época e criaram movimentos que duram até hoje, motivo pelo qual não podemos ignorá-los por completo.

Com o tempo, alguns filmes passaram a se tornar complexos para gerações mais novas e que estavam fora do contexto de lançamento das obras. Entender um filme de Jean-Luc Godard realizado nos anos 1960, por exemplo, exige do espectador uma série de conhecimentos que o ajudarão a compreender os códigos inseridos no filme e, consequentemente, tornarão a experiência mais agradável. Esse tipo de movimento, no entanto, nos leva a outro pensamento sobre o filme dito “cult”.

A Chinesa (Imagem: Reprodução/Anouchka Films)
A Chinesa (Imagem: Reprodução/Anouchka Films)

Podemos ver o filme que quisermos, da forma que quisermos, e ninguém pode determinar como deve ser o contato de alguém com uma obra de arte, embora sempre estejamos indicando caminhos. No entanto, se tivermos certos conhecimentos do mundo do artista, será mais fácil entender o que os cineastas estão tentando nos passar. Claro que podemos assistir A Chinesa (1967) sem fazer pesquisa alguma, mas, se fizermos isso, podemos falar apenas de como a obra nos atingiu e não podemos entrar muito no mérito do que o filme é enquanto um filme de Godard e como produto de um período histórico que culminou nos eventos de maio de 1968.

O tempo fez com que essa exigência de conhecimento tornasse alguns filmes cults não porque eram cultuados, mas porque passaram a ser tidos como filmes para “pessoas cultas”. O termo perde a ligação com a ideia de algo ser admirado por um grupo com gostos em comum e passamos para a perigosa e errônea ideia de que certos filmes só podem ser vistos por certas pessoas, uma forma de culto bastante excludente.

Com fãs conhecidos pejorativamente como Tarantinetes, as obras de Quentin Tarantino já nascem (de certa forma) como filmes cult. Acima, um still de Pulp Fiction: Tempo de Violência (Imagem: Reprodução/Miramax)
Com fãs conhecidos pejorativamente como Tarantinetes, as obras de Quentin Tarantino já nascem (de certa forma) como filmes cult. Acima, um still de Pulp Fiction: Tempo de Violência (Imagem: Reprodução/Miramax)

Particularmente (e apesar de acreditar que o conhecimento é necessário), considero essa utilização do termo “cult” inadequada. A definição no sentido de que é apenas para “pessoas esclarecidas/inteligentes/cultas” gera uma segregação desnecessária e prejudicial entre os espectadores. Apesar de os sistemas de notas, da crítica especializada, dos teóricos e estudiosos do cinema, não há nada que seja intrínseco a uma obra e que indique que aquilo é reservado apenas a uma casta intelectual da sociedade.

O cult pode ser pop?

Desde os princípios da filosofia grega, quando Sócrates supostamente andava pela pólis questionando a verdade das coisas e sequer podia imaginar que suas ideias se transformariam em decoreba de livros didáticos, já se discutia sobre a arte. Milênios passaram e a arte se tornou incrivelmente plural, não raramente gostando de explorar seus próprios limites e testando filósofos ao longo de eras.

Dentro dos seus limites, o cinema também é infinitamente plural e vai desde a produção experimental que você faz com seu celular até produções milionárias, que também são pensadas como um produto comercial. Não à toa, falamos também de uma indústria cinematográfica, indicando que não se trata apenas de criar obras de arte audiovisuais. Arte, no entanto, não tem o único objetivo de entreter, ainda que faça isso constantemente.

Imagem: Reprodução/Marvel
Imagem: Reprodução/Marvel

Como dito anteriormente, os limites são difíceis de identificar e o que temos, na verdade, são filmes que podem ser vistos de qualquer forma e por qualquer pessoa. Paciência. Ao longo do tempo, no entanto, os impactos e relações dessas obras de arte começam a se destacar, como podemos observar hoje na influência social das produções Marvel, que começam a bater de frente com preconceitos que se perpetuam.

Se assumirmos que “filme cult” é um filme (ou franquia) cultuado, podemos entender muitos outros filmes como cult. Filmes nerds, por exemplo, são filmes cult, porque são cultuados pelos nerds (mesmo que haja um termo mais específico para o tal “culto”). Isto se aplica a franquias como Senhor dos Anéis e Harry Potter, que pareciam apenas pop quando surgiram, mas hoje já são filmes cults porque dizem respeito ao culto de seus respectivos universos.

Imagem: Reprodução/Warner Bros.
Imagem: Reprodução/Warner Bros.

Diferenças

O uso do termo “cult” para designar obras que são supostamente mais difíceis de serem entendidas pode ter consequências bastante ruins, sobretudo quando uma pessoa acaba se considerando "ignorante demais" para uma obra de arte. Somente artistas servem à arte. Quando consumimos a arte de alguém, é a obra que deve estar a favor do nosso desenvolvimento enquanto seres humanos e não é nosso dever entender tudo o que está diante de nós.

Tendo isso em mente, prefiro o outro uso, o do culto, que parece bem mais saudável, desde que não recaia em fanatismo, claro. Ainda que seja carregado de um sentido religioso bastante forte, a palavra "culto" diz respeito à homenagem como manifestação de grande respeito, o que é uma relação muito mais interessante de se desenvolver com as obras.

Cidadão Kane (Imagem: Reprodução/RKO)
Cidadão Kane (Imagem: Reprodução/RKO)

Medalhões como Cidadão Kane (1941) precisam parar de ser vistos como "filmes de gente culta" para serem vistos como realmente são: arte. Ainda além, vale dizer que qualquer forma de culto exige conhecimento. Assim como um cristão precisa conhecer a obra de Cristo para se considerar como tal, um fã de um artista, para poder respeitá-lo e homenageá-lo, também precisará buscar conhecimento. Assim, o filme cult se torna algo bom e compartilhável e deixa de ser uma categoria intrinsecamente exclusiva.

Enquanto isso, produções mais recentes e mesmo franquias como Velozes & Furiosos podem ser entendidos como cult porque têm seus próprios cultuadores muito ativos e nos dizendo por que tais e tais títulos merecem ser vistos. Como acontece com qualquer outra arte, os filmes cult dizem mais sobre nós do que sobre si mesmos. O status não é intrínseco da obra, mas somos nós quem o damos a ela.

Depois de pensar sobre isso, qual é a obra/artista do cinema que você cultua?

Fonte: Canaltech

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