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O que torna um filme alternativo?

·8 minuto de leitura

Vamos começar pelo básico: o que nos diz o dicionário de língua portuguesa quando perguntamos o que é “alternativo”? O Priberam nos fornece seis sentidos para a palavra e provavelmente o uso mais comum pode ser encontrado na definição que diz "Sujeito a opção; que consente escolha", nos indicando que o alternativo pressupõe a liberdade criativa quando falamos de fazer filmes, o que deveria ser comum a todas as artes. Mas não é bem assim.

É comum um filme dar errado e o diretor levar as culpas (da mesma forma que costuma levar os aplausos e elogios quando sua obra tem sucesso de público e/ou crítica). No entanto, você pode ter percebido que quem ganha o Oscar de Melhor Filme não é o(a) diretor(a), mas sim os produtores (os executivos, as pessoas responsáveis pela organização, logística e, claro, dinheiro). Não raramente, quando o diretor quer ter mais liberdade, ele precisa também bancar o próprio filme, ou seja, também ser um produtor.

Isso expõe o que não deveria ser uma surpresa: o cinema nasceu arte e produto simultaneamente. Mesmo se olharmos para as raízes de tudo, podemos ver como os irmãos Lumière anunciavam as possibilidades científicas com a invenção do cinematógrafo na França, enquanto nos EUA Thomas Edison se apropriava da invenção de William Kennedy Laurie Dickson com intenções comerciais.

Será que precisa ser diferentão como Begotten (1989) para ser um filme alternativo? (Imagem: Reprodução/Theatre Of Material)
Será que precisa ser diferentão como Begotten (1989) para ser um filme alternativo? (Imagem: Reprodução/Theatre Of Material)

De volta à França, foi nas mãos de Georges Méliès, um ilusionista, que o cinema começou a se desenvolver como uma arte de contar histórias mais complexas, sendo ele também o fundador de gêneros cinematográficos como ficção científica, drama histórico/biográfico, fantasia e terror. O cinema nem sequer havia se estabelecido e já fundou também o “alternativo”, simplesmente porque alguém, em algum momento, encontrou uma função alternativa para as imagens-movimento. Mas como isso ainda funciona hoje?

Podemos não gostar disso, mas é inegável que nos deixamos levar pelos padrões o tempo todo e é comum nos flagrarmos dizendo como um filme deveria ou não deveria ser. Um exemplo bastante fresco pode ser bastante útil para entendermos: quando lançado, o Esquadrão Suicida de David Ayer foi destroçado pelo público e pela crítica, com comentários bastante maldosos e que, até hoje, rendem discussões calorosas na internet. Acontece que Ayer tem deixado claro que o filme não é seu.

Embora ele não cite diretamente os culpados, já sabemos que a produção de filmes que tentaram competir com os sucessos Marvel renderam verdadeiros desastres, como foi também foi o caso do Quarteto Fantástico, inicialmente vendido como um filme de Josh Trank, mas que, agora, traz Stephen E. Rivkin como "diretor não-creditado". Esses são claros exemplos de como os interesses comerciais interferem diretamente no processo criativo, criando os Frankensteins cinematográficos que adoramos odiar.

Imagem: Reprodução/Warner Bros.
Imagem: Reprodução/Warner Bros.

Quando David Ayer pediu pela oportunidade de fazer seu corte de Esquadrão Suicida, ele estava querendo realizar a versão alternativa. Todo corte do diretor é um indicativo de que sua ideia original foi alterada contra a sua vontade pelas produtoras — e isso nem sempre significa que o realizador feria melhor que o estúdio. Entre os fãs de Blade Runner: O Caçador de Androides e de Apocalypse Now, por exemplo, existe a discussão sobre quais das versões é melhor.

Mas certamente não é do Liga da Justiça de Zack Snyder que a “galera alternativa” está falando quando diz que quer assistir a um filme alternativo. Então vamos mergulhar em mais uma camada dessa questão.

Alternativo Hardcore

Liga da Justiça é alternativo, mas não o suficiente para quem quer ver mais padrões sendo quebrados: o alternativo opta por caminhos diferentes aos convencionais. Acontece que estamos tão acostumados com o padrão hollywoodiano que esquecemos que ele é um padrão. Na introdução do livro Manual do Roteiro, Sid Field comenta como chegou a precisar avaliar algumas centenas de roteiros e percebeu haver um padrão no seu gosto, como ele resume neste trecho:

"Minha experiência como leitor me deu a oportunidade de julgar e avaliar, de formular uma opinião: este é um bom roteiro, este não é um bom roteiro. Como roteirista, queria encontrar o que tornava os 40 roteiros que recomendara melhores que os outros 1.960 que lera".

O que Field desenvolve ao longo do livro viria a se tornar um dos maiores pilares da indústria e quase todos os filmes que vemos seguem o padrão de três atos divididos por dois “pontos de virada” (plot points). Até hoje, não é incomum encontrarmos estudantes de cinema tentando enquadrar suas histórias em um esquema que necessariamente precisa passar por etapas específicas de início, meio e fim — e coincide também com a famosa "jornada do herói".

A capa do livro deixa claro que este é um livro para quem quer escrever um roteiro "acessível a todos" (Imagem: Reprodução/Editora Objetiva)
A capa do livro deixa claro que este é um livro para quem quer escrever um roteiro "acessível a todos" (Imagem: Reprodução/Editora Objetiva)

Você vai encontrar isso em quase todos os filmes de uma hora e meia, que dividem mais ou menos 30 minutos para cada ato. Os blockbusters e filmes mainstream também se apegam a essa regra e raramente oferecem filmes com outras estruturas. Este, no entanto, é apenas um padrão e diz respeito ao roteiro. Inúmeros outros padrões e regras estão espalhados por todo o cinema, dos níveis mais artísticos aos mais comerciais, e o filme alternativo tenta ser uma quebra disso.

Como sabemos, no entanto, quebras sutis como as que a Marvel vem fazendo nos estereótipos dos seus personagens não causam um impacto imediato muito forte nos espectadores e, optando por mudanças graduais ou sutis, pensadas a longo prazo. É no oposto disso que os filmes mais alternativos tentam encontrar o seu espaço: o diferente nos atinge de imediato, ainda que isso possa custar o esquecimento da obra.

Assim, o filme pode ser alternativo por diversos motivos: por rejeitar regras técnicas, estereótipos, narrativas, perspectivas etc. que se tornaram padrão. Assim, o surrealismo de David Lynch é alternativo por não propor uma história que possa ser entendida (é só para sentir mesmo, o entender é por sua própria conta e risco); o trash de Ed Wood é alternativo por fazer sua vontade valer mais que os interesses da indústria; a versão de Snyder da Liga da Justiça é alternativo por recusar a história contada pelo outro diretor e pelo estúdio; A Bruxa de Blair também o é por recusar a ideia de que é necessário uma quantia estratosférica de dinheiro para fazer um filme (e entrar para a história); assim como Glauber Rocha com sua ideia na cabeça e uma câmera na mão; e assim por diante. Os exemplos são infinitos.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, lançado em 1964 e dirigido pelo brasileiro Glauber Rocha (Imagem: Reprodução/Copacabana Filmes)
Deus e o Diabo na Terra do Sol, lançado em 1964 e dirigido pelo brasileiro Glauber Rocha (Imagem: Reprodução/Copacabana Filmes)

Quanto mais estranhamento nos causa um filme, mais fora do padrão ele se encontra, o que significa que provavelmente é ainda mais alternativo. Nesse sentido, o alternativo também se confunde com o cinema de vanguarda, com o trash, com o experimental e com o cult, esbarrando em muitas outras correntes artísticas pelo caminho.

Não existe filme alternativo

Há quem diga, no entanto, que esse não é um bom conceito. Filme é filme, só que alguns são mais influenciados pelo interesse comercial e outros, menos. Assumir um filme como alternativo significa dizer, como estávamos explicando, que é uma alternativa ao padrão. O perigo disso está em estabelecer o que é o padrão, correndo o risco de deixar a teoria ainda pior se pensarmos que o padrão é o correto, como muitos leitores de Syd Field chegam a cogitar.

Assumir isso seria deixar em aberto a possibilidade de estabelecermos uma hierarquia: será que o filme alternativo é pior? Será que ele é melhor? É impossível respondermos isso. Além do mais, nada impede que o alternativo seja pop, bagunçando ainda mais qualquer tentativa de separar as coisas. É difícil imaginar isso hoje, mas Steven Spielberg, George Lucas e demais diretores da chamada Nova Hollywood eram diretores alternativos.

Imagem: Reprodução/Lucasfilm
Imagem: Reprodução/Lucasfilm

O livro Como A Geração Sexo-Drogas-E-Rock'N'Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind, em resumo, é basicamente sobre como os diretores alternativos (muitos deles também independentes) salvaram Hollywood. Star Wars, por exemplo, consegue a proeza de ser (pelo menos em sua raiz) alternativo, independente, vanguardista, cult, pop, geek, nerd, histórico, filosófico e comercial.

Se voltarmos ao Priberam, poderemos ver a última definição, que tem como exemplo justamente ao cinema: "Que ou quem não segue ideias, interesses ou tendências dominantes". É uma ótima definição de como o termo é comumente entendido, mas, como já vimos, existiram e continuam surgindo casos em que o alternativo se tornou dominante (padrão, pop).

Por fim, é o pop que acaba propondo o dilema final: se o alternativo ficou pop e se tornou padrão, ainda é alternativo? Esse é o exato dilema que vivem movimentos artísticos musicais como jazz, samba, hip-hop, punk, rock, k-pop e tantos outros que, em sua essência, pareciam ser a recusa máxima do padrão.

Fonte: Canaltech

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