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Uma saída ou o retrato da agonia: o que sonham os brasileiros na pandemia

Cristiane Capuchinho
·5 minuto de leitura
Sonhar com máscaras, sem máscara, com o presidente? O que os brasileiros sonham? (Foto: Getty Images)
Sonhar com máscaras, sem máscara, com o presidente? O que os brasileiros sonham? (Foto: Getty Images)

“Sonhei que estava numa casa que não era minha, e estava cheia de gente. Entraram pessoas de máscara, acho que eram todos homens, e eles usavam máscaras de pano. Eles iam matar a gente. Eu saí correndo da casa e consegui ir pra rua. Estava de noite, a rua estava vazia. Eles vieram atrás de mim.Comecei a correr e precisava gritar ‘socorro’ para me salvar. Só assim iria me salvar. Abria a boca, fazia esforço e o grito não saía.”

As máscaras, o álcool gel, o medo da morte. A pandemia invadiu nossas noites. Ao virar o mundo de cabeça para baixo, o coronavírus perturbou o imaginário e tomou conta de nossos sonhos. O fenômeno não surpreende psicanalistas, neurocientistas e quem dedica a vida a entender essa dimensão da vida humana. Durante o sono, o cérebro experimenta formas de elaborar o cotidiano, as memórias e as emoções.

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“Podemos pensar que os sonhos são uma espécie de sismógrafo que nos permite perceber níveis da realidade que talvez o pensamento da consciência não dê conta de acessar. No sonho, a gente está elaborando uma forma de pensar a realidade que pode captar com mais agudeza algo de que a consciência não quis saber”, explica o psicanalista Gilson Iannini, pesquisador da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Uma experiência que normalmente é muito individual, pois pode misturar imagens da infância com cenas do seu dia em situações de tensão ou de catarse que refletem suas emoções naquele momento, ganha contornos coletivos durante grandes eventos sociais.

“As pessoas são muito diferentes e respondem de maneira diferente a um momento de estresse. Mas a gente não pode perder de vista que o evento que estamos vivendo é de dimensões bíblicas, e isso aproxima a temática onírica. Traz as pessoas para uma experiência comum”, comenta o neurocientista Sidarta Ribeiro, pesquisador da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e autor de “O Oráculo da Noite” (Companhia das Letras).

O testemunho onírico sobre essa experiência inédita e comum interessou a diversos grupos de pesquisa no Brasil a coletar relatos de sonhos desse tempo de peste.

O livro “Sonhos Confinados: o que os brasileiros sonham na pandemia”, organizado por pesquisadores das universidades federais de Minas Gerais (UFMG) e do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade de São Paulo (USP) e publicado pela Autêntica Editora em abril, traz a análise de mais de mil relatos recolhidos em formulários on-line.

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Da mãe para o pai

De março de 2020 até agora, as narrativas foram mudando de tom. No início, o susto e a incapacidade de compreender algo nunca antes experimentado aparecia também durante a noite, em narrativas muito fortes. “Eram vívidos, muito intensos e, em geral, traziam a sensação de uma hiper-realidade. A pessoa acordava com a sensação de uma confusão entre o sonho e a vida real”, conta Ianinni.

As palavras casa e mãe apareceram com grande recorrência nos sonhos dos primeiros meses da pandemia. Para os pesquisadores, a imagem materna vinha em sinal de proteção e segurança. Com o passar dos meses e a normalização da situação excepcional, os relatos mudaram. Na amostra mais recente, de março de 2021, a imagem do pai tomou o lugar daquela da mãe em sua frequência. Gilson Iannini conta que os pesquisadores ainda não têm respostas sobre o que teria motivado essa troca, e ainda devem aprofundar o exame dos sonhos desse período.

Políticos na intimidade de nossos quartos

A presença de políticos e personalidades nos relatos oníricos também chama a atenção. O achado é corroborado pela psicanalista Joana Horst, que participa do projeto Inventário dos Sonhos, coordenado por professores da USP e da UFRGS.

“Os sonhos vêm nos apontando como essa dimensão singular e coletiva estão imbricadas. Aparece muito nos relatos de sonho os anseios deste momento do Brasil, aparece misturado o medo pelo vírus e a gestão da crise sanitária, ações pontuais do governo, do presidente, e acontecimentos políticos”, indica Horst.

Ela exemplifica com um sonho em que um homem invade casas, abre geladeiras e destrói a sobremesa alheia jogando os pudins dos outros no chão. “No formulário, o sonhador associou a imagem ao presidente e a seu infantilismo ao lidar com situações”, diz.

O projeto Inventário dos Sonhos já recebeu mais de 1.200 narrativas oníricas e continua a coletar sonhos. O objetivo é constituir um acervo de memória testemunhal deste período, que talvez deixe marcas perenes em nosso imaginário.

Andar sem máscara na rua é o antigo sonhar que está de pijama no trabalho, brinca Joana Horst.

Partilha como saída

No fundo, o sonho que parece ser uma experiência tão singular e individual, quando colocados lado a lado apontam ressonâncias e similaridades da experiência do ser humano em um período.

“Antes de chegar a uma conclusão, antes de utilizar um pensamento lógico racional e chegar a um pensamento coerente, a gente experimentou muitas outras combinações possíveis. E essa forma de pensar que é através das combinações, que não se preocupa em ser coerente ou resolutiva, é a isso que se chama pensamento por imagem”, observa Anelise de Carli, pesquisadora da Rede Covid-19 Humanidades e coordenadora do projeto Sonhos de Quarentena.

Os projetos que coletam sonhos estão criando um novo lugar de partilha para algo que, em outros momentos da história, era feito em torno de uma fogueira ou de uma mesa. Ao ler sobre os sonhos dos outros, podemos nos sentir menos sós, encontrar espaços de partilha e, por que não, saídas para as crises.

“Quando as pessoas veem as narrativas [dos sonhos] das outras pessoas, isso cria um espaço de experiência comum, cria uma comunidade de sonhadores. É bonito pensar dessa maneira”, reflete De Carli.