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O que procedimentos estéticos e cirurgias plásticas dizem sobre racismo no Brasil? Uma psicóloga e uma cirurgiã respondem

Laura Suprani*
·5 minuto de leitura
André Mello

RIO - Em dezembro de 2020, a blogueira baiana Sthefane Matos publicou um relato em suas redes sociais sobre sua experiência negativa com cirurgias plásticas. Um mês antes, ela precisou se submeter a uma operação de emergência para fazer um enxerto de pele na região do nariz, após complicações causadas por duas rinoplastias.

No vídeo, Matos contava que a decisão de realizar as operações se seguiu a uma busca incessante por “alcançar um padrão de beleza que não existe”, além de críticas e comentários negativos em seus perfis virtuais.

“Há dez meses, eu tinha um nariz saudável, perfeito. E eu fiz uma cirurgia de rinoplastia pra poder me encaixar em um padrão de beleza que não existe”, diz ela no post, e continua: “Uma cirurgia que me trouxe tantos traumas, tantos problemas.”

O relato de Sthefane Matos não é isolado.

Há dez anos, a modelo e influenciadora Flá Carves, de 29, precisou realizar uma rinoplastia para corrigir um desvio de septo, uma condição anatômica que, em alguns casos, pode levar a complicações respiratórias. Ao acordar da operação, ela foi parabenizada pelo médico, que considerou a cirurgia “um sucesso” e disse que aproveitou o procedimento para “afinar” o nariz da jovem.

— Foi um baque pensar que meu corpo foi alterado esteticamente sem a minha permissão — conta Carves. — Sempre ouvi que eu era exótica, tinha um pé na cozinha. Meus pais são brancos, fui criada com uma pessoa branca e, por isso, nunca fui envolvida em debates raciais, mesmo sabendo desde a infância que eu destoava dos meus irmãos e de grande parte da família. Após estudar mais, entendo que é histórico e estrutural o apagamento de traços negroides e indígenas — reflete.

Diante dos relatos de Sthefane Matos e Flá Carves, e apesar de os dados sobre cirurgia plástica no Brasil não apresentarem recorte racial, precisamos também perguntar: o que os procedimentos estéticos dizem sobre racismo no país?

Padrões de beleza e autoaceitação

Desde muito jovens, pessoas não-brancas enfrentam a discriminação racial, que também se manifesta em forma de piadas com a textura e a cor do cabelo, o formato de nariz, lábios e olhos, entre outras experiências que deixam marcas até a vida adulta. Como consequência, é comum o desejo por um nariz mais fino, com abas menos largas e socialmente valorizado como o “nariz perfeito". A harmonização facial, que se popularizou nos últimos anos, é outro procedimento usado para alterar feições e traços do rosto a fim de seguir os padrões da branquitude: maxilar quadrado, maçãs do rosto altas e sobrancelhas arqueadas são alguns exemplos.

A psicóloga Cíntia Aleixo explica que “dismorfobia” é o nome utilizado para definir o medo de ter um corpo diferente do padrão. Para muitas pessoas, especialmente entre jovens, a solução encontrada é a realização de procedimentos estéticos, com o objetivo de se aproximar desses modelos.

— É importante questionar qual ponto de vista essa pessoa usará como ferramenta pra centralizar um “padrão de beleza”. Será que é possível que eu, uma mulher negra, me compare a uma mulher branca europeia? Por que eu devo me comparar e acreditar no racismo que diz que esse é o parâmetro que preciso seguir? — reflete Aleixo, para quem a compreensão das diferenças ajuda a fazer com que essa estética não invada nossa estrutura psíquica e não nos sintamos inferiores. — É um grande esforço, que deve ser feito diariamente. Precisamos nos certificar da nossa verdade, da nossa estética; valorizar nossos traços, nosso nariz, nosso cabelo, nossa boca.

De acordo com a cirurgiã plástica Abdulay Eziquiel, uma das poucas mulheres negras a atuar na área no Brasil, a valorização dos padrões da branquitude também se perpetua entre muitos profissionais, que se baseiam numa estética caucasiana ao aconselhar e atender seus pacientes.

— O racismo passa também pelo profissional dentista que, por exemplo, acha que é necessário clarear a gengiva de um paciente. Ou um cirurgião plástico que acredita que um nariz bonito é apenas aquele que segue critérios ultrapassados de proporção, e recomenda a um paciente com nariz mais largo que passe por uma cirurgia. — São muitos anos, muitas décadas de discursos racistas que dizem que os traços dessas pessoas são feios, são desproporcionais. É preciso desmistificar isso — reforça Eziquiel.

A psicóloga Cíntia Aleixo lembra que um dos elementos importantes para a construção da autoestima é o “olhar do outro”. Em uma sociedade racista, na qual pessoas negras e não-brancas são constantemente diminuídas e desqualificadas por terceiros, esse olhar é geralmente acompanhado de negatividade, tornando mais difícil o processo de construção de uma autoimagem positiva.

— Para que tenhamos uma relação boa com nossa imagem e corpo, precisamos receber amor antes. Quando nos deparamos com o olhar do outro, esperamos ser aprovados. Se isso não acontece e começamos a ser vistos por um olhar racista, toda essa construção [da autoestima] é prejudicada — explica ela, ressaltando a importância de pessoas não-brancas terem cuidado para não se anularem. — Não podemos ter medo de nos olharmos no espelho. A vaidade é importante, e pode ser muita rica nesse processo.

A cirurgiã plástica Abdulay Eziquiel afirma que é preciso falar sobre autoaceitação:

— É preciso entender que um procedimento estético não vai ser a cura de problemas. Cuidar de dentro para fora é muito importante, e por vezes é necessário um acolhimento psicológico para que a paciente consiga alcançar um bem estar. Autoaceitação é muito importante, conseguir se amar é muito importante. Ninguém é perfeitamente simétrico, todo mundo tem pequenas assimetrias, pequenas imperfeições. E está tudo bem — destaca.

Debates sobre padrão de beleza e a busca pelo “corpo perfeito” têm ganhado grande projeção, com a adesão cada vez maior de mulheres a movimentos como o body positive e skin positivity, que valorizam a diversidade de corpos e a rejeição a esses padrões.

— É fundamentar achar lugares e redes para que eu contemple a beleza que tem dentro de mim e de pessoas parecidas comigo. Em relação a pessoas negras, é a necessidade do aquilombamento. Porque não é fácil romper com essa lógica sozinho — conclui Aleixo.

* estagiária, sob supervisão de Renata Izaal