Mercado abrirá em 8 h 44 min

Violência sexual: o que não pensar nem falar sobre as vítimas

Ava Vidal
·3 minuto de leitura
Stop
Precisamos evoluir no tratamento das vítimas. Foto: Getty Images

Mulheres vítimas de violência sexual não lidam apenas com o trauma emocional causado pelo crime. Na sequência dele, vêm sentimentos provocados pelo seu entorno, como humilhação – vide trecho divulgado do julgamento de André de Camargo Aranha, acusado e – até o momento – absolvido do estupro da influenciadora Mariana Ferrer.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Toda mulher, ainda que inconscientemente, sabe que, em uma situação similar a de Mariana, o holofote se volta para a vítima e, até por isso, a maioria prefere não denunciar seu agressor. Segundo o levantamento Violência Contra as Mulheres de 2019, realizado pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apenas 22% das mulheres denunciam agressões sexuais para um órgão oficial.

Para que esse número cresça, nós, como sociedade, precisamos evoluir no tratamento das vítimas. Veja a seguir o que não pensar sobre, muito menos falar, uma mulher que sofreu violência sexual.

"Também com essa roupa"

Alguma vez você fez a observação acima para alguém que teve o carro ou o celular roubado? Pois é, não faz sentido, tampouco para uma vítima de agressão sexual. Roupa não é convite para NENHUM tipo de crime.

"A essa hora na rua"

Não existe crime liberado por faixa de horário, portanto, a observação é, no mínimo, besta. Mas se você imagina que a maioria dos estupros/abusos são cometidos nos momentos de lazer, engana-se.

Segundo a psicóloga Daniela Pedroso, especializada em atender mulheres vítimas de violência sexual, em seus 23 anos de experiência, a maioria das que chegaram até ela relataram estar indo ou vindo do trabalho/escola, ou seja, estavam em situações cotidianas.

"Ah, mais ela estava bêbada"

Se a mulher estava sob efeito de álcool ou drogas, é mais um motivo para que NÃO se viole seu corpo. Por estar em condição vulnerável, ela não tem a menor condição de decidir se quer fazer sexo. Quem está lúcido é que deve ter o discernimento de não levar o ato sexual adiante. Há até uma condição prevista no Código Penal: estupro de vulnerável.

"Por que demorou tanto tempo para denunciar?"

Sabe o que as vítimas relatam fazer após estupro? "Passarem muito tempo tomando banho para tirarem do corpo a sensação de sujeira", relata a psicóloga Daniela Pedroso.

"A vergonha também pode contribuir para que a mulher não denuncie. Muitas se sentem responsáveis pela violência sofrida, como um reflexo da culpa que a sociedade joga sobre ela", afirma a assistente social Carolini Constantino, pesquisadora pela Universidade Feevale, de Novo Hamburgo (RS) e integrante do Coletivo Feminista Helen Keller de Mulheres com Deficiência.

Carolini acrescenta que, depois de sofrerem a violência, é comum que sintam muito medo: medo de que aconteça de novo, medo de que ninguém acredite, medo de agredirem seus filhos/familiares, medo de serem expostas e não dar em nada, entre outros.

Barreiras como falta de uma rede de apoio e baixa autoestima também estão entre os fatores que podem explicar a demora em fazer a denúncia ou mesmo a não denúncia. Por isso não julgue.

"Ninguém mandou sair com um desconhecido"

Segundo o já citado levantamento Violência Contras as Mulheres de 2019, 76% dos agressores são conhecidos das vítimas, como companheiros, ex-companheiros e vizinhos. Mas, mais uma vez, conhecido ou desconhecido – NINGUÉM – tem permissão de cometer um crime.

"Mas como aconteceu mesmo?"

Não fique perguntando como aconteceu só por curiosidade. "Toda vez que a vítima narra os fatos, ela vivencia toda a dor e sofrimento novamente", diz Carolini. Quer ajudar? Seja alguém com quem ela possa contar e respeite a privacidade dela. Busque por instituições que atendem mulheres vítimas de violência em sua cidade ou ligue para o número 180, a Central de Atendimento à Mulher.

Assine agora a newsletter Yahoo em 3 Minutos

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube