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O que fazer quando se chega aos 50 sem planejar aposentadoria

*ARQUIVO* São Paulo, SP, 21-02-2019: Cédulas de real. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)
*ARQUIVO* São Paulo, SP, 21-02-2019: Cédulas de real. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - Ricardo Mucci não planejou a aposentadoria. Aos 70 anos, aproveita os aprendizados de décadas atuando como jornalista e empreendedor para se dedicar a novos projetos, que lhe proporcionam a renda com que se mantém hoje. "Sempre fui um contribuinte da Previdência, mas me aposentei com 65 anos ganhando um salário mínimo. Não tenho como viver com um salário mínimo, então não tinha muita alternativa", diz.

O jornalista, que passou por veículos de comunicação e assessoria de órgãos públicos, hoje atua como palestrante, tem uma produtora de audiovisual em que produz documentários e trabalha com investidores para lançar um banco digital voltado ao público sênior.

A tendência é que somente a aposentadoria do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) não seja suficiente para a chamada "geração sanduíche", que além de sustentar a si mesma e a seus filhos, presta auxílio financeiro aos pais.

A falta de planejamento para a longevidade é comum. O estudo Tsunami Prateado 2021, da empresa especializada em coleta de dados sobre a população com mais de 50 anos, Data8, mostra que 4 a cada 10 aposentados entrevistados não planejaram sua aposentadoria, número ainda maior para homens e população das classes C e D.

"O que acontece é que muitas vezes as dívidas se acumulam, então 34% da população tem feito novas dívidas, 24% usam suas economias para conseguir sobreviver e 20% pedem empréstimo bancário", relata Clea Kouri, sócia-fundadora da Data8.

Como começar o planejamento?

Para Angélica Araújo, planejadora financeira pela Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro), o primeiro passo é refletir sobre o momento atual. "A pessoa precisa pegar papel e caneta e pensar na situação dela hoje em todos os sentidos, saúde, financeiro, social, emocional, profissional, para então poder colocar no papel o que deseja e o que precisa fazer para chegar lá."

A especialista recomenda que a pessoa busque compreender seus gastos e possibilidades de economia, assim como despesas e fontes de renda que pode prever para o futuro. Inicialmente, é importante verificar a situação previdenciária no INSS, buscando informações por meio da simulação e do extrato do Cnis (Cadastro Nacional de Informações Sociais) disponíveis no Meu INSS.

"Checar se os dados estão corretos, se todas as empresas por onde passou fizeram contribuições, se pagou alguma contribuição abaixo da regra. É importante regularizar aquilo que estiver faltando para cumprir as regras para se tornar um aposentado no futuro", diz Araújo.

No simulador do INSS, é possível verificar quanto tempo falta para se aposentar em uma das regras de transição criadas pela reforma da Previdência ou na regra definitiva, que exige idade mínima de 65 anos (para homens). Para mulheres, a idade mínima passará a ser de 62 anos a partir de 2023. É preciso ter, no mínimo, 15 anos de pagamentos ao INSS, para quem já era inscrito no INSS quando a reforma começou a valer, em novembro de 2019.

A planejadora ressalta que o benefício do INSS é vitalício, independentemente da remuneração, e pode ser uma importante fonte de renda. "A pessoa pensa quanto precisa na aposentadoria para viver de forma confortável e se, a partir do benefício do INSS e da situação financeira do momento, conseguirá este valor."

Uma das alternativas para poupar o dinheiro necessário é a previdência privada. Carlos Heitor Campani, consultor de investimentos e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), diz que o ideal é que os aportes comecem o quanto antes, mas que aos 50 anos ainda vale começar a investir na previdência.

"Claro que para atingir determinada renda, comparativamente com quem começa aos 20 anos, vai ter que fazer mais esforços, mas isso é consequência natural da situação", diz Campani.

Ele recomenda atenção às características do plano para verificar a rentabilidade. Para taxas de administração de fundos previdenciários de renda fixa, sinaliza que o parâmetro do mercado é de 1,5% ao ano, no máximo. Já para fundos multimercado, com maior complexidade na gestão dos ativos, a taxa máxima recomendada é de 2,2% ao ano.

Segundo Campani, uma taxa de administração maior tem de ser compensada por outros parâmetros, como tábua atuarial que estime a morte com menos idade, uma taxa de juros maior no período do benefício e ausência de taxa de carregamento. O especialista aponta que a rentabilidade passada também é um bom indicador para avaliar se o gestor cumpre o que é prometido, mas ressalta que não garante bons retornos no futuro.

Porém, se o valor disponível para investir e gerar 'poupança' não for suficiente para formar uma reserva em dez ou 15 anos, será necessário buscar fontes alternativas de renda, além de rever o estilo de vida para cortar gastos.

Neste processo, é importante revisitar o planejamento de acordo com as percepções e necessidades que surgem ao longo do tempo. "O planejamento para a longevidade não é estático, mas se trata de ter equilíbrio hoje, para ter algo positivo amanhã."

Reinvenção profissional é um dos caminhos encontrados para obter renda

Além de economizar, pode ser necessário pensar em formas de se reinventar profissionalmente nos próximos anos. Com o mercado de trabalho falhando em absorver a população com mais idade, a saída encontrada por muitos é o empreendedorismo.

"A pessoa vai ter de usar a criatividade e buscar nos seus talentos para ver o que pode colocar a serviço da humanidade e ter retorno financeiro", diz Araújo. Foi o que fez Mucci: o jornalista uniu a necessidade de gerar renda ao propósito de contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas com mais de 50 anos.

"Meu foco hoje é empreender, não tem alternativa", diz. "Estou usando aquele ativo que acho que tenho de melhor, que é a criatividade, a ousadia e o conhecimento a respeito desse universo da longevidade."

Investimentos devem prezar pelo baixo risco

Para Márcia Dessen, planejadora financeira pela Planejar, o objetivo neste momento deve ser de preservar o capital, e não assumir riscos em seus investimentos. Por isso, recomenda priorizar a renda fixa em suas diversas modalidades.

"Taxa pós-fixada, um pouco de inflação, eventualmente o pré-fixado se a taxa estiver muito boa, mas eu diria que a taxa pós-fixada que acompanha o CDI mais juros é a alternativa mais adequada para quem quer preservar o patrimônio nesta fase da vida."

A especialista também recomenda que o investidor preste atenção à liquidez diária, em que se pode pedir resgate a qualquer momento sem o risco de perda financeira. Tal atributo pode ser importante para momentos emergenciais, visto que outras alternativas não permitem o resgate rápido sem o pagamento de taxas.

Roberto Agi, sócio da Alta Vista Investimentos, aponta para a importância de aproveitar o momento atual em que há uma conjuntura favorável para quem investe em renda fixa. Para ele, vale fazer um esforço para sobrar um pouco mais no orçamento agora para aproveitar taxas de juros reais mais atraentes.

Ele diz que a previdência privada tem atributos que podem ser benéficos de acordo com os objetivos do investidor. Ao utilizar previdência do tipo PGBL, por exemplo, com a tributação regressiva e aplicação por um mínimo de dez anos, o Imposto de Renda pode chegar a apenas 10% do investimento.

A ideia é que a reserva construída ao longo do tempo forneça a possibilidade de um futuro com mais qualidade de vida, como o almejado por Mucci, que está trabalhando para lançar um banco digital voltado ao público sênior.

"Faço um trabalho, ganho dinheiro por um tempo, ele me mantém durante certo tempo, então faço outro trabalho. Agora, estou me envolvendo em outro projeto que pode ser mais perene, duradouro e estável, que vai me permitir ter tranquilidade financeira e permitir que outras pessoas também tenham, e possam pensar no futuro com mais carinho e segurança e ter um presente um pouco mais gostoso, saudável e feliz."