Mercado fechará em 1 h 28 min

O que esperar da 'Super Quarta' com decisões sobre juros do Copom e Fed

Juros básicos de Brasil e EUA serão definidos nesta quarta
Juros básicos de Brasil e EUA serão definidos nesta quarta

Esta quarta-feira está sendo chamada pelo mercado financeiro de 'Super Quarta', já que o Copom se reúne para definir a taxa básico de juros de nossa economia, a famosa Selic, e o Fed faz a mesma coisa nos EUA para decidir os juros da maior economia do mundo.

Se no Brasil a inflação da sinais de perda de força, nos EUA a situação é mais complicada, com os preços permanecendo em patamares elevados - os mais altos desde os anos 80.

Confira algumas respostas sobre o assunto de André Crepaldi, Diretor de Gestão de Patrimônio da WIT,empresa especialista na gestão de patrimônio

Quais as expectativas para a reunião do COPOM dia 21/09? É esperado que o Banco Central do Brasil aumente os juros ao patamar de 14%? Você acredita que seja necessário este ajuste?

Acredito que a taxa básica de juros não precise subir, porque teremos um cenário eleitoral, que pode trazer novos desdobramentos. Mas para essa reunião do dia 21/09, eu diria que a inflação está sendo contida, que já é resultado desse aumento da taxa de juros, que vem acontecendo desde março de 2021. Por isso, estamos chegando no final do ciclo de alta, os juros futuros já estão sinalizando o fechamento dessa curva de crescimento, então acredito que não seja necessário aumentar nesta reunião.

O Banco Central sinalizou que tenha espaço para aumento no sentido de dizer que talvez precise aumentar em 0,25%, não necessariamente nesta reunião, pois já estamos enxergando o resultado da desaceleração da inflação. Nos últimos dois meses, já tivemos deflação e estamos caminhando para as expectativas do final do ano.

Caso o Banco Central aumente as taxas de juros mais uma vez, quais os seus conselhos para os investidores?

Mesmo que o Banco Central aumente um pouco, ele aumentará de forma mais leve, não continuará subindo para 14,5% ou 15%, talvez seja um ajuste de 0,25 para chegar nos 14%, no máximo 14,25%. Então, continua sendo um bom investimento o pós-fixado, que fica atrelado à Selic e, também, já trava algumas taxas olhando um fechamento de curva mais para frente. Agora pode ser uma boa hora para dar atenção aos pré-fixados, porque a curva de juros deve começar a fechar no ano que vem, já que a inflação começa a dar sinais de ficar mais controlada. Pensando no horizonte de 2024, já tem sinais de que vai baixar a Selic. Então, travar o pré-fixado agora pode ser algo que faça sentido, sempre olhando a diversificação da carteira.

E no caso de se manter em 13,75%? Existe um movimento positivo em ações de varejo e também nos fundos imobiliário. Seria uma retomada destes setores?

Eu diria que ainda temos que ter cautela nesse sentido. Ao mesmo tempo que aqui estamos chegando em um patamar de, possivelmente, um teto da Selic e começar a olhar o fechamento da curva de juros futuro, nos Estados Unidos ainda estamos em um movimento de aumento de juros para conter a inflação lá. Quando os juros ficam mais fortes nos Estados Unidos, há o movimento de capital para uma moeda forte, para uma taxa de juros norte-americana mais alta. E isso pode fazer com que investidores, principalmente estrangeiros, olhem a renda fixa no exterior e isso desacelere um pouco o movimento da bolsa brasileira. Além disso, ainda temos as eleições, que pode ser um rally que vai afetar a bolsa. Não vejo com tranquilidade para começar a montar essas posições, elas ainda podem sofrer bastante oscilação nesse curto espaço de tempo de 60 dias.

Quando você acredita que deve se iniciar o ciclo de queda de juros no Brasil? E quais os impactos previstos nos investimentos?

O ciclo de queda ainda levará mais um tempo, talvez no segundo semestre do próximo ano e tudo dependerá também de como será o comportamento do novo presidente, como o mercado vai enxergar. Se for o Lula, por exemplo, ainda não temos ideia de quem serão os novos ministros da economia, o presidente do Banco Central não está claro ainda quem que poderia assumir e isso pode ter um impacto no mercado.

Mas o impacto para a economia é superpositivo, não olhando apenas os investimentos, mas a economia em geral, porque os juros mais baixos voltam a estimular o consumo, a economia gira, o que gera emprego e uma série de outros benefícios que são importantes para o país.

O Brasil, aparentemente, está no fim do seu ciclo de aperto monetário. O BC vai conseguir vencer essa batalha contra a inflação?

Sim. O fim do ciclo está sendo enxergado porque o Banco Central já começou a dar sinais de uma inflação contida, para começar a ter deflação. Então, por isso acho que o Banco Central está conseguindo vencer essa batalha contra a inflação.

A deflação e o crescimento do PIB estão relacionados com o corte dos impostos e pacote de auxílios. Como você vê o cenário em janeiro de 2023?

Depende muito das eleições, mas em janeiro de 2023 eu acho que o cenário começa a ficar mais claro, porque os juros ainda estão muito altos, o que impacta diretamente o financiamento imobiliário e de veículos. Então, isso reduz um pouco o consumo e, dessa maneira, temos um pouco da redução da inflação.

Em dia de Super Quarta, quais as expectativas para a reunião do FED?

O mercado já está enxergando que os EUA precisarão aumentar mais os juros em 0,75% ou até chegar a 1%, que é uma taxa de juros bastante alta, que não acontecia há mais de 40 anos nos Estados Unidos. Isso pode causar uma desaceleração nos Estados Unidos, então já tem alguns players, bancos e casas de análise olhando até risco de recessão nos Estados Unidos. Com uma recessão em um país como esse, acaba desacelerando um pouco o resto do mundo, pois reduz consumo americano e importações, e isso pode afetar inclusive o Brasil. O que se enxerga é que sim, eles precisam subir os juros nos Estados Unidos para conter a inflação que está muito alta.

E o quanto a alta de juros nos EUA atrapalha o Brasil? E o quanto pode ajudar, visto que o Brasil está encerrando o ciclo de alta?

Um dos principais fatores é que o mundo vê países emergentes como o Brasil, como oportunidade de investimentos, por terem os juros mais altos e oportunidades de retorno mais altos. Mas quando temos um país que, em teoria, tem um risco muito menor, que seria um país como os Estados Unidos, com uma moeda forte como o dólar, isso atrai os investidores para a renda fixa americana, atrai os investidores globais para a segurança de um país mais forte.

Este cenário pode fazer com que investimentos que viriam para o Brasil acabem permanecendo lá nos Estados Unidos. Acredito que isso pode afetar diretamente quando falamos de investimento em renda fixa no Brasil. Não é apenas na bolsa, não é o capital estrangeiro comprando ações na bolsa, pelo contrário, é comprando tesouros, títulos públicos brasileiros que são a renda fixa e o volume grande que de fato faz diferença para o país. A dívida pública nada mais é do que uma forma de o país se capitalizar para poder investir em infraestrutura, educação e em tudo que precisa ser investido. E se temos menos dinheiro sendo colocado para isso, a atratividade dos títulos públicos diminui e faz com que venha menos dinheiro para investimentos no país.

A alta na taxa de juros nos Estados Unidos, iniciada no final de março, é um dos principais fatores que vem gerando volatilidade nos mercados globais. O maior receio é de que os esforços para combater a maior inflação em 40 anos no país acabem levando a economia a uma recessão. O Fed conseguiria subir os juros nos EUA sem que isso signifique necessariamente uma recessão? Fala-se em pouso suave, por conta do mercado de trabalho aquecido…

Seria um mundo ideal se o país continuasse crescendo e gerando empregos, apesar de juros mais altos. Como os países estão vindos de uma retomada pós-pandemia, eu acredito que pode ser possível um aumento nos juros sem necessariamente causar uma recessão nos Estados Unidos, porque se este ajuste monetário for sendo feito gradativamente, pode ser como "um pouso mais suave", como o presidente do banco Central americano, Jerome Powell, espera. Mas tem que ser dosado conforme o tempo, acompanhando a reação do mercado e como a economia se comporta em relação aos movimentos do Fed.

A tendência é de termos inflação e juros altos até quando nos EUA e Europa?

Acredito que vamos ter juros altos ao longo de todo 2023 nos Estados Unidos e, principalmente, na Europa, em decorrência da questão de oferta e demanda de gás, que já causou uma inflação altíssima. Enquanto não há uma previsão de desenrolar da guerra da Ucrânia, a tendência é de inflação alta.

Por outro lado, já se fala em uma estagflação na Europa. Quais cenários você acredita que sejam mais prováveis em EUA e Europa e como isso afeta os investimentos globais e no Brasil?

Eu acredito que a Europa está caminhando para um cenário de estagflação. Teremos a questão de conter a inflação pós-pandemia e, além disso, temos a questão da demanda energética da Europa que ainda vai perdurar por mais um tempo até que as coisas se controlem por lá devido à Guerra na Ucrânia. Então eu acredito que a Europa ficará, de fato, nesse cenário de estagflação.

Os impactos para o Brasil são talvez um pouco menores, mas ainda são altos, porque as demandas de exportação podem ficar piores para o Brasil nesse sentido, de redução na exportação da produção do agronegócio que são destinadas à Europa. Mas, acredito que o Brasil está com mais chances de crescimento, porque o agronegócio é muito forte, vem puxando a nossa economia e continuará nos próximos anos. Então, o Brasil tem condição de se destacar, apesar da economia internacional.

Pensando no investidor brasileiro, quais são as melhores oportunidades no momento?

Eu acredito que é possível aproveitar o fechamento da curva de juros futuros, que seria justamente quando a inflação estiver contida e começar a ter os cortes na taxa Selic. O mercado financeiro sempre tenta trabalhar por antecipação, então é o momento de aplicar agora, de montar as posições agora, travando as taxas, seja em títulos de inflação e mesmo com ela contida, você está travando a porção pré-fixada deste título, que tem uma parte pós-fixada que seria indexada à inflação, mais uma parte pré-fixada, que estão com taxas interessantes para se carregar à longo prazo e, também, em algo títulos pré-fixados, travando uma taxa que pode ficar interessante para se carregar nos próximos 2 ou 3 anos.

Para aqueles que têm mais apetite, já podem começar a montar algumas posições em ações, que deve haver uma retomada, já que, historicamente, em anos eleitorais sempre se enxergou uma retomada das ações, do Ibovespa nos seis meses subsequentes à uma eleição. Então, em meses anteriores à eleição, o estudo não é conclusivo se o mercado cai ou sobe, mas historicamente, após eleição, independente do governo que assuma, temos uma retomada pois existe uma confiança maior do investidor.

O mercado financeiro já está precificando as eleições brasileiras ou os fatores externos, como as altas taxas de juros, estão pesando mais no momento?

Eu acredito que os fatores externos estão pesando até mais que a eleição. A eleição já está até precificada, mas o investidor estrangeiro acaba olhando um Brasil a longo prazo, em 10, 15 ou até 20 anos e quando ele enxerga isso, não se vê tanta diferença entre um governo ou outro. Hoje o mercado está precificando muito ainda a questão dos juros nos Estados Unidos e na Europa com guerra até mais que a própria eleição.

Diferente de todo o mundo, a China não tem acenado para o aumento da taxa de juros. Quais os impactos para o Brasil?

Como o Brasil exporta bastante para a China, um dos principais impactos aqui seria na balança comercial, na nossa reserva de moeda estrangeira e, de fato, no impacto direto da exportação de como isso poderia afetar as indústrias brasileiras. A China é um país que consome muito, até pela população chinesa e pela demanda que eles têm do restante do mundo, uma desaceleração da China pode impactar não somente o Brasil, mas vários países que fazem negócios com a China. Querendo ou não, o mundo é dependente da China, eles são uma grande potência. Uma potência desacelerando acaba desacelerando o Brasil e o resto do mundo.