Mercado fechará em 2 h 45 min

O que esperar da política externa de Biden para a América Latina e o Brasil

Redação Notícias
·10 minuto de leitura
(Carl Juste/Miami Herald/Tribune News Service via Getty Images)
(Carl Juste/Miami Herald/Tribune News Service via Getty Images)

Por José Antonio Lima*

A vitória de Joe Biden foi maiúscula e simbólica. O futuro presidente dos EUA se tornou o candidato mais votado da história, reconquistou Wisconsin, Michigan e Pensilvânia, três estados tradicionalmente democratas do nordeste norte-americano em que Trump havia vencido e fez avanços em estados republicanos como Arizona e Geórgia (nos quais ainda pode vencer), tudo isso acompanhado por Kamala Harris, a primeira mulher vice-presidente da história dos EUA. Por outro lado, os democratas mais otimistas esperavam das urnas um repúdio a Trump. Uma vitória esmagadora que pudesse exorcizar o movimento sociopolítico liderado pelo presidente. Não foi isso que ocorreu. O trumpismo não foi tirado de cena. Trump teve 7,3 milhões de votos a mais do que em 2016 e deve usar as alegações inventadas de fraude para firmar sua presença na política do país, talvez com vistas a voltar à disputa em 2024.

No discurso após a vitória, Biden usou múltiplas vezes o termo “cura” para se referir ao que pretende colocar em prática. Não à toa. Os Estados Unidos saem das urnas fraturados. Apesar de Trump ter perdido votos proporcionalmente entre os brancos e avançado mesmo em grupos demográficos em que ele é rejeitado de maneira contumaz, como as mulheres negras, a clivagem racial continua relevante. Como em 2016, os brancos (74% do eleitorado) votaram em maioria em Trump, 55% segundo a pesquisa AP VoteCast, enquanto as duas principais minorias, negros e latinos, continuam rejeitando o futuro ex-presidente. Quase dois terços dos latinos (63%) votaram em Biden, assim como 90% dos negros.

Leia também:

A divisão geográfica, que se tornou uma característica marcante da política dos EUA desde os anos 2000, ficou, por sua vez, mais pronunciada, com eleitores das zonas metropolitanas e dos subúrbios votando em peso em Biden e os das cidades pequenas e da zona rural preferindo Trump. O caso do Wisconsin é ilustrativo. Entre 2012 e 2016, Trump virou os votos em 22 condados, garantindo a vitória republicana. Em 2020, Trump ampliou sua votação na zona rural do Wisconsin e Biden virou em apenas dois condados, mas conseguiu a vitória graças ao intenso aumento de votação que obteve nos condados onde estão as duas maiores cidades do estado: Milwaukee e Madison.

Neste ambiente, Biden terá de se esforçar para ser, como promete, um presidente de todo o país e não apenas de seus eleitores. Esta busca vai se manifestar, em especial, no Congresso. Duas disputas de segundo turno para o Senado na Geórgia vão definir, em janeiro, a situação nesta casa legislativa, mas, mesmo que o Partido Democrata fique com a maioria, terá de abrir negociações com a oposição. Antagonizar de antemão pautas republicanas não deve ser uma estratégia de Biden. Ao mesmo tempo, porém, o presidente eleito certamente tentará a todo instante demarcar diferenças com Trump. A política externa, deste modo, deve ser a seara em que isso se dará. E os impactos na América Latina, particularmente para o Brasil, podem ser significativos.

O grande foco da política externa de Biden continuará a ser o mesmo de Trump: a China. As duas maiores economias do mundo estão engajadas em uma disputa por poder que prosseguirá, mas que deve ser travada de maneira mais “normal”. Prioritário para Biden será retomar as relações com a Europa Ocidental, percebidas como essenciais pelo democrata, inclusive para contrapor a China, mas também a Rússia, outra adversária norte-americana. O Oriente Médio, onde os compromissos de Washington são muitos, mas a disposição de investir dinheiro e vidas, cada vez menor, deve continuar a atrair a atenção sistematicamente. A América Latina, junto da África, deve ocupar um patamar secundário na política externa dos EUA, mas não por isso irrelevante para os países da região.

Em linhas gerais, a política para o “Hemisfério Ocidental” deve retomar as diretrizes do governo de Barack Obama, em que Biden foi vice-presidente, mas com atualizações, parcialmente influenciadas pela presença de Kamala Harris, cujas posições de política externa são percebidas como mais brandas que as de Biden.

Cuba e Venezuela

Uma diretriz da era Obama que deve ser retomada é a busca por distensão com o regime cubano. Questões domésticas vão continuar a impedir o fim do embargo econômico imposto a Cuba décadas atrás, mas a conclusão de que a melhor maneira de desestabilizar o regime é a promoção de intercâmbio entre os dois países deve ser novamente o princípio da política para Havana. Em março, em entrevista à revista Americas Quarterly, Biden destacou que iria “prontamente reverter as fracassadas políticas de Trump que infligiram danos ao povo cubano e não fizeram nada para avançar a democracia e os direitos humanos”. Comemorações pela população de Havana após a vitória de Biden indicam que a esperança em Cuba é justamente essa.

Na Venezuela, a mesma constatação ainda não se cristalizou. O objetivo geral de Biden será o mesmo de Trump: promover uma mudança de regime e remover Nicolás Maduro do poder. O multilateralismo deve ser mantido como estratégia, uma que a própria administração Trump adotou parcialmente, por meio do Grupo de Lima. À diferença de Trump, porém, o time de Biden deve abandonar a retórica agressiva e descartar uma intervenção militar. Desafio maior será trocar as sanções econômicas unilaterais impostas por Trump por sanções multilaterais. Caso esta tentativa ocorra, os países sul-americanos devem insistir com Washington que as sanções agravam o drama humanitário e permitem ao regime se entrincheirar ainda mais em seu autoritarismo. Não se pode descartar que, de modo a afugentar a influência russa e chinesa, Biden busque envolver países europeus na questão venezuelana.

Imigração

Uma atualização que deve ser aplicada à política de Biden em relação à de Obama é uma ênfase na bandeira dos direitos humanos, desprezada de maneira delinquente por Trump. O desafio aqui será um que a política norte-americana enfrenta desde sempre no continente: equiparar a prática ao discurso e defender, na América Latina, os mesmos padrões de direitos humanos que defende dentro das fronteiras dos Estados Unidos. O histórico não é favorável a Washington.

Um dos focos de Biden neste quesito deve ser o triângulo formado por El Salvador, Guatemala e Honduras, países de origem de muitos imigrantes que chegam aos EUA. Em vez de colocar essas pessoas em jaulas, como fez Trump, a promessa de Biden é promover o desenvolvimento desses países. Ocorre que, como vice-presidente, ele liderou um projeto com exatamente o mesmo intuito alegado que, na prática, se tornou em larga medida uma transferência de fundos para governos corruptos e autoritários reprimirem suas populações. Isso se deu, o que não surpreende, sem as críticas costumeiras às práticas de direitos humanos desses governos, algo que as administrações norte-americanas costumam fazer apenas quando as violações são cometidas por regimes antagonistas, tais quais os de Cuba e Venezuela.

Cabe destacar que barreiras domésticas são, também, um entrave para a política norte-americana na América Central. Em 2009, o então presidente de Honduras, Manuel Zelaya, foi vítima de um golpe de Estado. O governo Obama inicialmente condenou o episódio, mas aos poucos, pressionado pelos congressistas linha-dura, reconheceu como legal a violação à constituição cometida por militares e parte da classe política hondurenha. Desde então, o país mergulhou numa intensa onda de repressão e violência.

Os debates sobre imigração, inevitavelmente, vão passar pela relação com o México. Biden deve procurar o presidente Andrés Manuel López Obrador no início de seu mandato, justamente com o intuito de criar uma política imigratória diferente da aplicada por Trump. Neste quesito, os observadores precisarão de atenção. Obama chegou à Casa Branca com a bandeira da “esperança” e prometeu reiniciar as relações entre os EUA e a América Latina, mas detém o recorde de deportações de estrangeiros: em seus oito anos de governo, 3 milhões de imigrantes foram expulsos dos EUA.

Colômbia e Brasil

Na América do Sul, os impactos maiores da substituição de Trump por Biden devem ser sentidos principalmente pelos governos da Colômbia e do Brasil, que têm presidentes alinhados a Trump.

A relação com a Colômbia deve girar em torno do processo de paz naquele país e das formas de lidar com o tráfico de drogas. Neste ponto, será preciso dar tempo para verificar qual Joe Biden vai presidir os Estados Unidos. Como senador, Biden se notabilizou por empunhar a bandeira da “lei e da ordem”. Em discursos, atacou os “predadores” que andavam pelas ruas norte-americanas e clamou para “prender esses FDP”. Sua atuação culminou com a aprovação, na metade dos anos 1990, de uma lei federal que ampliou as políticas de encarceramento em massa responsáveis por devastar as comunidades negras dos Estados Unidos.

O mesmo conjunto de ideias que informou essas políticas domésticas se tornou produto de exportação dos EUA, novamente com a atuação de Biden. O presidente eleito dos EUA foi um dos articuladores, no ano 2000, do Plano Colômbia, que galvanizou a militarização do combate ao narcotráfico, fortalecendo a “guerra às drogas” e contribuindo de modo acentuado para transformar a América Latina na região mais violenta do mundo. Hoje em dia, Biden minimiza sua participação na aprovação de leis duras contra o crime, uma vez que a coalizão política que lidera é muito dependente justamente das comunidades que foram afetadas por elas. O Plano Colômbia, no entanto, ainda é elogiado por Biden. Para a Colômbia e todo o continente, assim, é muito provável que incentivos à lógica da guerra às drogas permaneça por parte dos EUA, enquanto cada vez mais estados norte-americanos legalizam entorpecentes dentro de suas fronteiras.

Para o Brasil e Jair Bolsonaro, a situação é, também, delicada. Em primeiro lugar, porque a questão ambiental é outra atualização na política externa de Obama que Biden deve aplicar. Em segundo lugar, porque Biden vê Bolsonaro exatamente como ele é. Dentro do Brasil, setores expressivos, como parte da imprensa, do mercado e da classe política, creem que Bolsonaro é uma figura domável, que pode ser controlada para colocar em prática uma determinada política econômica e, ao mesmo tempo, impedir o retorno da esquerda ao poder. Trata-se de um erro de avaliação que Biden não comete.

Em um discurso sobre política externa feito em julho de 2011, o presidente eleito dos EUA classificou Trump como representante maior de um movimento que “levou ao ressurgimento perigoso do nacionalismo e do iliberalismo extremos, do protecionismo e da xenofobia”. Ainda segundo Biden, “Trump e demagogos em todo o mundo estão se apoiando nessas forças para seu próprio ganho pessoal e político”. O então pré-candidato não citou Bolsonaro nominalmente, mas o fez nos últimos meses, sempre em referência a suas políticas para a Amazônia. Com palavras duras, deu a entender que vai pressionar o governo brasileiro para que a política de preservação na região seja de fato colocada em prática.

Manter boas relações com os Estados Unidos é muito importante para o Brasil. Além dos laços culturais, o mercado norte-americano absorve a maior parcela dos produtos industrializados brasileiros. Ao mesmo tempo, Brasil e EUA são competidores no que diz respeito ao agronegócio. Hostilizar um concorrente mais poderoso pode, assim, ter efeitos desastrosos.

O Brasil, no entanto, não é tão importante para os Estados Unidos. E Bolsonaro está em uma posição desfavorável. Ele é parte do projeto internacional de Trump, que Biden tentará derrubar, e preside um país que tem a maior fatia da Amazônia, num momento em que o mundo, e a futura administração norte-americana, pretendem priorizar questões ambientais. Bolsonaro é, portanto, um alvo fácil e oportuno para Biden deixar sua marca anti-Trump na política externa. Como para Bolsonaro é fundamental a adesão aos princípios de seu núcleo ideológico, que deu à aliança com Trump um lugar proeminente, fazer modificações na política externa não será fácil. A forma com a qual o governo lidará com a pressão norte-americana será, assim, decisivo nos próximos dois anos.

* É professor de Relações Internacionais e Jornalismo