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O que aconteceu com o organismo do astronauta Scott Kelly no espaço?

Patrícia Gnipper

Em 2016, o astronauta Scott Kelly retornou à superfície da Terra após passar quase um ano na Estação Espacial Internacional (ISS). Seu irmão gêmeo ficou por aqui, com a NASA estudando o organismo de ambos para descobrir mais a fundo os impactos causados no organismo após longos períodos no espaço. Agora, resultados oficiais dessas pesquisas foram divulgados.

Depois de analisar o sangue, as artérias, os genes, os olhos, os ossos e as bactérias intestinais dos Kelly, a equipe de mais de 80 cientistas revelou tudo o que aconteceu com o organismo do astronauta de 55 anos, agora aposentado. O estudo chamado NASA Twin Study foi publicado na renomada revista Science, comparando as análises de Scott com seu gêmeo idêntico, Mark Kelly.

Em suma, o corpo de Scott mostrou, sim, algumas mudanças no espaço, só que quase tudo o que foi alterado enquanto ele estava longe da Terra voltou ao normal após seu retorno — em especial sua atividade genética. "É reconfortante saber que, quando você voltar, as coisas estarão em grande parte as mesmas", disse Michael Snyder, coautor do estudo. "Neste artigo, eles mostraram que não houve diferença estatisticamente significativa nas modificações genéticas que puderam encontrar entre o gêmeo na estação espacial com o que estava no chão", declarou Richard Gronostajski, geneticista da Universidade Estadual de Nova York.

Contudo, o estudo traz uma advertência importante: apesar de o organismo de Scott Kelly ter se mostrado resiliente após um ano no espaço, ainda é desconhecido como o corpo humano se comportará durante missões mais longas, como no caso da viagem a Marte, por exemplo. É que, durante a segunda metade da estadia do astronauta no espaço, os pesquisadores descobriram alterações genéticas importantes em seu organismo, como um aumento inesperado na atividade genética, com determinadas cadeias de DNA ficando até seis vezes mais ativas. Esse aumento na atividade genética não representou nenhum problema a longo prazo, mas talvez em missões mais longas isso possa gerar efeitos adversos.

(Foto: Marco Grob/TIME)

Para o estudo, biólogos e médicos mediram o corpo do astronauta em níveis moleculares precisos. Enquanto estava na ISS, Kelly enviou amostras de sangue à Terra quando as cápsulas de suprimentos partiam de lá para cá, o que permitiu uma análise ainda mais aprofundada de seu organismo durante sua estadia no espaço.

Entre os resultados, vemos que 91,3% de sua atividade genética voltou ao normal seis meses depois de retornar ao planeta, com os genes não sofrendo mutações, mas sim alterando sua atividade em resposta ao ambiente. Ainda, as extremidades dos cromossomos de Kelly cresceram um pouco mais no espaço, retornando ao normal após o retorno à Terra.

Já a composição bacteriana de seu intestino foi significativamente alterada, com uma população comum de microbiomas tornando-se mais dominante do que antes quando o astronauta estava no espaço. Não se sabe ainda se isso gerou alguma consequência relevante ao organismo de Kelly, ainda que não haja indícios de que isso aconteceu.

O estudo foi descrito pelo especialista em genômica Andrew Feinberg como "o alvorecer da genética humana no espaço", pois dá informações valiosas sobre como o organismo humano é afetado em viagens espaciais, mesmo que explicite uma enorme quantidade de dúvidas e limitações. Ou seja: a NASA ainda precisa estudar mais astronautas na ISS para somar informações ao estudo feito com Kelly.

"Nós do programa de pesquisa humana da NASA planejamos continuar esta linha de investigação nos próximos anos", revelou Bill Paloski, diretor do Human Research Program da agência espacial. Ou seja: os próximos anos serão essenciais para que a NASA siga estudando seus astronautas na ISS a fim de prever o que poderá acontecer com os organismos dos futuros exploradores de Marte. Ainda, é preciso lembrar que a agência espacial deverá retornar presencialmente à Lua em 2024, só que, desta vez, a ideia é estabelecer uma presença constante de humanos em nosso satélite natural. E estudos como este feito com os irmãos Kelly são vitais para tal.

Fonte: Canaltech

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