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O que acontece se você engolir 1 grama de cada elemento da tabela periódica?

Fidel Forato

Para além das aulas de química do ensino médio e das questões do vestibular, você já imaginou o que significa cada um dos elementos químicos de uma tabela periódica? Alguns deles são mais óbvios, como o oxigênio e o ferro, mas a esmagadora maioria das pessoas nem sonha com o que vem a ser o elemento irídio. 

Isso é só para se ter uma ideia do quão curioso pode ser a viagem sem volta de engolir um grama de cada elemento desta tabela. E diante da pergunta sobre o que aconteceria com o organismo humano se ingerisse todos esses elementos, o doutor em Saúde Pública pela USP e professor de química da Universidade Mackenzie, Rogério Machado, dá primeiro uma boa risada. Em seguida, explica que “nem tudo faz mal, mas com certeza levaria à morte.”     

É possível engolir 1g de cada elemento da tabela periódica e sobreviver? (Fonte: Science Notes)

Ah, a tabela periódica! De seus 119 elementos, somente os 92 primeiros podem ser encontrados, de maneira natural, na Terra. Do número 93 em diante, eles são considerados sintéticos ou artificiais, isso significa que só podem ser obtidos através de experimentos em laboratório e, às vezes, são estáveis por pouquíssimos segundos.

Para o professor da Mackenzie, uma das grandes dificuldades do desafio é manter os elementos químicos isolados: “O elemento, por si só, você dificilmente tem, isso porque eles se combinam, reagem. É muito raro ter um átomo isolado.” É o caso do sódio metálico, que não pode ser exposto ao oxigênio, que reage. Esse elemento está sempre mergulhado em um solvente para não explodir. Ou seja, engolir 1g já é uma dose fatal. Adeus para sua cabeça!     

Elementos necessários para o corpo humano

Mas antes de apresentarmos reações extremas, é preciso entender primeiro sobre as atividades do nosso organismo. O corpo humano é, basicamente, constituído por carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, elementos que não causariam danos ao corpo humano caso ingeridos. É claro, por exemplo, todo mundo está absorvendo — ou melhor, respirando — oxigênio durante a leitura desta matéria.

Agora, os elementos responsáveis pelo funcionamento do corpo são mais variados, como o sódio, o potássio, o cálcio, o magnésio, o fósforo, o selênio, o ferro, o cobre, o zinco e muitos outros metais — todos necessários por manter o organismo vivo e operante. Para estes elementos, o professor Machado explica que “depois da concentração necessária, eles podem ser tóxicos, ou seja, dependem exclusivamente da sua quantidade no organismo.” 

Por exemplo, não são recomendados mais de 1g do sódio e do potássio, que quando combinados formam a bomba de mesmo nome que é responsável pelo transporte celular. Encontrado no sal marinho, no leite e em ovos, o sódio, se ingerido em grandes quantidades — mais de 1g — dará muita sede e, “no caso do indivíduo ter problemas de hipertensão, poderá levar ao óbito.” Enquanto isso, o excesso de potássio — das leguminosas, como o feijão — pode causar um choque no coração, em que órgão simplesmente para.  

Por outro lado, o selênio, que é um micronutriente necessário para todos os seres vivos — encontrado em pães, peixes, carnes —, é moderadamente tóxico, mas 1g é bem menos que a sua dose letal. 

Grande parcela dos metais, em estado sólido, não reage com o organismo (Foto: Ferro Industrial)

Engolindo metais

O professor e químico explica que “todos precisamos de metais no corpo, até porque eles se transformam em íons e cada um tem sua função específica no organismo.” Mas, aqui, vale a mesma regra: acima das quantidades necessárias, os metais podem ser muito tóxicos. É o caso do ferro. Sua ausência provoca anemia, mas em grande quantidades, faz mal, mesmo que 1g não leve ninguém à morte.  

O risco maior está em “alguns metais que o ser humano não precisa ter no corpo, como o mercúrio”. Este é um elemento químico que não tem função nenhuma no organismo, e o quão mal faz depende da forma como ele for ingerido. A sorte é que 1g, em estado sólido, não deve desencadear nenhum tipo de reação, mas caso se inale 1g de mercúrio, o indivíduo terá “uma morte lenta.”

Entra nas categorias não reagentes também estão os materiais necessários para as ligas metálicas que compõem os biomateriais, de implantes e próteses, que são na maioria metais. Aqueles elementos que podem ser implantados ou incorporados ao organismo vivo, para restaurar ou substituir partes, normalmente, danificadas. Por isso mesmo, espera-se que eles não reajam de nenhuma forma no corpo humano. 

Para exemplificar o comportamento deles no corpo, o professor Machado os compara com garfos e facas, metais que estão em contato direto com o copo, mas não podem reagir de nenhuma maneira, nem oxidar ou corroer. Por isso mesmo, não espere nenhuma reação ao ingerir 1g de titânio ou ósmio, por exemplo. Outros metais, em estado sólido, que não causam reações no corpo são o irídio, a platina, o ouro e a prata.  

Ah! Os gases nobres

Na tabela periódica também há os elementos em estado gasoso. Para estes, vale lembrar, segundo o químico Machado, que “nesta forma, os gases nobres são inertes ao organismo humano e de maneira geral ao ambiente, ou seja, não reagem com nada.” Por essa característica, eles são um dos únicos grupos encontrados de maneira isolada na natureza. 

O desafio para se manter vivo é que não se pode respirar somente eles, afinal “sem oxigênio, a pessoa morrerá sufocada.” Agora, imagine que para engolir 1g de Hélio (aquele gás de encher balão que deixa a voz bem fininha), será preciso engolir um volume de mais de 5L de ar. Com os outros gases é, praticamente, a mesma coisa, como o neônio, o argônio, o criptônio, o xenônio. Por enquanto, não espere nenhuma — perigosa — diversão!

Determinados elementos quando ingeridos podem causar explosões nucleares

Explosões nucleares

Depois de uma série de elementos e desafios mais tranquilos, se chega aos radioativos. Neste ponto, Machado é claro e enfático: “Com a radioatividade, não têm muito o que fazer não, meu amigo. Nesses casos, 1g já é um absurdo!”. É só pensar o que aconteceu com o composto Césio 137, em Goiânia, no ano de 1987,  que levou mais de 400 pessoas à morte, por muito menos que a ingestão.

Como urânio, polônio e rádio, os elementos radioativos são aqueles capazes de emitir radiação — seja ela alfa, beta ou gama —, de forma espontânea, através de seus núcleos instáveis. “Ter contato com qualquer um desses elementos é, infelizmente, se expor à radiação com comprimento de onda muito pequena, que por isso tem grande capacidade de penetração. Antes de tudo, eles queimam e, caso isso não leve ao óbito, eles desencaderão a formação de cânceres.” 

Aguarde também explosões nucleares, caso esses elementos cheguem à concentração de 1g. Como o bório ou o copernício, que em 1g, farão com que o indivíduo seja destruído espontaneamente, com uma enorme explosão. Já o ninhônio, do qual só foram produzidos alguns átomos até agora, é difícil imaginar, mas não espere menos que as reações anteriores.

Os eletrônicos de todos os dias

Depois de explorar diferentes categorias de elementos químicos, pode-se pensar também nos componentes que formam computadores e eletrônicos, em geral. Inclusive, nas suas reações no organismo, caso ingeridos. Como o silício, que é muito usado na produção de chips e um dos principais componentes do mundo eletrônico, mas como elemento é praticamente inerte.   

O silício está nos eletrônicos, mas também é a matéria-prima da terra e da areia, sendo o segundo elemento mais presente no planeta. Isso significa que ele entra e sai do corpo sem reagir de nenhuma maneira. Mas o professor Machado lembra que ele “pode te ocasionar problemas urinários, porque não solubiliza. Além disso, comer areia não é bom para ninguém.”

Mais um exemplo pouco reativo é o cobre, usado na composição de fios, que não reagiria no organismo e poderia, no máximo, causar vômitos. Embora cause uma série de problemas, o lítio, que é comumente usado em baterias e até em medicamentos para depressão, também é outro elemento químico que não deve ser mortal.

Já o arsênio, outro semicondutor empregado na indústria no lugar do silício, não faz tão bem ao organismo por ser muito tóxico e 1g dele já seria suficiente para levar à morte. Por apresentar grande potencial contaminante, o elemento se enquadra bem no termo metal pesado, com todas as suas contraindicações para o contato humano.

Conclusões do experimento

Não há outra possibilidade para quem resolver experimentar 1g de cada elemento químico da tabela períodica do que um fim trágico. E isso deve acontecer antes mesmo do elemento 100, o férmio, quando o corpo já teria explodido violentamente e estaria completamente destruído. 

Mas como bem explicou o professor de química e doutor em Saúde Pública, nem tudo faz absolutamente mal, afinal muitas dessas substâncias compõem o organismo humano e outras são fundamentais para o seu bom funcionamento. Vale aquela máxima: a diferença entre o remédio e o veneno é a dose

Por sorte (ou azar), parcela significativa dos elementos citados dificilmente seriam encontrados, seja porque são raras ou porque são produzidas, exclusivamente, em laboratório. No entanto, o ununénnio, conhecido como elemento 119, nem assim poderia ser achado. Isso porque nem descoberto ele foi e, talvez, nem chegue a existir. Para isso, será necessário mais alguns passos da ciência. Mas isso é assunto para outro tópico.







Fonte: Canaltech

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