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O que é um filme com trama white savior?

·8 min de leitura

A maior atenção dada a questões raciais e de representação nos últimos anos serviu também para apontar o quanto algumas estruturas de histórias que vimos por tanto tempo podem ser problemáticas. Exemplo disso é o chamado white savior, uma fórmula bem comum em filmes, séries e até mesmo livros bastante populares, mas que nem por isso deixa de ter um componente racista bastante complicado.

Como o próprio nome sugere, trata-se da ideia do branco salvador, ou seja, aquele personagem branco que surge para milagrosamente resolver um problema que indivíduos de outras etnias não conseguem. E, por mais que a descrição possa parecer bastante vaga, pode ter certeza de que você já viu diversas histórias que seguem essa lógica.

Apesar das boas intenções, Green Book é a mais clara representação do white savior (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)
Apesar das boas intenções, Green Book é a mais clara representação do white savior (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)

Basta fazer um exercício de memória simples. Quantos filmes você assistiu em que um professor branco chega para colocar na linha alunos de uma escola de periferia composta apenas por alunos negros? Ou aquele herói americano que vai para um país estrangeiro e põe um fim a um conflito que dura por gerações? Pois é, todos eles encarnam essa figura do salvador branco típico da narrativa white savior.

E não faltam exemplos de filmes assim. Por mais inspirador que seja ver Hilary Swank como a professora que muda a vida de seus alunos em Escritores da Liberdade ou a gente chore o papel de Sandra Bullock em Um Sonho Possível, ambas encarnam essa figura quase messiânica do indivíduo branco que vem para colocar ordem onde negros, asiáticos e outras etnias não conseguem.

Por que o white savior é tão problemático?

A figura do salvador branco é bastante comum não apenas no cinema, mas algo bastante enraizado na nossa própria sociedade a partir dessa carga racista que infelizmente a gente ainda carrega. É um arquétipo que trata esses outros povos como incapazes de solucionar problemas e que dependem desse salvador branco para saírem da estagnação. Em linhas bem gerais, é como se todos fossem inferiores e somente esse messias branco poderia conduzir a todos para uma evolução.

Apesar de inspirador, Um Sonho Possível cai no mesmo arquétipo do branco salvador (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)
Apesar de inspirador, Um Sonho Possível cai no mesmo arquétipo do branco salvador (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

É por essa razão que esse tropo é considerado racista. Mesmo que de forma inconsciente, ele representa o negro, o asiático e o latino como povos inferiores e que dependem de uma ajuda externa para lidar com aquela situação. E esse alguém é sempre um branco.

O curioso dessa estrutura é que ela quase sempre vem imbuída de boas intenções, ou seja, em histórias que tentam falar da questão racial para mostrar como não existe racismo e que somos todos iguais — mas que acabam sempre tropeçando nessa ideia do white savior.

O exemplo mais marcante disso é o vencedor do Oscar de 2019, Green Book: O Guia. Apesar de ter sido escolhido o melhor filme daquele ano pela Academia, ele foi alvo de muitas críticas justamente por se apoiar nesse arquétipo para contar a história de um músico negro que precisava viajar por regiões segregacionistas dos Estados Unidos.

Isso porque o protagonista negro interpretado por Mahershala Ali tinha uma série de questões pessoais de socialização e de aceitação que só consegue resolver depois de desenvolver uma amizade com seu motorista branco (Viggo Mortensen), que basicamente lhe ensina a viver.

O caráter messiânico do branco em Histórias Cruzadas é ainda mais evidente no título original: The Help (Imagem: Divulgação/Disney)
O caráter messiânico do branco em Histórias Cruzadas é ainda mais evidente no título original: The Help (Imagem: Divulgação/Disney)

Algo parecido acontece em Histórias Cruzadas — que, em inglês, tem o sugestivo título de The Help, ou seja, "a ajuda". A personagem de Emma Stone é uma escritora que começa a ouvir mulheres negras de sua cidade para escrever um livro e dar vozes a essas pessoas que, até então, eram invisíveis. E, mais uma vez, por mais bonita que seja a proposta na teoria, a prática coloca um personagem branco como esse agente de mudanças, como se os negros ficassem passivos a essa discriminação toda. Não por acaso, a atriz Viola Davis diz se arrepender de ter participado do longa.

E por mais que os exemplos com negros sejam os mais fáceis de identificar, isso não quer dizer que eles são os únicos a sofrerem com o racismo do white savior. Essa imagem do messias branco também aparece com outros povos.

Em Gran Torino, por exemplo, Clint Eastwood é um veterano de guerra que cria uma amizade com um jovem chinês e ajuda o rapaz a lidar com o problema das gangues em seu bairro. Em O Último Samurai, Tom Cruise é literalmente um americano que vai para o Japão colocar um fim em uma guerra que os soldados locais não conseguem.

Outros gêneros, mesma representação

Ainda que seja mais fácil identificar o white savior nessas histórias que tentam discutir questões raciais, ele também aparece em outros gêneros, inclusive os de fantasia e ficção científica. E, nesses casos, essa representação racista acaba passando despercebido para muita gente.

Em Duna, Paul é literalmente o messias branco que vem para liderar o povo do deserto a um futuro de glória (Imagem: Divulgação/Warner Bros)
Em Duna, Paul é literalmente o messias branco que vem para liderar o povo do deserto a um futuro de glória (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

Elysium é um exemplo disso. Ambientado no futuro, ele mostra o planeta Terra inteiramente devastado e os Estados Unidos transformado em uma enorme favela tomada por latinos. Enquanto isso, os ricos vivem fora do planeta. E cabe a Matt Damon — o tal herói branco — acabar com essa segregação e trazer a cura de uma doença para a Terra.

Em alguns casos, esse arquétipo é até ainda mais sutil, como em Duna. Pelo menos no mais recente filme, vemos o personagem de Timothée Chalamet ser literalmente pintado como esse messias branco que vai a um planeta tomado por selvagens para levá-los a um futuro de glória. Nos livros, há uma crítica a essa postura messiânica do personagem, mas o longa não abordou isso em sua primeira parte, o que faz de seu Paul Atreides apenas o velho salvador branco de um povo que é claramente a representação das etnias árabes.

Questão de representação

A palavra representação aqui é muito importante para entender e identificar o arquétipo do white savior nessas narrativas, até porque nem sempre ele vai tratar a questão de forma literal, mas a partir de alusões e metáforas.

Nõa é porque é em outro planeta que o white savior não aparece (Imagem: Divulgação/20th Century Studios)
Nõa é porque é em outro planeta que o white savior não aparece (Imagem: Divulgação/20th Century Studios)

À primeira vista, Avatar pode não se encaixar nessa estrutura que estamos discutindo, mas basta ir um pouco além dos efeitos visuais para identificar os problemas. Afinal, ainda temos esse herói branco surgindo para liderar os Na'vi contra a invasão humana.

E antes que você ache que isso é problematização demais, é preciso entender que o povo azul do planeta Pandora é apenas uma representação fictícia de algo real que temos aqui. Afinal, quantos filmes, séries e jogos você já viu retratando povos africanos como uma sociedade tribal que literalmente vive na floresta? Trata-se da mesma imagem, com apenas algumas adaptações para que Avatar tenha essa roupagem de ficção científica. Uma aventura de outro mundo, mas uma abordagem racial bastante familiar.

A presença do white savior com figuras não humanas — mas que representam outros povos — é algo que antecede o próprio cinema. O conto original do Tarzan significa isso: o homem branco que é criado com os animais africanos (uma representação racista dos negros). O mesmo acontece com O Livro da Selva, em que Mogli é um humano em meio a feras como lobos e macacos. Nos dois casos, esses humanos são a representação do homem branco que leva a civilidade para um mundo selvagem.

Por que é tão comum?

Entender porque o white savior é um arquétipo tão comum nas narrativas ocidentais não é uma tarefa fácil e está ligada ao racismo estrutural que molda nossa sociedade. É uma herança de uma visão de mundo eurocentrista que a gente carrega há séculos e que sempre viu outros povos que não sejam brancos como inferiores.

O Último Samurai tem americano cruzando o mundo para acabar com uma guerra em outro país (Imagem: Divulgação/Warner Bros)
O Último Samurai tem americano cruzando o mundo para acabar com uma guerra em outro país (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

Só que, no cinema, essa estrutura ganha ainda mais força ao se aliar com outra imagem tipicamente americana: a do Destino Manifesto. É a velha noção de “A América para os americanos” que vimos nas aulas de História quando estudamos a conquista do Oeste. Naquele período, havia a mesma noção de que o homem branco estava levando a civilidade para o interior do país, até então dominada por “selvagens” indígenas e mexicanos.

Só que esse ideário não morreu no século XIX e persiste até hoje, ainda que com outra roupagem. Quantas vezes, ao longo dos últimos anos, não ouvimos a ideia de que os EUA levariam a democracia e a liberdade para países do Oriente Médio, como o Afeganistão e o Iraque? É a mesma ideia do white savior dos filmes.

Isso mostra o quanto a imagem do salvador branco é algo enraizado na cultura estadunidense, o que acaba transparecendo em suas narrativas cinematográficas. Ainda que de forma inconsciente, essa forma de ver o mundo é algo que circula no país e que inevitavelmente é colocado em filmes que são distribuídos em todo o mundo. Adicione a isso o fato de que boa parte dos filmes ainda seguem com equipes de roteiristas formados quase que unicamente por brancos, o que impede uma pluralidade de pontos de vista e perpetua essas representações.

Fonte: Canaltech

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