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O que é um filme snuff?

Quem tem mais de 30 anos certamente já deve ter ouvido falar sobre a série Faces da Morte, um filme que rodava pelas locadoras com uma aura meio lendária de ser proibido que trazia cenas reais de assassinatos, acidentes e outras barbaridades que ninguém, em sã consciência, gostaria de assistir. Era uma lenda urbana que o tempo fez questão de revelar ser uma farsa, mas que apresentou muita gente aos chamados filmes snuff.

O termo em si é mais conhecido por cinéfilos e fãs de terror, mas a verdade é que todo mundo tem um pouco dessa curiosidade mórbida de conferir esses filmes proibidos ou mesmo uma cena em que a violência ficcional ou real se confundem. Mas você sabe o que realmente são essas produções e, principalmente, como eles surgiram?

O que é um filme snuff

Em linhas bem gerais, um filme snuff — ou snuff movie, como muita gente ainda chama — são aquelas produções que mostram cenas de violência ou mortes (supostamente) reais para chocar o espectador ou, como contam algumas lendas, para satisfazer um tipo bem específico de público mais sádico.

Holocausto Canibal é um dos filmes snuff mais famosos (Imagem: Reprodução/F.D. Cinematográfica)
Holocausto Canibal é um dos filmes snuff mais famosos (Imagem: Reprodução/F.D. Cinematográfica)

O destaque aqui fica justamente para o suposto. Quando o termo surgiu, em meados da década de 1970, realmente havia essa ideia de que esses filmes torturavam ou matavam atores e muita gente se aproveitou desse pânico generalizado surgido para lucrar, lançando curtas e longas metragens que abusavam da violência e que alimentavam o mito.

O caso do Faces da Morte é um dos mais icônicos, até porque todo mundo que cresceu em uma locadora já ouviu falar dessa fita. E o imaginário em torno dela era mais terrível do que o conteúdo presente nas filmagens, que eram até bem toscas. Anos mais tarde, os responsáveis pelo filme confirmaram que muita coisa ali era falsa.

Mas ele foi apenas um entre vários que se aproveitaram dessa aura maldita. Outros casos como Holocausto Canibal e Flor de Carne e Sangue foram tão chocantes no passado que geraram um caso de histeria coletiva que forçou seus idealizadores a virem a público dar explicações.

Com o passar do tempo, porém, a ingenuidade do público foi embora e ninguém mais acreditava na veracidade dessas cenas de violência hiper realista. Ainda assim, o movimento encontrou abrigo em um nicho bem específico dentro do terror e ainda há muitos diretores que brincam com o estilo na horas de brincar com o gore e com a violência do gênero.

Entre a realidade e a ficção

Essa confusão de realidade e ficção que o filme snuff proporciona é reflexo de um período bem específico não da história do cinema, mas do próprio imaginário americano. A lenda urbana de produções que tinham cenas reais de assassinato e mutilação surge em meados dos anos 1970, vindo no embalo do pânico satânico causado pelo noticiário em torno de Charles Manson.

Charles Manson se tornou a grande inspiração do mal a partir da década de 1970 (Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons)
Charles Manson se tornou a grande inspiração do mal a partir da década de 1970 (Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons)

Em 1969, a atriz Sharon Tate foi assassinada ainda grávida por Manson e seus seguidores. O crime brutal chocou os EUA e ajudou a construir o imaginário do serial killer e do próprio monstro assassino que iria resultar nos clássicos do horror das décadas seguintes, de Michael Myers a Jason.

Mais do isso, boatos começaram a circular na mídia de que os criminosos tinham gravado o assassinato e que essa era uma filmagem que rodava por aí. E, embora as gravações nunca tenham sido encontradas, o livro The Family – The Story of Charles Manson’s Dune Buggy Attack Battalion, escrito por Ed Sanders, tratou do assunto e falou sobre a existência desses filmes em que as pessoas morriam de verdade, usando o termo snuff para isso — uma expressão antiga do inglês para se referir a uma morte por acidente ou doença.

É claro que, como não poderia deixar de ser, a origem dos filmes snuff é questionada dentro do mundo do terror e há quem vá resgatar um proto-projeto dos anos 1950 ou 1960 para afirmar que ele serviu de base para aquilo que se convencionou a chamar o começo de tudo. Entretanto, é quase um consenso de que eles nascem a partir de 1971 com a popularização da lenda urbana pelo livro.

O engajamento pelo choque

Mas o cinema mesmo só criou o filme snuff em 1976 com o lançamento de Snuff, que não só ajudou a batizar esse subgênero, como também se aproveitou dessa imagem que pairava na sociedade americana para chocar e, com isso, lucrar em cima da polêmica.

Filme criou uma lenda urbana para se promover (Imagem: Divulgação/August Films)
Filme criou uma lenda urbana para se promover (Imagem: Divulgação/August Films)

Alguns anos antes, o produtor Allan Shackleton lançou Massacre, uma tentativa de pegar carona no terror causado pelo noticiário em torno de Manson para fazer um filme de horror regado a muito sangue e violência. Só que a aposta não deu muito certo e o projeto foi um fracasso de bilheteria.

Ainda assim, algumas das críticas feitas ao longa foram reaproveitadas e serviram de inspiração para sua maior jogada. Na época, alguns espectadores apontaram que muitas das cenas pareciam ser reais e foi quando Shackleton se aproveitou da lenda urbana sobre as supostas gravações e decidiu incorporar isso não só na história, mas no marketing do filme.

Ele então regravou alguns momentos, mudou o final e plantou o boato de que pessoas foram realmente mortas durante uma filmagem na América do Sul. Com o nome de Snuff, Massacre ganhou nova vida e passou a circular atraindo muito mais atenção baseada na curiosidade.

Para garantir que a falsa polêmica ia reverberar do jeito que queria, Shackleton espalhou notícias falsas sobre protestos em jornais e até organizou algumas manifestações contra o seu próprio filme para alimentar o mito. No fim, a fake news se espalhou e ele conseguiu o que queria.

E por mais que Snuff fosse tão trash quanto Massacre — afinal, eram quase o mesmo filme —, a ideia de que pessoas morreram de verdade impactou o público na mesma medida que também encantou uma parcela dos fãs de terror. Tanto que não demorou para que outros filmes viessem na sequência com uma proposta semelhante, apostando sobretudo no gore e na violência sexual para chocar.

Para além do cinema

Mas a ideia desses filmes proibidos ou de que o cinema foi longe demais é algo que ainda permaneceu por um bom tempo. Com Holocausto Canibal, por exemplo, a mistura de efeitos visuais muito realistas, a adoção daestética de found footage e uma boa dose de desrespeito ético fizeram com o diretor Ruggero Deodato tivesse que vir a público dizer que tudo não passava de ficção.

As cenas de Holocausto Canibal eram tão realistas que o diretor chegou a ser preso (Imagem: Reprodução/F.D. Cinematográfica)
As cenas de Holocausto Canibal eram tão realistas que o diretor chegou a ser preso (Imagem: Reprodução/F.D. Cinematográfica)

O filme italiano de 1980 trazia um grupo de documentaristas que se embrenham na selva para filmar indígenas. Só que, em determinado momento, eles são capturados por uma tribo canibal, que passa a torturá-los e a comê-los — e tudo isso teria sido filmado e a gravação encontrada por alguém que, ao invés de acionar as autoridades, decidiu colocar numa locadora.

Assim, muita gente passou a tratar o filme realmente como um documentário, enquanto outros passaram a acreditar que teve gente que foi morta de verdade para a gravação, tamanho o realismo que foi dado em algumas cenas.

Com isso, Deadato chegou a ser preso e teve que pedir para que os atores viessem a público explicar que nada daquilo era verdade. O caso chegou a ir a julgamento e ele só foi inocentado quando foi comprovado que ninguém foi morto, empalado ou esquartejado durante as gravações.

Porém, foi revelado que alguns animais realmente foram abatidos para aproveitar o sangue e deixar as coisas mais realistas. Segundo o diretor, foram cobras, macacos, porcos e até um quati que acabaram mortos na produção e que eles foram dados para as tribos da região se alimentarem. A revelação fez com que Holocausto Canibal fosse proibido em diversos países.

As cenas de Guinea Pig 2 enganaram até o ator Charlie Sheen, que chamou o FBI (Imagem: Reprodução/Sai Enterprise)
As cenas de Guinea Pig 2 enganaram até o ator Charlie Sheen, que chamou o FBI (Imagem: Reprodução/Sai Enterprise)

Outro filme snuff que rendeu para muito além da própria produção foi Flor de Carne e Sangue, também conhecido pelo título original, Guinea Pig 2. O longa japonês de 1985 faz parte de uma franquia que sempre usou o gore e a violência realista para chocar, mas foi um pouco além a ponto de enganar até mesmo quem trabalhava com cinema.

Em 1991, o ator Charlie Sheen assistiu ao filme e acreditou que o filme era um snuff real, ou seja, de que o desmembramento de uma atriz era verdadeiro. Com isso, ele chamou o FBI para investigar o que ele julgou ser o registro de um crime — o que foi logo esclarecido como apenas um mal entendido.

Herança maldita

Com o passar dos anos, o público se tornou menos ingênuo com as estratégias dos estúdios e a ideia de que a violência apresentada nos filmes era real foi sendo deixada de lado. Assim, os filmes snuff deixaram de ficar nesse campo da lenda urbana de que tem maluco filmando assassinato de verdade e passaram a ser muito mais sobre a estética.

Sabe aquele longa que tem um cuidado acima do normal para fazer com que uma cena mais violenta realmente pareça real? Aquele gore que vai além do banho de sangue e que fica no limiar do grotesco e do mau gosto? Pois é isso que o snuff moderno se tornou.

Tanto que ele vai servir de base para a criação do chamado torture porn, ou seja, aqueles momentos violentos graficamente explícitos. Algo na linha do que doque Jogos Mortais se tornou, por exemplo, indicando como o subgênero evoluiu para outra coisa ao longo do tempo.

Fonte: Canaltech

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