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O privilégio branco na invasão dos apoiadores de Trump ao congresso

Alma Preta
·3 minuto de leitura
WASHINGTON DC, DISTRICT OF COLUMBIA, UNITED STATES - 2021/01/06: Police try to clear Capitol building where pro-Trump supporters riot and breached the Capitol. Rioters broke windows and breached the Capitol building in an attempt to overthrow the results of the 2020 election. Police used batons and tear gas grenades to eventually disperse the crowd. Rioters used metal bars and tear gas as well against the police. Rioters installed huge Trump flag on Capital building balcony. (Photo by Lev Radin/Pacific Press/LightRocket via Getty Images)
WASHINGTON DC, DISTRICT OF COLUMBIA, UNITED STATES - 2021/01/06: Police try to clear Capitol building where pro-Trump supporters riot and breached the Capitol. Rioters broke windows and breached the Capitol building in an attempt to overthrow the results of the 2020 election. Police used batons and tear gas grenades to eventually disperse the crowd. Rioters used metal bars and tear gas as well against the police. Rioters installed huge Trump flag on Capital building balcony. (Photo by Lev Radin/Pacific Press/LightRocket via Getty Images)

Texto: Nataly Simões

Em um atentado à democracia que já ficou marcado na história dos Estados Unidos da América, com a invasão de uma multidão de apoiadores de Donald Trump ao Congresso na quarta-feira (6) durante sessão de ratificação da vitória de Joe Biden à presidência, uma questão ficou muito evidente: o privilégio de negociação com a polícia quando se é uma pessoa branca, em outras palavras o privilégio de sair vivo.

Insuflados por Trump, os invasores agiram como de costume, se colocando acima da lei. Não só invadiram a sede em Washington, como posaram para fotos, saquearam e vandalizaram o prédio legislativo. A situação só foi contornada pela polícia depois de três horas e de uma mulher ter perdido a vida.

Há imagens ainda de um trumpista desfilando dentro da sede com uma bandeira confederativa - símbolo do racismo no país americano e comparada à suástica nazista. Após o assassinato de George Floyd em maio de 2020, a bandeira foi o pontapé de protestos em estados como a Virgínia, onde uma estátua de Jefferson Davis, presidente dos Estados Confederados da América durante a Guerra Civil Americana, foi derrubada por manifestantes antirracistas.

Por falar em antirracismo, quando os mais recentes protestos do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) eclodiram, Trump se comprometeu a enviar forças armadas para as cidades e classificou a indignação dos manifestantes como “atos de terror doméstico”. À época, ainda disse ser “o presidente da lei e da ordem e aliado dos protestos pacíficos”.

O que há de pacífico em invadir o Capitólio? Os defensores de Trump sequer foram chamados pela imprensa de terroristas. Para o republicano, se tratavam de “grandes americanos e patriotas”. É mais uma vez o privilégio conferido às pessoas brancas de adentrar quaisquer espaços, mesmo de forma violenta, sem serem constrangidas, coagidas, barradas. Os olhares dos policiais se mostravam perdidos. Não sabiam ao certo como reagir.

O mesmo nunca ocorreu com pessoas negras e em situações bem diferentes. Dá para imaginar movimentos antirracistas invadindo o Congresso Americano? Nós morremos por bem menos. Por pouco. Por nada. No ano passado, Floyd não teve ao menos o direito de respirar respeitado. Breonna Taylor não foi ouvida antes de ter a casa invadida e de ser morta por policiais.

Essa vantagem, ainda que em uma situação extrema, de receber a chance de negociar com as forças policiais só é garantida à branquitude. No Brasil, Lia Vainer Schucman, pesquisadora das relações raciais e autora do livro “Entre o Encardido, o Branco e o Branquíssimo – Branquitude, Hierarquia e Poder na cidade de São Paulo”, nos explica que existe uma superioridade moral, intelectual e o “ser branco”. Essa mesma ideia é conferida aos brancos americanos, que se beneficiam dos significados positivos associados à branquitude e do racismo estrutural que mata negros e negras por nada.

Mesmo após a tentativa de um golpe de estado na “maior democracia do mundo”, Trump deve sair impune, assim como os invasores supremacistas brancos, e segue sem reconhecer a derrota democrática. Os EUA com seu histórico racista e a partir de 20 de janeiro com um novo presidente ainda seguirá com a mancha histórica de um país que só trata como terrorismo a indignação da população negra diante de vidas perdidas por nada.