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“O pior ainda está por vir”, diz cientista da ONU sobre as mudanças climáticas

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“O pior ainda está por vir”, diz cientista da ONU sobre as mudanças climáticas
“O pior ainda está por vir”, diz cientista da ONU sobre as mudanças climáticas

Ondas de calor, incêndios florestais, estragos causados pelo furacão Ida e recorde de chuva em uma única hora em Nova York. Os Estados Unidos estão sentindo na pele os impactos das mudanças climáticas.

De acordo com Kim Cobb, cientista da Organização das Nações Unidas, este é o futuro não só do país mais rico do mundo, mas de todo o planeta Terra.

“Não sabemos o que virá a seguir, mas vai ser ruim. Estamos entrando em um território desconhecido com a mudança climática. O clima em que vivemos não será o clima em que vivemos agora, nem nas próximas décadas”, disse ele ao Yahoo.

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Cobb falou sobre o relatório sobre o aquecimento global divulgado em agosto pela ONU e que é chamado de código vermelho para a humanidade: “O pior ainda está por vir, afetando muito mais a vida de nossos filhos e netos do que a nossa”.

Sobre a cidade de Nova York, que registrou a maior quantidade de chuva em um dia em pelo menos 152 anos, o cientista disse: “É simplesmente de cair o queixo. Essas chuvas foram de longe um recorde. Isso me lembra o tipo de ondas de calor devastadoras que vimos no noroeste do Pacífico no início deste verão.

IPCC prevê aquecimento global mais intenso do que o estimado na última edição do relatório

O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que considera as mudanças climáticas claramente causadas pelo homem e “inequívocas”, faz previsões mais quentes para o século 21 do que da última vez em que foi publicado, em 2013.

Nesta foto de arquivo de 17 de fevereiro deste ano, um cais flutuante que fica no leito da lagoa Suesca, em Suesca, na Colômbia. A lagoa, um destino turístico popular perto de Bogotá que não tem afluentes e depende do escoamento das chuvas, diminuiu radicalmente sua superfície de água devido a anos de secas severas na área e ao desmatamento e erosão de seus arredores. Imagem: AP Photo / Fernando Vergara
Nesta foto de arquivo de 17 de fevereiro deste ano, um cais flutuante que fica no leito da lagoa Suesca, em Suesca, na Colômbia. A lagoa, um destino turístico popular perto de Bogotá que não tem afluentes e depende do escoamento das chuvas, diminuiu radicalmente sua superfície de água devido a anos de secas severas na área e ao desmatamento e erosão de seus arredores. Imagem: AP Photo / Fernando Vergara

Foram estimados cinco cenários para o futuro, na edição anterior, e cada um deles, com base em quanto as emissões de carbono são reduzidas, ultrapassa o mais rigoroso dos dois limites definidos no Acordo Climático de Paris de 2015.

Na ocasião, os líderes mundiais concordaram em tentar limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius acima dos níveis do final do século 19 (primeiro limite). O mundo já aqueceu quase 1,1 grau Celsius no último século e meio.

Em cada cenário, disse o relatório, o mundo vai ultrapassar a marca de aquecimento de 1,5 graus Celsius na década de 2030, mais cedo do que algumas previsões anteriores diziam. Segundo os dados, o aquecimento aumentou nos últimos anos.

“Nosso relatório mostra que precisamos estar preparados para entrar nesse nível de aquecimento nas próximas décadas. Mas, podemos evitar mais níveis de aquecimento agindo sobre as emissões de gases de efeito estufa”, disse a cientista do Laboratório de Ciências do Clima e Meio Ambiente da França na Universidade de Paris-Saclay, Valerie Masson-Delmotte, copresidente do relatório.

Em três cenários, o mundo provavelmente também excederá 2 graus Celsius em relação ao período pré-industrial – o outro limite estabelecido pelo Acordo de Paris – com ondas de calor muito piores, secas e chuvas que induzem inundações, “a menos que reduções profundas de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa ocorram nas próximas décadas”, disse o relatório.

Os cinco cenários futuros diferentes com base em quanto o mundo reduz as emissões de carbono são: um futuro com cortes de poluição incrivelmente grandes e rápidos; outro com cortes intensos de poluição, mas não tão massivos; um cenário com cortes moderados de emissões; um quarto cenário onde os planos atuais para fazer pequenas reduções de poluição continuam; e um quinto futuro possível envolvendo aumentos contínuos na poluição de carbono.

Pássaros sobrevoam um homem tirando fotos do leito exposto do Rio Paraná Velho, afluente do Rio Paraná, durante uma seca em Rosário, na Argentina. A Bacia do Rio Paraná e seus aquíferos relacionados fornecem água potável para cerca de 40 milhões de pessoas na América do Sul e, de acordo com ambientalistas, a queda do nível do rio se deve às mudanças climáticas, diminuição das chuvas, desmatamento e descontrole da agricultura. Crédito: AP Photo / Victor Caivano
Pássaros sobrevoam um homem tirando fotos do leito exposto do Rio Paraná Velho, afluente do Rio Paraná, durante uma seca em Rosário, na Argentina. A Bacia do Rio Paraná e seus aquíferos relacionados fornecem água potável para cerca de 40 milhões de pessoas na América do Sul e, de acordo com ambientalistas, a queda do nível do rio se deve às mudanças climáticas, diminuição das chuvas, desmatamento e descontrole da agricultura. Crédito: AP Photo / Victor Caivano

Em cinco relatórios anteriores, o mundo estava no caminho mais quente final, muitas vezes apelidado de “business as usual”. Mas, desta vez, o mundo está em algum lugar entre o caminho moderado e o cenário de pequenas reduções de poluição por causa do progresso para conter as mudanças climáticas, disse a coautora do relatório Claudia Tebaldi, cientista do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico dos EUA.

De acordo com o vice-presidente do IPCC, Ko Barrett, conselheiro sênior do clima da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, o relatório diz que as mudanças recentes no clima são generalizadas, rápidas e intensificadas, sem precedentes em milhares de anos.

O relatório de mais de 3 mil páginas, com a participação de 234 cientistas, afirma que o aquecimento global já está acelerando o aumento do nível do mar e agravando extremos, como ondas de calor, secas, inundações e tempestades. Os ciclones tropicais estão ficando mais fortes e úmidos, enquanto o gelo marinho do Ártico está diminuindo no verão e o pergelissolo derretendo.

Alguns danos do aquecimento global são irreversíveis

Todas essas tendências vão piorar, segundo o relatório. Por exemplo, o tipo de onda de calor que costumava acontecer apenas uma vez a cada 50 anos agora acontece uma vez a cada década, e se o mundo aquecer mais um grau Celsius, isso acontecerá duas vezes a cada sete anos.

De acordo com o estudo, à medida que o planeta aquece, os locais são mais atingidos não apenas por condições meteorológicas extremas, mas por vários desastres climáticos de uma só vez. “É como o que está acontecendo agora no oeste norte-americano, onde ondas de calor, secas e incêndios florestais agravam os danos”, explicou Mearns ao Phys.org. “O calor extremo também está causando incêndios massivos na Grécia e na Turquia”.

Na última sexta-feira (6), intensa fumaça se espalhou pela montanha Parnitha durante um incêndio florestal na vila de Ippokratios Politia, na Grécia, a cerca de 35 km ao norte de Atenas. Incêndios florestais estavam fora de controle na Grécia e na Turquia na sexta-feira, quando uma onda de calor prolongada deixou as florestas secas, e as chamas ameaçaram áreas povoadas e instalações elétricas. Imagem: AP Photo / Lefteris Pitarakis
Na última sexta-feira (6), intensa fumaça se espalhou pela montanha Parnitha durante um incêndio florestal na vila de Ippokratios Politia, na Grécia, a cerca de 35 km ao norte de Atenas. Incêndios florestais estavam fora de controle na Grécia e na Turquia na sexta-feira, quando uma onda de calor prolongada deixou as florestas secas, e as chamas ameaçaram áreas povoadas e instalações elétricas. Imagem: AP Photo / Lefteris Pitarakis

Alguns danos causados pelas mudanças climáticas – como a redução das camadas de gelo, o aumento do nível do mar e as mudanças nos oceanos à medida que perdem oxigênio e se tornam mais ácidos – são “irreversíveis por séculos a milênios”, disse o relatório.

“O mundo está preso entre 15 e 30 centímetros de aumento do nível do mar em meados do século”, disse o coautor do relatório Bob Kopp, da Universidade Rutgers.

“Cientistas emitiram esta mensagem por mais de três décadas, mas o mundo não ouviu”, lamenta o diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Inger Andersen.

Emissão de gases de efeito estufa são os maiores responsáveis por aquecimento global

Quase todo o aquecimento global pode ser atribuído às emissões de gases que retêm o calor, como dióxido de carbono e metano. Forças naturais ou aleatoriedade simples podem explicar, no máximo, um ou dois décimos de um grau de aquecimento, segundo o relatório.

Ao chamar o relatório de “um código vermelho para a humanidade”, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, manteve uma esperança de que os líderes mundiais ainda pudessem de alguma forma evitar 1,5 grau de aquecimento, que ele disse estar “perigosamente próximo”.

“Há também uma maneira de o mundo ficar no limite de 1,5 grau com cortes extremos e rápidos de emissões, mas mesmo assim, as temperaturas subiriam 1,5 grau Celsius em uma década e até mais, antes de voltarem a cair”, disse a coautora Maisia Rojas Corrada, diretora do Centro de Pesquisas sobre Clima e Resiliência do Chile.

No pior dos cinco cenários do relatório, o mundo poderia estar em torno de 3,3 graus Celsius mais quente no final do século do que agora. Mas esse cenário parece cada vez mais improvável, segundo o coautor do relatório e cientista climático Zeke Hausfather, diretor de Mudança Climática do Instituto Breakthrough.

“Temos muito menos probabilidade de ter sorte e acabar com menos aquecimento do que pensávamos”, disse Hausfather. “Ao mesmo tempo, as chances de acabar em um lugar muito pior do que esperávamos se reduzirmos nossas emissões são notavelmente menores”.

Cientistas são otimistas em relação ao alcance não imediato de pontos de inflexão

O relatório afirma que desastres ultracatastróficos – comumente chamados de “pontos de inflexão”, como o colapso das camadas de gelo e a abrupta desaceleração das correntes oceânicas – são “de baixa probabilidade”, mas não podem ser descartados.

“O tão falado fechamento das correntes do oceano Atlântico, que desencadearia mudanças climáticas massivas, é algo que dificilmente acontecerá neste século”, disse Kopp.

De qualquer forma, o relatório “fornece um forte senso de urgência para fazer ainda mais”, disse Jane Lubchenco, assessora científica adjunta da Casa Branca.

Os cientistas enfatizaram o quanto reduzir os níveis de metano no ar – um gás poderoso, mas de vida curta, que atingiu níveis recordes – poderia ajudar a conter o aquecimento a curto prazo. Muito metano na atmosfera vem de vazamentos de gás natural, uma importante fonte de energia. Outro grande produtor de metano são os gados.

Mais de 100 países fizeram promessas informais de atingir emissões “líquidas zero” de dióxido de carbono causadas pelo homem em meados do século, o que será uma parte importante das negociações climáticas que ocorrem na Escócia nos próximos meses. Segundo o relatório, esses compromissos são essenciais.

“Ainda é possível evitar muitos dos impactos mais terríveis”, acredita Barrett.

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