Mercado abrirá em 7 h 45 min

O novo pornô: como as redes sociais ajudam produtores adultos independentes?

Rafael Arbulu

É mais um dia de gravação para Paulo Cesar Loupan, que entusiastas do entretenimento adulto devem reconhecer como um do mais antigos atores pornô brasileiros. O local é um motel na região estradeira de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A suíte conta com sky ceiling, piscina e um quarto cuja cama, sozinha, mal cabe em uma típica quitinete do centro de São Paulo.

Já em São Paulo, falando nela, dividindo-se em várias localidades, Saty Lee Flemming Pereira, que atende pelo nome artístico “Lolah Vibe”, também grava de forma independente vídeos variados, indo desde apartamentos em altos andares na capital paulista até o seu próprio flat, em vídeos mais curtos, gravados com fãs.

Ambos os casos trazem produção de alta qualidade de vídeo, levando alguns incautos a possivelmente pensar que certamente alguma produtora estabelecida esteja bancando tudo isso. Mas não: tanto Lolah como Loupan são “seus próprios chefes”, se perdoam o uso da expressão bem batida.

Paulo Loupan, junto da noiva, também modelo e atriz Danny Mancini: o ator veterano do ramo pornô hoje atua de forma independente, e diz que consegue maior estabilidade com o seu trabalho desta forma (Imagem: Acervo pessoal/Instagram)

E há também outra coisa em comum para os dois: tirando o fato de que ambos são ex-namorados, Lolah e Loupan tem alto trânsito nas redes sociais, somando, entre Twitter e Instagram, mais de 180 mil seguidores (Loupan prefere manter o Instagram para uso pessoal). Esse volume bem razoável de seguidores, segundo ambos, é de onde eles tiram seu ganha-pão: pelo ramo em que atuam, as divulgações de suas produções nas redes sociais é o que acaba levando tração e audiência às suas respectivas marcas.

“O que faz diferença para mim é esse contato direto com o fã”, conta Loupan, enquanto elucida um pouco do seu histórico no teatro tradicional. “O pornô é caro de produzir, e na minha época, era muito focado somente no sexo. Então comecei a procurar as meninas que a galera gostava mais, juntava um dinheiro e conduzia uma cena, mas uma cena diferente daquelas feitas pelas produtoras, que eu não consigo mais botar fé como negócio pois não acho que isso seja o que o fã quer: minhas cenas têm uma interação com a menina, tem aquela ideia de conhecer uma pessoa e se envolver”.

Essa parte mais artística, por assim dizer, é algo derivativo do ator, que em entre 2015 e 2016 atuou na peça “Amadores” (Cia. Hiato de Teatro, com direção de Leonardo Moreira). Para Loupan, essas cenas que até hoje ainda são comuns — “essa coisa de ator fingir ser mecânico, encanador e a mina ser dona de casa”, nas palavras dele — não trazem mais tanto apelo para os fãs. E por essa ser uma geração muito ligada às redes sociais, foi nelas que o ator identificou um público alvo insatisfeito com o cenário atual.

Saty Lee Flemming Pereira, mais conhecida pelo nome artístico  Lolah Vibe, indica que empresas mais antigas do ramo do entretenimento adulto ainda não se encontraram nas redes sociais: "as produtoras estão assustadas com o crescimento dos artistas independentes" (Imagem: Acervo pessoal/Instagram) 

Lolah concorda nesse ponto: “Eu até tenho algumas ‘cenas de historinha’”, conta. “Porém, acredito que os meus vídeos de maior sucesso são os reais. Eu, por exemplo, tenho um quadro onde contraceno com um fã [ela se refere ao “CASTING”, que tem trechos publicados em suas páginas no XVideos e Pornhub] e isso causa bastante alvoroço no público”.

Ela conta ainda que, desde sempre, contou com alto tráfego de seguidores pelas redes sociais: “No Twitter, sempre tive um número grande de seguidores, desde quando criei o perfil. Fiquei bem feliz ao ver minha conta aumentando em mil seguidores por dia, em uma época que me dedicava somente ao Twitter, que eu usava para conseguir clientes para minhas exibições em webcam — isso foi meu sustento por um tempo e evitava o Instagram porque, naquela época, minha família não sabia. Foi apenas depois que me abri para eles como atriz e que seguiria trabalhando nisso, em 2019, é que veio o restante”.

Lolah, segundo as métricas de suas páginas no Pornhub e XVideos, soma quase 155 milhões de visualizações em quase 100 vídeos publicados. Isso, sem contar os números de seu site próprio, os quais não são abertos. No XVideos, pelo algoritmo do site, ela é a segunda atriz mais acessada do mundo, ficando atrás apenas de Mia Khalifa — que, aliás, nem atua mais no ramo, tendo ingressado no mercado do jornalismo esportivo norte-americano.

“Foi de um ano para cá que nasceu de fato a ‘Lolah Vibe’, quando passei a responder por esse nome e me livrei de algumas coisas pertinentes a julgamentos familiares ou da sociedade”, ela conta. “Depois que abri o jogo para a minha família, foi que eu consegui me dedicar para valer a isso”. Existe uma piada que diz que a pessoa sabe que está fazendo sucesso no mainstream quando sua conta no Instagram é derrubada ou hackeada. Segundo Lolah, ela já passou de 10 perfis (lembrando que o Instagram, ao contrário do Twitter, não permite postagens explícitas, então nem isso havia e ainda assim, ela tinha tráfego e quedas).

Frente a isso, as produtoras tradicionais estão tentando encontrar o seu caminho diante de uma nova realidade: o Canaltech tentou o contato com algumas das empresas do ramo no Brasil, mas até o fechamento deste texto, nenhuma havia respondido. Loupan vê nisso uma mudança de paradigma: “Olha, eu mesmo já não trabalho mais com elas, exceto por quando a produção tem o envolvimento de algum amigo meu — eu estou nesse ramo faz tempo e tenho ainda amizades daquela época, então sempre tem alguém que precisa de mim para uma cena ou alguma participação especial. Mas para mim, a tendência é que elas fechem de vez: é como eu disse anteriormente, o ‘sexo’ representado por esses filmes tradicionais já não agrada tanto ao público. Se você abrir qualquer vídeo pornô na internet, a tendência é que você adiante o controle do player até a parte em que rola o sexo — essas histórias mais fictícias não impactam muito mais o fã”.

Lolah concorda, mostrando-se ainda mais incisiva e trazendo a ótica da atriz para a equação: “Eu acho que as produtoras estão bem assustadas com esse crescimento de atores independentes! É claro que ‘ser seu próprio chefe’ não é fácil, tem que se esforçar e você é sua própria estrutura: quem não produz, não lucra. Mas sim, eu acho que as empresas tradicionais estão sentindo [o impacto] e deveriam tomar alguma atitude para não perder atores no futuro. Eu não trabalho mais com nenhuma dessas empresas pois o tratamento é péssimo: já me tiraram dinheiro de cachê porque inventaram que era obrigação minha levar o shampoo para banho, depois de eu viajar 100 km para gravar uma cena que tinha que ser em alguma praia. Chegou em um momento onde todos os meus vídeos, os mais rentáveis da casa, eram customizados porque eu atuava, eu dirigia, eu indicava, sendo que não era paga para isso. Então decidi que eu mesmo faria os custom videos por conta própria, comecei a anunciar isso pelas redes e uma coisa levou à outra”.

O mesmo, segundo a opinião dos dois entrevistados, vale para atores da chamada “velha guarda”, que não se adequam à adoção das redes e ferramentas tecnológicas. “O problema disso é que essas atrizes acabam ficando a mercê das produtoras, sujeitas a tudo o que mencionei. Mesmo aquelas mais famosas, lembradas pelos fãs, acabam vendo muito pouco retorno do que atuam, já que os ganhos ficam para a produtora”, comenta Lolah. Essa opinião encontra eco com Loupan: “Eu penso que vai chegar a hora em que os atores vão perceber que o formato de produtora tradicional não vai mais compensar, financeiramente falando. Antigamente, sim, valia à pena: eu tenho quase 36 anos, mas comecei a gravar com 18 e, aos 21, comprei minha primeira quitenete, quitada cinco anos depois, em uma época em que isso era viável. Agora imagine esses ganhos batendo de frente com o preço do aluguel em São Paulo hoje em dia? É cada vez mais complicado porque os ganhos não mudam muito, mas os custos sim”.

Os dois reconhecem que trabalhar com o sexo, por si, é “maravilhoso” (nas palavras de Loupan), mas essa aura de “todo mundo quer” pode gerar uma ilusão de que a vida de atores e atrizes é mais simples de alguma forma. Não é o caso dos nossos entrevistados, mas é comum encontrar, em diversos sites de anúncios, atrizes que também são garotas de programa, ou então garotas que entraram no ramo dos filmes adultos. “Flavia”, cujo nome é fictício a fim de preservar as relações de trabalho da entrevistada, aponta uma informação interessante: “tem muita garota de programa que entra na vida já pensando em virar atriz pornô, achando que isso é de alguma forma uma melhoria de vida. Quando na verdade acaba sendo tão difícil quanto, se não mais”.

Ela, que atua nas duas áreas, diz que faz todo o sentido procurar duas ou mais fontes de renda — “é por isso que você vê garota de programa em filme pornô, além de vender packs de fotos e vídeos pelo Instagram e Twitter”, ela diz. Mas enquanto isso pode gerar a ideia de que o nome da pessoa acaba valorizado no mercado, a tendência é justamente o oposto: “sempre acaba rolando uma das duas coisas: ou a garota, por ser nova, não sabe negociar cachê e contrato (quando tem contrato, né?) com a produtora e acaba explorada, forçada a fazer algo que normalmente não faz por um dinheiro bem baixo, ou a atriz está perdendo espaço para as meninas mais novinhas e acaba caindo na vida do programa, com preços abaixo da média porque ‘tá velha’”.

Dread Hot e Giovana Bombom, duas atrizes que também apostaram no trabalho independente e hoje possuem grande aproximação com os fãs da indústria, sem depender de intermediários (Montagem: Rafael Arbulu/Canaltech)

Loupan, por exemplo, não depende de atrizes em seus vídeos. Boa parte das atrizes que contracenam com ele são ou modelos e presenças VIP de festas que não ligam para a exposição sexual, ou garotas de programa com mais experiência: “Eu geralmente procuro as meninas que o público gosta mais, mas como elas não têm a parte técnica da atuação, procuro sempre conversar antes, atender às preferências dela, do que ela topa ou não fazer, e sempre tento oferecer uma grana mais justa, porque sei como é pesado para elas — e essas meninas, em 90% dos casos, eu as encontro pelo Twitter e Instagram”.

O aumento da presença de atrizes e atores de filmes adultos nas redes sociais não parece dar sinal de recuo. Hoje, muitos nomes antigos e atuais já contam com interações mais diretas dos fãs: Vitória Schwarzelühr, a “Dread Hot”, tem sua própria produtora (Fever Films), onde a maior parte das criações une aspectos do cinema, pornô e música; Giovanna Bombom tenta criar produções feitas por pessoas negras, para pessoas negras. O argumento é que artistas independentes conseguem uma conexão mais próxima dos fãs e, consequentemente, um insight mais criativo do que o fã quer ver.

E você, segue algum ator ou atriz nas redes sociais? Já interagiu diretamente com algum deles? Conte nos comentários abaixo!

Fonte: Canaltech

Trending no Canaltech: