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O mistério do pântano onde cadáveres milenares não se decompõem

·5 minuto de leitura

Em circunstâncias normais, o corpo humano se decompõe antes do 100º dia de morte. Passado um século, apenas os dentes devem permanecer preservados. No entanto, determinadas condições podem tornar esse processo muito lento. É exatamente isso que explica o mistério dos corpos extremamente preservados que foram encontrados em um pântano no Reino Unido, mais especificamente em uma região no noroeste da Inglaterra.

A história dos corpos preservados praticamente intactos por mais de 2 mil anos começa em 1983. Naquele ano, trabalhadores coletavam turfa — material orgânico composto pela decomposição de vegetais e muito usado na jardinagem — no pântano de Lindow Moss.

Pântano na Inglaterra preservou corpos por milhares de anos (Imagem: Reprodução/Luisvilanova/Envato Elements)
Pântano na Inglaterra preservou corpos por milhares de anos (Imagem: Reprodução/Luisvilanova/Envato Elements)

No dia 13 de maio, um desses trabalhadores avistou o que parecia ser uma bola de futebol de couro, mas, ao olhar com atenção para o objeto, percebeu se tratar de uma cabeça humana. Inclusive, o globo ocular ainda estava lá. Mais de um ano depois, em agosto de 1984, outro trabalhador encontrou, dessa vez, corpo inteiro no pântano. Havia sinais de violência no cadáver, incluindo evidências de traumatismo craniano e estrangulamento.

Nos dois casos, a polícia foi chamada ao local da descoberta para a investigação. Inicialmente, pensou-se ser um crime, mas, em investigações mais detalhadas no laboratório, cientistas atestaram que os corpos tinham por volta de 2 mil anos. Nos exames, foi feita a datação por radiocarbono para estimar a idade.

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Em parceria com o British Museum, o Google Arts disponibilizou imagens dos corpos preservados. De acordo com a plataforma, a cabeça encontrada, inicialmente, foi apelidada de Lindow I. Já o corpo completo recebeu o nome de Lindow II. Posteriormente, outros dois fragmentos humanos foram identificados: um corpo sem cabeça fragmentado (Lindow III); e uma parte superior da coxa de um homem adulto (Lindow IV) que, como foi encontrado próximo ao Homem de Lindow, podem ser os restos de sua perna perdida.

A história do pântano de Lindow Moss

Afinal, o que o solo do pântano inglês tem de tão especial para preservar corpos humanos por 2 mil anos? Para entender essa resposta, é preciso voltar alguns milênios no tempo. Durante a última era do gelo — há cerca de 11 mil anos —, o derretimento formou um pântano no noroeste da Inglaterra, o Lindow Moss. Hoje, a região ainda é ocupada por bosques, arbustos, musgos e, provavelmente, outros cadáveres humanos.

Musgos garantem a preservação de corpos por milênios (Imagem: Reprodução/Christopher_Boswell/Envato Elements)
Musgos garantem a preservação de corpos por milênios (Imagem: Reprodução/Christopher_Boswell/Envato Elements)

Nesse ambiente rico em matéria orgânica em decomposição (turfa), é comum a presença de alguns tipos específicos de musgos, como os do gênero Sphagnum. Quando este tipo de musgo se acumula em quantidades significativas, as camadas de turfa formam ácidos que são muito eficientes na preservação de corpos.

Nesse quesito, a preservação de corpos humanos em pântanos não é exclusividade da Inglaterra. De forma semelhante, restos humanos já foram encontrados em turfeiras da Holanda, Irlanda, Alemanha e Dinamarca. Neste último caso, um corpo foi preservado por 2,5 mil anos e foi batizado de Homem de Tollund. Inclusive, já escrevemos sobre ele aqui.

Homem de Tollund, incrivelmente preservado. O cadáver possui 2,5 mil anos (Imagem: : N.H. Nielsen/Museum Silkeborg)
Homem de Tollund, incrivelmente preservado. O cadáver possui 2,5 mil anos (Imagem: : N.H. Nielsen/Museum Silkeborg)

No entanto, esse tipo de preservação requer condições bastante específicas: muitos musgos cobrindo o solo; temperatura inferior a 4 °C, quando o corpo foi depositado; temperatura média anual inferior a 10 °C; e, por fim, o pântano deve permanecer úmido por todos os dias para preservar a matéria orgânica. Inclusive, os corpos mais bem preservados são encontrados em pântanos mais frios, especialmente mais próximos ao mar.

O que os musgos têm a ver com tudo isso?

O que acontece é que os musgos alteram a composição química do ambiente ao seu redor, tornando-o altamente ácido para um ambiente natural. Conforme os musgos morrem, eles se acumulam em camadas no fundo do pântano. Estes musgos em decomposição liberam açúcares e ácidos húmicos na água, que consomem oxigênio à medida que se decompõem. Com a superfície bloqueada pelo musgo vivo, a água se torna anaeróbica e impede a decomposição de materiais orgânicos, como corpos.

Corpo humano pode parecer uma bola de futebol antiga, mas murcha (Imagem: Reprodução/Ulrike Leone/Pixabay)
Corpo humano pode parecer uma bola de futebol antiga, mas murcha (Imagem: Reprodução/Ulrike Leone/Pixabay)

De forma geral, os tecidos humanos não se deterioram, mas ganham um aspecto de couro — aquela cor marrom muito característica de sapatos ou de bolas de futebol antigas. Isso é causado pelos açúcares da turfa. Além disso, o cabelo fica vermelho e os objetos dentro ou ao redor do corpo se dissolvem, assim como a maioria das roupas. Então, os cadáveres parecem corpos esvaziados, como uma bexiga murcha humana na cor marrom.

Musgos em detalhes

"Essas plantas [os musgos] acidificam o solo ao mesmo tempo que liberam um composto que se liga ao nitrogênio, privando a área de nutrientes", detalhou a pesquisadora Carolyn Marshall. "Junto com as temperaturas frias do norte da Europa, essas condições impossibilitam o funcionamento da maioria dos micróbios", explica.

"Sem nada para 'quebrá-los', os musgos mortos se acumulam, impedindo que o oxigênio entre no pântano. O resultado é um sistema, naturalmente, selado. Qualquer matéria orgânica que entre em um pântano simplesmente permanece lá — como o Homem de Lindow II", afirma.

"Seu cadáver está tão bem preservado, que podemos determinar que ele era saudável, tinha cerca de 20 anos e era provavelmente rico, já que seu corpo mostra poucos sinais de trabalho duro", completou Marshall. Inclusive, a sua última refeição foi "um pedaço de pão carbonizado ainda não digerido".

Fonte: Canaltech

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