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'O desequilíbrio ambiental afeta a nossa saúde muito mais do que se pensa', diz pesquisadora

·5 min de leitura

RIO DE JANEIRO — Lilian Catenacci é veterinária. Mas suas pesquisas tratam da saúde das pessoas e do planeta como um todo. Estuda “Saúde Única (One Health)”, um conceito que trata da integração entre a saúde humana, a saúde animal e o ambiente. Adotado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o princípio se tornou vanguarda com a pandemia de Covid-19, cuja origem é associada ao desequilíbrio ambiental. Por suas pesquisas, Catenacci, de 39 anos, foi uma das vencedoras do programa “Para Mulheres na Ciência”, uma iniciativa da L’Oréal Brasil, em parceria com a UNESCO e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Nascida na zona norte de São Paulo, ela já viveu três anos isolada, no meio da floresta atlântica na Bahia, para estudar macacos. Fez doutorado em virologia no Instituto Evandro Chagas, no Pará. Morou um tempo nos EUA. Voltou ao Brasil e seguiu para o Piauí em 2010 e agora investiga a febre do oeste do Nilo, infecção causadora de encefalite que figura na lista das doenças com potencial epidêmico. É professora da Universidade Federal do Piauí e atualmente vive na companhia de Brigite, Matilde, Jurema e Clotilde, suas galinhas de estimação.

Quando começou a estudar Saúde Única?

Desde a graduação. Na verdade, esse princípio já existia, na medicina da conservação. Porém, com o avanço da degradação ambiental acabou por se ampliar e se tornar prioridade. Hoje fico muito feliz em ver cada vez mais gente trabalhando com Saúde Única, é lindo.

Você morou três anos na Reserva Biológica de Una, no Sul da Bahia. O que descobriu lá?

Essa reserva é muito especial, abriga o mico-leão-de-cara-dourada e o macaco-prego-de-peito-amarelo, ambos raríssimos e ameaçados. Estudei a relação entre animais e a saúde em comunidades da Mata Atlântica do sul da Bahia. A floresta tem o poder de diluir a capacidade de um micro-organismo causador de doenças infecciosas chegar até nós. Ela faz isso porque quanto mais hospedeiros naturais para vírus há na mata, menor é a chance desses patógenos afetarem seres humanos. O desequilíbrio ambiental afeta a nossa saúde muito mais do que se pensa.

Como a biodiversidade nos protege?

Ela é uma barreira natural entre o vírus e outros patógenos perigosos e os seres humanos. Quanto maior a biodiversidade, maior o controle. Pode haver mais vírus numa floresta, porém existem mais predadores e reservatórios de vírus. Eles são obstáculos para que um patógeno chegue até nós. Os ambientes naturais mantêm as pessoas saudáveis. Mas não apenas as florestas, os parques e praças das cidades, os jardins e os sistemas agroflorestais. Todo fragmento importa para ajudar a ter menos doenças.

Você saiu das florestas para o sertão. Por quê?

Morei dez anos em Bom Jesus, a cerca de 700 quilômetros de Teresina, onde estou agora. Queria investigar as doenças do sertão e sua relação com o meio natural. Vimos que havia muitas arboviroses (doenças como dengue e zika, transmitidas por mosquitos), leishmaniose e hanseníase. Estudo os animais silvestres, mas também as pessoas. Saúde Única implica em conhecer cada realidade, descer do salto e se sentar no chão para conversar com as pessoas.

Qual a relação dessas doenças com o ambiente?

É total. Veja o caso da hanseníase. O tatu é reservatório natural. O Ministério da Saúde se recusa a aceitar a hanseníase como uma zoonose. Mas nas zonas rurais ela é. As pessoas comem tatu, pagam até R$ 100 pela carne dele, é considerado iguaria. Eu e meus colaboradores e alunos levamos carcaças de tatu às unidades básicas de saúde (UBS) para mostrar como e por que tatus são fonte de transmissão. E não apenas de hanseníase, mas também micose pulmonar sistêmica, uma doença que muitas vezes mata até porque os agentes de saúde não sabem reconhecê-la.

Qual o seu foco de estudo?

É a febre do oeste do Nilo, causada por um vírus que nos espreita há anos. O Piauí é o único estado brasileiro com casos em seres humanos, ao todo 11. Ela é uma doença letal, muito grave, mas não sabemos quase nada sobre ela no Brasil. Se sabe que o vírus (aparentado com o da dengue e o da febre amarela) é transmitido por mosquitos do gênero Culex (o do pernilongo) e costuma ter aves como reservatórios. Pode afetar também cavalos, mulas, burros, equinos em geral e para eles é terrível, devastadora. Mas no Brasil não se sabe que mosquito e que ave estão envolvidos e como se espalha. É isso o que queremos investigar. Nos unimos à Secretaria estadual de Saúde, é um esforço coletivo.

Por que só há casos da febre do Nilo em humanos no Piauí?

Não sabemos. Mas pode ser que não seja apenas no Piauí e esteja mais espalhado, penso que está em outros estados. Uma possibilidade é que só se conheça esses casos porque o Piauí montou uma boa vigilância epidemiológica a partir dos primeiros casos, em 2014. O neurologista Marcelo Adriano fez um trabalho muito importante para a detecção dos casos.

Como é a pesquisa que realiza?

Trabalho em equipe e não avançaria sem ela, não teria ganhado prêmio algum. Atuamos na vigilância, buscamos o transmissor e o reservatório. Este ano, por exemplo, sequenciamos o vírus de um cavalo. Isso é muito importante para saber que vírus está presente, como ele se dispersa e quais são seus possíveis reservatórios e vetores. Meus planos agora com o prêmio é poder continuar o que teríamos que parar por falta de financiamento. A ideia é desenvolver testes mais simples para diagnóstico em animais, atuar na detecção precoce de focos e colaborar com a Secretaria de Saúde e com as comunidades.

A pandemia tornou as pessoas mais conscientes?

Sim, mas o brasileiro tem memória curta e falta educação na população. Nosso povo já sofreu com ditadura, com desastres como Mariana e Brumadinho, com queimadas imensas e as pessoas parecem se esquecer. É preciso manter viva a memória da conservação principalmente porque enfrentamos um momento de crise ambiental e aí podemos criar problemas em vez de encontrar soluções.

Que tipo de problemas podemos causar?

Levando doenças humanas para as florestas e transformando nossa fauna em reservatório de doenças que antes ela não tinha. Isso aconteceu com a febre amarela. Sabemos que já ocorreu com a dengue em macacos. E com a Zika. No caso desta última, os testes de diagnóstico, desenvolvidos para seres humanos, são ineficazes porque o padrão do macaco é diferente. Precisamos estar alertas e realmente mudar nossa forma de se relacionar com a natureza. Somos parte dela.

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