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O corpo de Lucas tinha 9 tiros e estava no fundo de um córrego. Para a polícia, apenas um confronto

Ponte Jornalismo
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Lucas Gabriel, morto aos 17 anos, em 23/12, na cidade de São Paulo | Foto: Arquivo pessoal
Lucas Gabriel, morto aos 17 anos, em 23/12, na cidade de São Paulo | Foto: Arquivo pessoal

por Carlos Minuano

Por volta de 10h deste domingo (27/12), sete pessoas, reunidas na sala de uma casa localizada na Vila Portuguesa, na zona leste da cidade de São Paulo, aguardava a chegada da reportagem da Ponte. Entre elas, uma mulher, abraçada a alguns papéis, com a aparência abatida. É Eliane Freitas, 35, a mãe de Lucas Gabriel, adolescente de 17 anos, morto pela Polícia Militar quatro dias antes, na quarta-feira (23). A família acredita em uma execução.

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Os papéis que Eliane segura são as cinco folhas do boletim de ocorrência sobre a morte de seu filho, registrado no 69º DP (Teotônio Vilela). A versão oficial registrada ali informa que o jovem roubou uma moto e, perseguido por uma viatura da PM, teria se jogado, durante a fuga, no Córrego do Oratório, no Parque São Lucas, zona leste. De dentro do córrego, segundo o boletim, teria trocado tiros com os policiais Anderson Pires da Silva, Fernando de Almeida Leite e Rodrigo dos Santos Pereira. No confronto, o rapaz acabou morto por nove disparos, um deles pelas costas. A suposta arma usada por Gabriel não foi localizada pela polícia. “Não acredito que ele estivesse armado, nunca vi ele com um revólver”, comenta o padrasto, Josimar Cabral, 36.

O padrasto, a mãe e outros familiares, suspeitam que o jovem tenha sido executado e depois jogado no córrego. O corpo foi resgatado pelo Corpo de Bombeiros.

Na noite do crime, Josimar conta que havia saído do trabalho, por volta de 22h, e foi buscar a esposa, que estava na casa da irmã. Lá, recebeu uma ligação anônima, informando o que tinha acontecido com o jovem e sugerindo que fosse para o local. Ele imagina que tenha sido um amigo de Gabriel, que estava com ele naquela noite.

Ao chegar ao córrego, Josimar não foi autorizado a se aproximar do corpo. Policiais disseram que só seria autorizado após o trabalho da perícia, que chegou por volta de meia-noite.

Mesmo após o trabalho da perícia, contudo, o padrasto afirma que os policiais não o deixaram chegar perto do corpo para ver se era de fato seu enteado. “Pegaram meus dados, disseram que fariam contato e me mandaram embora.”

Mas ninguém entrou em contato. Familiares e amigos ligaram para diversos locais e descobriram que o corpo estava no IML (Instituto Médico Legal) de Itaquera. “O corpo só foi liberado por volta de 22h do dia seguinte”, complementa a mãe do jovem.

Josimar reclama também que, ao chegar no IML, descobriu que constava em documentos que o corpo já havia sido reconhecido. “Mas a gente só viu ele mesmo na hora de colocar no caixão”, afirma o padrasto de Gabriel. De acordo com o boletim de ocorrência, os fatos ocorreram às 21h de quarta. O jovem foi sepultado na manhã de Natal, no dia 25.

Trecho do córrego do Oratório onde o corpo de Lucas foi encontrado | Foto: Arquivo pessoal
Trecho do córrego do Oratório onde o corpo de Lucas foi encontrado | Foto: Arquivo pessoal

O padrasto tem muitas dúvidas sobre o que aconteceu naquela noite. O boletim de ocorrência afirma que não foram localizadas câmeras que tivessem filmado os acontecimentos, mas Josimar localizou uma, de um comércio de tintas na rua Barbeiro de Sevilha, onde foi encontrado um dos capacetes que estava com o adolescente. “Queremos ver essas imagens”, reclama.

Outro detalhe, questionado por Josimar, é a altura do córrego onde a polícia afirma que Gabriel teria se jogado, de uns três metros aproximadamente. “É muito alto”. A irmã de Gabriel, Ana Gabriela,11, também bastante abalada, citou um aparelho celular que estaria com ele e que desapareceu. Um inquérito foi aberto para apurar a morte do jovem, que será conduzido pelo DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), da Polícia Civil.

Ideologia de guerra aos pobres

O padrasto conta que tinha uma boa relação com o enteado e que pegava no pé do rapaz para que ele não se envolvesse em coisas erradas. Recentemente tinha conseguido um emprego para ele. “Era para fazer entregas de moto, de sexta a domingo, ele trabalhou uns dois fins de semana, depois não foi mais”, lamenta.

Na opinião de Josimar, as más companhias foram a desgraça do jovem. Segundo a mãe, até os 13 anos foi um garoto obediente, mas depois passou a dar trabalho. “Ele se envolveu com amizades ruins, começou a cometer alguns delitos, lutei muito para ele sair disso.”

“Apesar de não gostar muito de estudar, ele começaria o ensino médio em 2021”, comenta uma socioeducadora do Cedeca (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente), que pediu para não ser identificada na reportagem.

Ela acompanhava o rapaz, que cumpria medida socioeducativa de liberdade assistida, para jovens em conflito com a lei, desde que saiu da Fundação Casa em abril deste ano, por envolvimento em um roubo.

Para o advogado André Alcantara, articulador da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio, que está acompanhando o caso, o principal indício de que Lucas Gabriel foi executado pela polícia está no velho padrão: “Locais periféricos, postura agressiva, é uma ideologia de guerra aos pobres.”

A quantidade de tiros reafirma que a Policia Militar está preparada para guerra e não para ser cidadã e cumprir a lei, segundo o advogado. “Há um constante descumprimento da lei pelos agentes da lei: não foi proporcional, razoável e nem justo, foi um assassinato sem justificativa, deveriam ao menos afastarem os policiais das ruas.”

“Se o pressuposto da polícia é proteger, por que tirar a vida das pessoas?”, questiona o advogado. Ele mesmo responde em seguida. “Ela é treinada para matar”.

A altura do córrego também é sinalizada por Alcantara como um ponto questionável na narrativa da polícia. “Ele teria no mínimo quebrado a perna, mas é aquela coisa, é muito fácil culpar o morto”.

A meta agora é levar esses policiais a júri por homicídio, afirma o advogado. “Vamos ficar em cima, para que o caso não seja arquivado.”

O que diz o governo

A Ponte entrou em contato com a Secretaria da Segurança Pública do governo João Doria (PSDB), por meio da agência InPress Porter Novelli, responsável por sua assessoria de imprensa. A reportagem pediu um posicionamento do governo a respeito das denúncias e uma entrevista com os policiais que participaram da ação. A assessoria limitou-se a enviar uma nota afirmando que “o caso é investigado por meio de inquérito policial instaurado pela Divisão de Homicídios do DHPP, o qual tramita sob sigilo”.