Os novos pobres mostram sua cara na Lisboa pós-crise

Oscar Tomasi.

Lisboa, 6 jan (EFE).- Apoiada em uma esquina, mais preocupada em não chamar a atenção da polícia que com potenciais clientes, está Margarida Fernandes, de 63 anos, os últimos 20 vividos em Lisboa, que tenta vender um velho casaco que guarda amassado em sua bolsa por apenas dois euros. "Passo fome, não tenho nem para comer", lamenta.

Sua história é uma mais entre os milhares de exemplos que escancaram a via crucis da sociedade portuguesa durante os últimos anos, vítima de uma crise que afeta toda a Europa, mas que é especialmente cruel em Portugal, onde já em 2010 cerca de um quarto da população vivia abaixo da linha da pobreza.

Além do resgate financeiro, a recessão, o aumento de impostos e do desemprego, um simples passeio por Lisboa é suficiente para perceber seu impacto nos rostos de seus novos pobres.

Na Avenida Liberdade, o brilho das vitrines de algumas das lojas mais exclusivas da cidade não deslumbra o suficiente para não se observar que os papelões utilizados pelos sem-teto parecem multiplicar-se, empilhados em frente aos bancos de madeira que usam como cama.

A mesma sensação se percebe na fila onde esperam sua vez para receber o tradicional prato de sopa portuguesa e um pouco de comida diante da caminhonete de uma organização não governamental do país.

Onde antes predominavam os drogados, hoje também esperam pais de família com dificuldades para alimentar seus filhos.

Porém, os efeitos da crise não emergem apenas durante a noite. De dia, alguns pequenos - mas significativos - detalhes relacionados com o consumo dão conta que as dificuldades afetam a maioria dos mais de dez milhões de portugueses, cujo salário médio se situa entre os mais baixos da União Europeia: 17 mil euros anuais.

"Nós vemos agora que muita gente compra 60 gramas de presunto, o que equivale a apenas duas fatias, e a carne bovina foi substituída, primeiro pela de porco, depois pela de frango e agora inclusive por salsichas", comentou recentemente Alexandre Soares dos Santos, presidente da Pingo Doce, um dos maiores grupos de distribuição do país.

Poucos cenários são melhores para observar a decadência da economia portuguesa que a Feira da Ladra, um mercado de rua onde são vendidas peças usadas e até mesmo roubadas.

Durante a última meia década, o perfil dos vendedores mudou substancialmente e se incorporaram dezenas de jovens que chegam com a ideia de fazer uma renda extra, segundo confirma a própria Prefeitura de Lisboa.

"Se nota que cada vez há mais jovens, que vêm e vendem roupas, algumas delas de marca. Agora somos mais vendedores, mas as receitas só diminuem", se queixa Manuela, dona de uma loja de discos que funciona no mercadinho há 30 anos.

O fato de ter de pagar uma permissão municipal de entre 10 e 25 euros por dia para poder trabalhar na feira levou alguns comerciantes a buscar alternativas.

É o caso de João e Maria, dois jovens portugueses que arrastam uma mala, carregada principalmente com roupas que já não utilizam. "O que vendemos representa uma importante ajuda econômica", explicam às pressas, logo após serem detectados pela polícia.

Sapatos velhos, figurinhas, livros e roupas sobre as quais se reúnem mulheres e homens na busca da melhor pechincha fazem parte da imagem habitual desta feira.

Não era tão comum antes desta crise, no entanto, encontrar imagens como a de Margarida Fernandes, a mulher que tenta vender seu casaco por míseros dois euros.

Margarida contou que trabalhava em um asilo, mas um câncer de mama a obrigou a pedir licença médica e depois não conseguiu recuperar seu trabalho.

Nascida na Guiné-Bissau - antiga colônia portuguesa -, garante que nunca tinha vivido tantas dificuldades desde que chegou a Lisboa, há duas décadas.

Os sinais que esta crise deixa em Portugal chegam até a sede do Parlamento, transformado em palco habitual de vários protestos, 24 em apenas dois meses.

Suas escadarias e muros permanecem manchados de tinta e pichações como se fosse certo que a recessão e o aumento do desemprego previstos para 2013 voltarão a provocar novas manifestações. EFE

Carregando...