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Novos choques em 2022 podem atrasar recuo da inflação rumo à meta, diz Campos Neto

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 01.10.2020 - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 01.10.2020 - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

WASHINGTON, EUA, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que novos choques externos em 2022, como uma alta dos juros do Fed (banco central dos EUA), podem retardar a queda dos juros e da inflação no Brasil, o que pode influenciar futuras decisões do governo.

Campos Neto foi perguntado sobre o tema durante um debate do banco de investimentos Goldman Sachs, em Washington (EUA). "Achamos que é perfeitamente possível fazer o trabalho [de baixar a inflação] com o ritmo que estamos mantendo [de alta na taxa básica de juros], a não ser que outro choque aconteça", disse ele.

"É importante passar a mensagem que 2022 é nossa meta. Temos condições extraordinárias em termos de dinâmica de inflação e faremos o que for preciso para colocar a inflação na meta", afirmou.

"Obviamente, o ciclo de ajuste de taxas de juros globalmente falando, vai influenciar no que fazemos. Mas quando você olha no que encaramos, em termos como diferenças nas taxas de juros, o poder de espalhamento disso é baixo, por que temos muitos ruídos que são nossos, como problemas de energia. O real teve também teve uma grande desvalorização em 2020, outros países vizinhos tiveram apreciação", disse.

Uma alta nos juros pagos pelo Fed, o banco central americano, pode fazer com que investidores retirem dinheiro do Brasil para aplicar nos EUA, o que pode afetar o mercado brasileiro.

"Há um risco, de que quando o Brasil esteja perto do fim do ciclo, seja surpreendido por um novo choque, mas então teremos de ver, naquele momento, quando ocorrer o impacto, qual será o impacto do choque no interno do Brasil. É uma preocupação sim, mas não uma grande preocupação. Temos que ver quando vier e se vier, e agora temos de focar em ser muitos claros sobre nosso trabalho para trazer a inflação [para a meta] dentro do horizonte relevante, que é 2022.

Para este ano, há consenso no mercado e no BC de que a inflação deve estourar a meta fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) em 3,75% —com 1,5 ponto percentual de tolerância para cima e para baixo.

A projeção do BC é que a inflação chegue ao pico em setembro, com 10,2%, e desacelere nos meses seguintes, até fechar o ano com 8,5%, 3,25 pontos percentuais acima do teto da meta. Hoje, o Copom já mira o controle de preços de 2022 e 2023, no chamado horizonte relevante, para quando o comitê entende que a política monetária pode fazer efeito, com metas de 3,5% e 3,25%, respectivamente.

Em setembro, o BC elevou a taxa básica de juros em 1 ponto percentual, para 6,25% ao ano, e indicou que fará nova alta de mesma magnitude na próxima reunião, neste mês.

Sobre projeções para o crescimento da economia, Campos Neto afirmou que a autoridade monetária não trabalha com cenário de racionamento de energia em suas simulações para o PIB (Produto Interno Bruto) de 2022.

Para ele, um dos motivos de haver diferença entre a projeção do BC e do mercado é que alguns agentes econômicos consideram o agravamento da crise hídrica.

"Quem projeta números muito menores para o crescimento de 2022 coloca mais probabilidade em termos, por exemplo, racionamento de energia. Nós não trabalhamos com este cenário", ressaltou no evento.

De acordo com o presidente do BC, a autarquia espera crescimento abaixo do projetado pelo mercado em 2021 e acima para 2022. "Parte do crescimento esperado para este ano foi transferido para o próximo", disse em referência à diferença entre as expectativas.

Para o PIB, o BC espera crescimento de 4,7% neste ano, abaixo das expectativas de mercado, de 5,04%. Em 2022, a autarquia projeta alta de 2,1%, acima das estimativas de economistas ouvidos na pesquisa Focus desta semana, que é de 1,54%.

Segundo Campos Neto, a chance de o país passar por outra crise de energia é baixa.

"Um grande problema de energia novamente no Brasil parece ser menos provável porque agora começamos a ter mais chuvas. É cedo para celebrar, mas está indo bem", disse.

Campos Neto também falou sobre o câmbio e reafirmou que o Banco Central busca intervir na cotação da moeda apenas quando há risco de que a flutuação afete a inflação. "O real precisa flutuar para absorver choques quando necessário. Ao mesmo tempo, dada a melhora nos termos de comércio, a absorção de choque não tem funcionado na direção em que antecipamos, não só para o Brasil", disse.

"O importante é quanto isso influi na inflação e nas expectativas de inflação. Nós intervimos no mercado quando vemos que ele está disfuncional. Se vemos um grande fluxo, se está se afastando muito dos fundamentos e criando uma demanda por si só. Esta é uma decisão colegiada. E nunca intervimos no prazo muito curto, em tempo real", completou.

Campos Neto foi a Washington para participar da reunião anual do FMI, cuja maioria dos eventos ocorre a portas fechadas. Ele disse que um dos temas mais debatidos no encontro foram as mudanças na demanda, geradas pela pandemia, e se elas serão temporárias ou definitivas. Também comentou que saiu com reflexões sobre a complexidade da economia para a transição rumo à economia verde.

O presidente do BC foi questionado pelo moderador do debate, Alberto Ramos, que é diretor do grupo de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs. Ramos ressaltou que o Brasil atingiu uma inflação de dois dígitos pela primeira vez desde 2016, que o país vive um cenário político complicado a um ano das eleições e que o real sofreu forte desvalorização no mercado.

Campos Neto disse que a situação da economia brasileira é resultado de uma série de choques trazidos pela pandemia, como as mudanças na demanda por produtos, as falhas nas cadeias de suprimentos, a alta nos preços de energia no mundo e a seca.

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