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Novembro Azul: Lasers, robôs e a evolução no combate ao câncer de próstata

Nathan Vieira
·9 minuto de leitura

O mês de novembro é palco de uma campanha voltada à conscientização do combate contra o câncer de próstata. Com isso em mente, a equipe do Canaltech buscou profissionais para entender como que a área da urologia pode contar com a tecnologia para trazer melhorias à saúde do homem.

No Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens (atrás apenas do câncer de pele não-melanoma). De acordo com informações do Instituto Nacional do Câncer (INCA), 65 mil ocorrências da doença são esperadas em 2020. No mundo, a estimativa é de que 75% dos casos ocorram a partir dos 65 anos e um dos principais fatores para isso, além da genética e a idade, é a falta de prevenção.

Para o Dr. Alex Meller, urologista da Unifesp e do Hospital Israelita Albert Einstein, o novembro azul tem sua importância pelo fato de que o câncer de próstata é uma doença muito prevalente, acontecendo com uma quantidade grande de homens. "E é uma doença silenciosa, então se o homem não fizer uma busca ativa, não consegue detectar o tumor, porque o tumor não dá sintoma nas suas fases iniciais. A campanha é para conscientizar o homem que isso acontece, que ele precisa procurar o médico e fazer a avaliação para detecção do câncer, que inclui fazer o exame físico, que é o toque retal, junto com o exame de sangue", explica o especialista.

Mesmo quando se fala em saúde masculina como um todo, o câncer de próstata ainda é a principal preocupação. "É uma doença de caráter fundamentalmente genético, que aparece na próstata ao longo da idade. Um em cada oito homens apresenta essa doença ao longo da vida, então é uma doença muito frequente, e a necessidade do check-up é que o tumor é curável quando detectado nas suas fases iniciais. Quando o tumor é detectado em fases mais avançadas, é mais difícil de curar e às vezes até se torna incurável", observa o urologista.

Outro ponto que levanta a atenção dos especialistas quando se trata de saúde do homem é o cálculo renal, vulgo "pedra nos rins", que consiste basicamente em uma cristalização em que ocorre com o desequilíbrio de fatores que são eliminados na urina, ou quando se toma pouco líquido e esses cristais que seriam eliminados diluídos na urina acabam ficando concentrados e também cristalizam. "Normalmente é uma doença benigna que deve ser vista para evitar as complicações que ele gera, como dor e infecção de urina", afirma Dr. Alex Meller. Ele ressalta que doenças sexualmente transmissíveis também merecem conscientização, tanto na questão do sexo seguro, quanto na questão da detecção por meio de exames.

Tecnologia nos diagnósticos

(Imagem: National Cancer Institute/Unsplash)
(Imagem: National Cancer Institute/Unsplash)

A tecnologia tem auxiliado muito na urologia, de acordo com o ponto de vista dos próprios especialistas consultados pelo Canaltech. E esse auxílio já começa nos diagnósticos, por exemplo. "A tecnologia ajuda a saúde de um modo geral, e não seria diferente na saúde masculina. Ajuda em diagnósticos mais precisos, mais precoces, possibilita que sejam instituídas medidas de tratamento em momentos iniciais da doença", explica Dr. José Truzzi, coordenador da Urologia do Fleury Medicina e Saúde.

"Na área diagnóstica temos vários testes bioquímicos, moleculares, exames de avaliação genética, então são painéis que avaliam genes que tentam checar a maior predisposição a um determinado tipo de doença, como o câncer de próstata, por exemplo. Tem exames que auxiliam e muito a detectar se a pessoa já é portadora, a saber se é um tumor de maior ou menor agressividade", acrescenta o especialista.

A detecção precoce da doença possibilita um tratamento mais eficaz e melhor recuperação do paciente. Para isso, é necessário fazer o rastreamento com exames clínicos, laboratoriais ou radiológicos periódicos, sendo recomendados como forma de prevenção a partir dos 50 anos de idade, e aos 45 anos se tiverem fator de risco familiar. Os testes para prevenção e diagnóstico do câncer de próstata incluem o toque retal e o exame de sangue para checar a dosagem do PSA (antígeno prostático específico) – exames que são igualmente importantes e necessários.

Além do acompanhamento médico é essencial ter uma boa alimentação, praticar exercícios físicos regularmente, manter o peso corporal adequado, evitar o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas. O rastreamento do câncer de próstata é recomendado dos 45 aos 75 anos de idade e deve ser feito anualmente por meio do exame de sangue, o PSA, e/ou por meio do exame de toque retal.

Já para identificar os tumores mais agressivos, é possível realizar o Oncotype DX - Genomic Prostate Cancer (GPS), em que são estudados 17 genes para auxiliar na decisão entre acompanhamento clínico versus tratamento cirúrgico, associado ou não à radioterapia. Com todas essas informações, o exame auxilia os médicos na definição do diagnóstico de forma confiável e na tomada de decisão para estabelecer um plano de tratamento adequado.

Estima-se que entre 5% a 10% dos casos de câncer de próstata são de origem hereditária. Assim, há, ainda, o Painel Câncer de Próstata Hereditário, que avalia 19 genes e tem por finalidade identificar o risco genético do câncer de próstata entre as gerações.

"O toque retal é um exame extremamente importante na avaliação da próstata, então não é substituído por outros exames e nem substitui outros exames. São exames que se complementam, e que quando realizados de modo associado, possibilitam diagnósticos mais precisos. O toque retal não substitui, por exemplo, a dosagem do PSA. O PSA não substitui exames de imagem. É importante saber que são exames realizados em conjunto para propiciar um melhor diagnóstico, cada um tendo seu papel muito bem definido", disserta Dr. José Truzzi.

Tecnologia nos tratamentos: de laser a robôs

(Imagem: Sasin Tipchai / Pixabay)
(Imagem: Sasin Tipchai / Pixabay)

Já no que diz respeito ao tratamento, podemos apontar o advento da laparoscopia, um procedimento cirúrgico minimamente invasivo realizado sob efeito de anestesia. É um método consagrado para retirada da vesícula biliar, também utilizada largamente em cirurgias urológicas. Posteriormente, a tecnologia também presenteou a urologia com a cirurgia robótica.

"As cirurgias ficaram mais precisas e, ao mesmo tempo, o paciente consegue se recuperar mais rápido, porque faz incisões bem menores, e previne de fazer incisões que são muito dolorosas. Na cirurgia de próstata benigna também houve um grande avanço, porque a gente pode tratar a próstata pelo canal da uretra, numa cirurgia que chamamos de endoscópica, e que previne que o paciente tenha que fazer cirurgias abertas como no passado", explica o dr. Alex Meller.

"Quando a gente fala de cálculo renal, também houve uma mudança grande. Hoje praticamente não fazemos cirurgias com corte para cálculo, as cirurgias são feitas via aparelhos, e além disso a gente ainda tem o advento das máquinas de laser que servem para fragmentar os cálculos e quebrá-los em pequenos pedaços. A tecnologia tornou as cirurgias mais efetivas, com menos sangramentos, mais segurança para os cirurgiões e para os pacientes", reitera o urologista da Unifesp.

Dr. Alex conta que a robótica faz parte do cotidiano, e que no mundo já tem mais de três mil robôs em operação, a maior parte deles concentrada nos Estados Unidos. "Aqui no Brasil, são em torno de trinta aparelhos. A gente sem dúvidas tem uma limitação financeira, porque na cirurgia robótica, o paciente ainda precisa fazer um pagamento adicional. Mas esse pagamento, que no passado era mais alto, hoje está em um valor bem mais acessível. Antigamente, era restrito só aos grandes hospitais. Hoje, hospitais de médio porte também têm robôs. Mas se a gente for pensar em saúde pública, os robôs ainda não são uma realidade", compara.

Outro ponto que relaciona a tecnologia à saúde masculina é a telemedicina. "Assim como as outras áreas, a urologia usufruiu da telemedicina. A pandemia acabou tornando isso uma realidade, e a recepção dos pacientes é variada. Alguns se encaixaram, principalmente os mais jovens. Os mais idosos têm mais dificuldade. Mas ainda há um tipo de resistência quando os pacientes precisam lidar com algo mais grave, com um tratamento mais complexo, porque o paciente ainda prefere ver o médico", reflete.

Homens hesitam em buscar ajuda

(Imagem: Arya Pratama/Unsplash)
(Imagem: Arya Pratama/Unsplash)

De acordo com o Dr. José Truzzi, muitos homens só voltam ao médico depois dos 50 anos e, na maioria das vezes, motivados por sintomas que sinalizam problemas. "O câncer de próstata, em sua fase inicial, tem evolução silenciosa. É na etapa avançada que pode provocar dores, dificuldade para urinar e insuficiência renal. Por isso é tão importante o acompanhamento da saúde”, afirma.

"É importante que o homem tenha em mente que, assim como a mulher faz avaliações periódicas, ele também deve fazer acompanhamentos de rotina com o propósito de que eventuais alterações em sua saúde sejam detectadas de maneira precoce, antes que se manifestem, inclusive, com sintomas, o que propicia melhores condutas de tratamento", completa o especialista.

No que tange a saúde mental, Dr. Yuri Busin, psicólogo, mestre e doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio (CASME), reconhece que o público masculino hesita na busca por auxílio. "Muitos homens ainda resistem bastante a procurar qualquer ajuda. Muitos compreendem que isso é um sinal de fraqueza e podem prolongar a dor acreditando que irá passar ou que não é nada demais. Contudo, buscar ajuda é um sinal de coragem de enfrentar os seus problemas e evoluir. O ideal é buscar orientação de um profissional antes de tomar a decisão de realizar o tratamento ou não", observa.

Em contrapartida, a tecnologia tem facilitado para os homens que precisam de ajuda psicológica. "Neste ano, a psicologia conseguiu mostrar a sua força e cada dia mais as pessoas têm percebido a sua importância para a vida. A psicologia não trata apenas do sofrimento, mas também das pessoas que querem se conhecer melhor e evoluir. Já faz um tempo que o atendimento on-line foi autorizado pelo CFP, mas durante a pandemia, esse trabalho ficou muito mais exposto ao mundo e muito mais relevante". Contudo, o profissional ressalta que os atendimentos on-line não são um substituto do consultório, mas sim mais uma ferramenta que ajudará as pessoas a terem mais acesso a psicoterapia.

Segundo Dr. Yuri, a prevalência dos transtornos mentais pode se apresentar majoritariamente em homens, ainda que isso não seja uma regra. "A verdade é que todos estão sujeitos a ter qualquer transtorno mental. O importante é sempre ir buscar ajuda. Acredito que o acompanhamento por um profissional irá sempre agregar. A psicoterapia não trabalha apenas com o negativo, ela pode trabalhar com a evolução pessoal e o autoconhecimento", conclui o psicólogo.

Fonte: Canaltech

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