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Nós não vendemos Kindles, vendemos livros, diz chefe de e-readers da Amazon Brasil

Foto: Zhang Peng/LightRocket via Getty Images

Quando o primeiro Kindle chegou ao mundo, em 2007, o mercado de leitores digitais engatinhava e era disputado por empresas do Japão, como Sony e Rakuten. Doze anos depois, em 2019, a norte-americana Amazon é praticamente a única competidora do setor em diversos países, incluindo no Brasil.

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A Amazon ocupa uma posição tão confortável no mercado que consegue um feito raro entre fabricantes de eletrônicos que vendem produtos importados: vender o Kindle, no Brasil, mais barato do que nos Estados Unidos. Tudo graças a uma estratégia sustentada desde a fundação da empresa como uma livraria online, no final da década de 1990.

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"O nosso negócio é vender livros", e não Kindles, diz Alexandre Munhoz, gerente geral do setor de e-readers da Amazon no Brasil. "A gente vende livros digitais e os clientes podem consumir esses livros pelo aplicativo, que é gratuito, ou pelos modelos de e-reader que a gente vende. Mas o business não está no e-reader, está no livro. A gente não ganha dinheiro, não fazemos lucro [com o dispositivo]."

O novo Kindle Oasis, por exemplo, lançado em julho no Brasil, é vendido nos Estados Unidos por US$ 249, o que, em conversão direta na cotação alta do dólar atual (mais de R$ 4,10 no momento em que esta reportagem é produzida), sai por algo em torno de R$ 1.030.

No Brasil, o mesmo Kindle Oasis é vendido por R$ 1.149. Se comprado nos EUA, o aparelho ainda recebe uma carga de impostos (que varia dependendo do estado onde ele for adquirido) e ainda pode ser taxado ao passar pela alfândega do Brasil, levando o total da compra a um valor superior aos R$ 1.200.

Ou seja, para um brasileiro, vale mais a pena comprar um Kindle no Brasil do que nos EUA. E a Amazon não se importa. Segundo Alexandre, entra no cálculo do preço final do aparelho também o retorno esperado com a venda posterior de livros.

O Kindle só permite comprar livros digitais pela própria loja da Amazon, que oferece um catálogo extenso de títulos dos mais diversos gêneros. Além disso, a empresa ressalta que os brasileiros estão entre os principais usuários do mundo no serviço por assinatura Kindle Unlimited, que oferece mais de 1 milhão de ebooks por R$ 20 ao mês.

Embora pareça contraditória, a estratégia de não buscar lucro com a venda de aparelhos tem dado certo para a Amazon, pelo menos no Brasil. O Kindle, que já teve entre seus competidores o Lev, da Saraiva, e o Kobo, da Livraria Cultura, hoje reina sozinho no mercado formal de e-readers.

No site da Livraria Cultura, o único modelo de Kobo à venda está "indisponível" há meses. O mesmo acontece com o Lev, da Saraiva, que possui duas versões no Brasil, mas apenas as respectivas capas protetoras são encontradas à venda no site da empresa.

Quem procurar no mercado de revenda e marketplaces online, pode encontrar o Kobo e o Lev por preços bem mais altos que o do Kindle de entrada vendido no site da Amazon, e ainda deve estar atento à provável falta de suporte das fabricantes.

O fracasso de Saraiva e Livraria Cultura no Brasil não se limitou ao mundo dos e-readers, porém. As duas redes estão em processo de recuperação judicial, com dívidas milionárias, vendendo ativos e fechando lojas físicas por todo o país. Já a Amazon só cresce.

Só em 2018, o investimento da empresa no Brasil superou os R$ 97 milhões com a compra de um novo galpão e o início das vendas de produtos de outras categorias além de livros e e-books. No mesmo período, a empresa se tornou a mais valiosa do mundo e seu CEO global e fundador, Jeff Bezos, ultrapassou Bill Gates para se tornar o homem mais rico do mundo.

Mesmo a crise econômica e política do Brasil nos últimos anos, o aumento do preço do dólar, o temor de uma recessão global, nada tem tirado da Amazon - pelo menos por enquanto - o desejo de continuar investindo no mercado brasileiro.

"A aposta que a gente tem no Brasil é uma aposta de muito longo prazo", afirma Munhoz. "A gente está apostando que o Brasil é um país que tem muito potencial para a Amazon como um todo, não só para livros."

Alexandre Munhoz, Gerente Geral de Amazon Kindle no Brasil

A falta de concorrentes no setor de e-readers não assusta nem acomoda a Amazon, diz Munhoz. Para a empresa, o Kindle não compete com outros leitores digitais, mas com as redes sociais: aplicativos como Facebook, Instagram e Twitter que tomam o tempo livre do usuário - tempo que ele poderia gastar lendo um livro.

E como as redes sociais, a Amazon também lida com críticas pela maneira como cuida da privacidade do usuário. Numa época em que os dados são o novo petróleo, a empresa coleta grandes volumes de informações de clientes por meio de algoritmos e não é tão transparente a respeito de como protege esses dados.

Além de informações referentes às suas compras, que a Amazon usa para te indicar novas compras (livros do mesmo autor ou produtos de uma mesma categoria, por exemplo), a empresa também já foi pega armazenando e repassando a funcionários clipes de áudio de alguns usuários.

Essas gravações são obtidas por meio da Alexa, uma assistente pessoal de inteligência artificial que opera caixas de som conectadas e smartphones. No início do ano, a Amazon começou a testar uma versão em português da Alexa, enviando aos participantes da fase de testes uma caixa de som Echo de graça no Brasil.

Além disso, a empresa é alvo de muitas críticas por conta do seu sistema de reconhecimento facial, vendido a órgãos de repressão e monitoramento de diversos países, como a China. O software já foi acusado de ser impreciso e de facilitar prisões arbitrárias em estados de vigilância excessiva.

Em sua defesa, a Amazon diz que não vende dados pessoais de usuários a outras empresas e que protege todas essas informações com criptografia. Sobre os funcionários que escutam às suas conversas perto da Alexa, a empresa diz que a prática tem como objetivo aperfeiçoar as respostas da assistente.

No Kindle, porém, a Amazon garante que não abusa da privacidade do usuário. E ao contrário de Facebook e Twitter, não se preocupa com notícias falsas e teorias da conspiração rondando a loja de livros online do e-reader. "Esses livros aparecem a todo momento. Mas se o conteúdo é ruim, ele morre rápido. Contando que o conteúdo não fira nenhuma lei ou regra de publicação, a gente não se coloca nessa posição [de filtrar]", diz Alexandre.

Com exceção dessa pressão por melhores cuidados com a privacidade dos usuários, a Amazon admite estar num momento confortável do mercado de e-readers. Mas Munhoz garante que toda a empresa segue à risca a ideologia de "dia 1" cultuada por Jeff Bezos - a ideia de que a companhia deve sempre estar na vanguarda de novos negócios e tecnologias para garantir sua hegemonia, como ocorreu com os e-readers.