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Nobel de Economia Joseph Stiglitz defende abandonar o PIB

Por Manon BILLING
O americano Joseph Stiglitz em Paris em 19 de setembro de 2019

Para Joseph Stiglitz, vencedor do prêmio Nobel de Economia, a pandemia do novo coronavírus demonstrou que a economia mundial funciona sem rede de segurança e, em entrevista à AFP, defendeu substituir o Produto Interno Bruto (PIB) por um indicador que represente melhor a saúde econômica de um país.

PERGUNTA: O discurso político de hoje está imbuído da ideia de uma recuperação "verde". Qual deveria ser a base desta mudança para uma economia mais sustentável?

RESPOSTA: Deveriam pensar em que tipo de economia queremos depois desta pandemia. E não deveríamos voltar para onde estávamos. Sabíamos antes, e sabemos ainda mais hoje em dia, que havia muitas desigualdades.

O que temos que fazer é levar a economia em uma direção que reflita todas estas preocupações. O PIB não é uma boa medida. O PIB não leva as desigualdades em consideração.

O indicador mais importante é o impacto das emissões de gases [causadores] do efeito estufa. Não apenas o CO2, mas também o metano. Cada um deles tem diferentes dimensões, como sua vida útil e seu poder.

Nos últimos anos, aprendemos mais sobre as múltiplas manifestações da mudança climática, por exemplo, como afetará os fenômenos meteorológicos extremos. O que estamos aprendendo é complexidade da própria mudança climática.

P: O PIB continua sendo o indicador-chave para avaliar o êxito de qualquer política. A mudança para um novo modelo de crescimento é influenciada pelas ferramentas que usamos para medi-lo?

R: Acredito que os indicadores são importantes em dois aspectos. Em nosso novo relatório [para a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE], destacamos que, se tivéssemos medidas melhores, teríamos uma ideia melhor dos danos que a crise de 2008 estava causando.

Em termos mais gerais, deveríamos trabalhar para medir melhor a saúde da economia, para ver até que ponto nossas políticas de estímulo estão realmente melhorando nossas sociedades.

Nossa abordagem baseada no PIB não nos fez perceber que a sociedade que criamos não é resiliente. Não nos permitiu calcular a força da nossa economia.

Para explicar de outra maneira: há uma grande diferença, se um veículo tem um pneu sobressalente, ou não. Mas, da forma como medimos o PIB, um veículo sem pneu de reposição é mais eficiente do que um veículo com pneu de estepe, porque custa menos.

Criamos uma economia sem pneus sobressalentes, sem camas de hospitais extras, não nos preparamos para uma pandemia, não fizemos muitas coisas que nos permitiriam responder à pandemia.

Não é que poderíamos ter evitado, mas poderíamos ter uma economia muito mais resiliente, mais capaz de responder ao cenário, e não acredito que nossas estatísticas nos digam isso.

P: Acredita em uma recuperação "verde"?

R: Tenho esperanças, especialmente na Europa. Mas temos que continuar trabalhando. O mundo se comprometeu a ser neutro em carbono até 2050. Acredito que é possível. É um passo muito positivo, mas não basta ter a aspiração, é necessário começar a gastar dinheiro. E a pandemia está nos empurrando para começar a gastar este dinheiro.

Precisamos ajudar as pessoas com novo treinamento, levá-las para outros empregos, como a venda de painéis solares. O custo para o mundo de não fazer a transição é muito elevado. Temos que reconhecer que algumas pessoas estarão em situação pior. Nós teremos que garantir que elas estarão protegidas de maneira adequada e ajudá-las a chegar a outras áreas de produção.