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No Senado, chanceler sobe o tom contra Venezuela e evita crítica à ditadura militar

Renan Truffi e Vandson Lima
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Araújo foi chamado a explicar a visita de secretário americano a fronteira com a Venezuela O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, voltou a criticar com veemência o governo de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela. Convidado pela Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado a explicar a visita do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, às instalações da Operação Acolhida, na fronteira de Roraima com a Venezuela, ele usou diversos adjetivos negativos para se referir ao governo do país vizinho, mas evitou empregá-los quando questionado sobre a ditadura militar brasileira (1964-1985). Durante a audiência pública, o chanceler defendeu que a Venezuela continua sendo um "país amigo" e que o problema estaria no que chamou de "bando de facínoras" que ocupa o poder no país. "Para nós, o governo da Venezuela é aquele que o Brasil e 56 outros países reconhecem, que é o governo legítimo de Juan Guaidó. Mas existe o regime, que é o grupo de pessoas que manejam ali as alavancas do poder de maneira repressiva, de maneira brutal contra o seu próprio povo", afirmou. Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, fala durante comissão no Senado Edilson Rodrigues/Agência Senado "Venezuela pode significar coisas diferentes, não é? Inclusive, Guaidó faz parte do Grupo de Lima, que é o grupo de países latino-americanos e caribenhos e Canadá que tenta trabalhar pela democracia na Venezuela. A Venezuela está ali presente. Então, é importante que a gente não use a palavra Venezuela para se referir a esse bando de facínoras que ocupa o poder ainda na Venezuela, pelos quais a gente só tem desprezo", defendeu Araújo. O tom crítico sobre o governo de Maduro foi usado com frequência pelo ministro durante as mais de quatro horas de sessão. O afinco nas críticas também serviu para que o chanceler negasse qualquer objetivo eleitoreiro na visita de Pompeo a Roraima. A presença do secretário americano foi foco de críticas no Congresso brasileiro devido à proximidade das eleições nos EUA. O presidente Donald Trump, que tenta a reeleição, tem buscado acenar ao eleitorado latino-americano com uma retórica semelhante à do governo brasileiro. "As críticas que o secretário Mike Pompeo e eu veiculamos ao regime venezuelano não são novas, de nenhuma maneira. São muito conhecidas as nossas posições, tanto as nossas quanto as dos Estados Unidos, que não são necessariamente as mesmas, mas são muito convergentes", argumentou. Araújo não demonstrou a mesma certeza, no entanto, quando foi questionado se ainda mantinha entendimento de que não houve ditadura a partir do golpe de 1964 no Brasil. "Como um ministro e um país que se preocupam tanto com a ditadura do país vizinho não prezam [pela história brasileira]. O senhor ainda pensa assim, que não tivemos uma ditadura, que não tivemos uma ditadura durante 21 anos?", perguntou a senadora Zenaide Maia (PROS-RN). O chanceler foi evasivo: "Sobre 1964, não queria voltar a isso porque nós estamos aqui diante de questões muito concretas. Discussão histórica é bastante... rica. Existe um problema de conhecimento insuficiente de todos os lados, realmente, sobre o que era a realidade dos acontecimentos – não vou chamar nem de uma maneira nem de outra – de 1964. Acho fundamental que um país conheça sua história, independentemente dos rótulos, porque a história é uma ciência, mas também não é uma taxonomia biológica. Então, chamar de uma coisa ou de outra depende da definição, do que se define por golpe, do que se define por ditadura". A explicação não agradou a senadora. "Não gostei quando o senhor deu a entender que a questão da ditadura é mais uma maneira de ver, uma interpretação. Isso é real, ministro", rebateu. Zenaide lembrou que teve familiares torturados por militares brasileiros. "Foi uma ditadura, sim, não há como contestar. Eu tenho familiares que foram torturados, foram mortos, e não era porque eram comunistas, isso ou aquilo. Bastava fazer um discurso numa universidade", disse. O viés ideológico do chanceler também ficou evidente quando ele teve de responder a perguntas de senadores do PT. Araújo foi questionado sobre a subserviência do governo Jair Bolsonaro aos Estados Unidos e rebateu quando ouviu do senador Jaques Wagner (PT-BA) que o Brasil se tornou pária das relações internacionais no mundo hoje. "Pária internacional era o Brasil em outros momentos, no momento em que o senhor senador Jaques Wagner falou que era o seu governo. Então, no seu governo é que o Brasil virou um pária internacional", disse. A resposta gerou protestos de outros senadores petistas. "O Brasil não foi pária durante o governo do presidente Lula. O governo do presidente Lula e da presidente Dilma quadruplicou o comércio externo, estabeleceu relações com todos os países do hemisfério sul, pacificou e rearticulou com todos os países do continente americano, fortaleceu o Mercosul. Vossa excelência respeite para ser respeitado. O PT não é pária", rebateu o líder do partido no Senado, Rogério Carvalho (PT-SE).