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No livro-texto de Powell, emprego toma lugar de inflação e oferta de dinheiro perde relevância

Howard Schneider
·3 minuto de leitura
Presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, durante audiência em comissão da Câmara dos Representantes, em Washington

Por Howard Schneider

WASHINGTON (Reuters) - Em uma audiência no Congresso dos Estados Unidos dominada por conversas sobre a pandemia e o que pode ser necessário para curar a economia de seus efeitos, o chair do Federal Reserve, Jerome Powell, deu nesta terça-feira uma mensagem sutil para os senadores norte-americanos avaliando suas opções.

Jogue fora os livros-texto da faculdade, porque o mundo mudou.

A taxa de desemprego? Esqueça. O Fed só se preocupa com o número de pessoas que trabalham e como aumentá-lo, e não com uma estatística milenar que, com toda a sua familiaridade, ignora um grupo-chave --ou seja, aqueles que pararam de procurar trabalho durante a pandemia e precisam ser trazidos de volta.

Inflação? Não é um problema tão cedo. Questionado pelo senador democrata Mark Warner sobre a necessidade de fazer "um investimento considerável" na infraestrutura dos Estados Unidos, Powell deixou de lado preocupações clássicas de fortes empréstimos do governo elevarem os preços e respondeu: "isso não é um problema para este momento, pelo que posso ver".

A oferta de dinheiro? Não mais relevante, Powell, de 68 anos, disse ao senador republicano John Kennedy, 69, sobre medidas outrora importantes de dinheiro e liquidez que foram foco central do Fed no passado.

"Quando você e eu estudamos economia, um milhão de anos atrás, o M2 e os agregados monetários pareciam ter uma relação com o crescimento econômico", disse Powell, referindo-se a uma medida principal do dinheiro em poder do público. "No momento... O M2... não tem implicações importantes. É algo que temos que desaprender, acho."

Tem havido muito desaprendizado nestes dias no Fed e na academia econômica, em tudo desde relações econômicas básicas até os riscos --ou não-- de montanhas de dívidas governamentais. Mesmo antes da pandemia, o banco central estava reavaliando uma de suas ideias centrais --a de que, quando a taxa de desemprego estivesse baixa, a inflação estaria alta, e vice-versa.

A ideia levou banqueiros centrais do passado a se preocupar sempre que a taxa de desemprego caía abaixo de um certo ponto e a começar a ansiar por aumentos das taxas que desacelerariam a economia e evitariam a inflação que se aproximava. A mesma ideia também empurrou pessoas para fora do mercado de trabalho.

Esse conceito foi jogado ao mar a partir de agosto: o que quer que impulsione a inflação, concluiu o Fed --e há muita discordância sobre o que é--, uma baixa taxa de desemprego não é mais considerada parte disso.

A própria taxa de desemprego pode até ter ficado ultrapassada. Ela mede o número de pessoas trabalhando dividido pelo número dos que trabalham ou procuram trabalho. Assim, não conta pessoas fora do mercado de trabalho --aposentadas, por exemplo--, mas também, e de forma mais preocupante, mulheres que abandonaram a carreira para cuidar da família durante a pandemia.

Quando o Fed considera sua meta de pleno emprego hoje em dia, Powell disse: "não nos referimos apenas à taxa de desemprego, mas à taxa de emprego", medida em relação à população como um todo e aspirando a "altos níveis de participação".