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'No empreendedorismo negro, o motivo para a abertura de negócios é a necessidade'

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Da esquerda para a direita: Monique Evelle, Camila Farani, Amanda Dias e Karine Oliveira.
Da esquerda para a direita: Monique Evelle, Camila Farani, Amanda Dias e Karine Oliveira.

O afroempreendedorismo é uma marca de luta no mercado brasileiro. Neste Dia da Consciência Negra, o Yahoo! Finanças conversou com quatro importantes nomes da área, atuantes em educação, investimentos, finanças pessoais e empreendimentos: Camila Farani (a 'tubarão' do Shark Tank Brasil e investidora-anjo premiada internacionalmente), Karine Oliveira (fundadora da Wakanda Educação), Monique Evelle (apresentadora do podcast Caminhos Intuitivos) e Amanda Dias (fundadora do canal Grana Preta e apresentadora do podcast Fala, Emancipade), ambos parte do catálogo de podcasts do Globoplay. 

O Brasil conta atualmente com 30 milhões de mulheres empreendedoras, de acordo com dados do Global Entrepreneurship Monitor. Isso é o equivalente a dizer que quase a metade (48,7%) do mercado empreendedor no país é feminino. Durante a pandemia o crescimento foi de 40%.

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Ainda que represente um número expressivo no empreendedorismo, mulheres encontram inúmeras dificuldades para conseguir linhas de crédito. Mesmo comprovando autonomia financeira, 42% das empreendedoras tiveram seus pedidos negados ao solicitarem crédito em 2021, de acordo com a pesquisa anual da Rede Mulher Empreendedora. 

Além disso, as taxas de juros são 3,5% mais altas em relação aos homens, ainda que o número de inadimplentes seja inferior aos empresários, 3,7% contra 4,2%. Os dados são do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

1. Como podemos relacionar o Dia da Consciência Negra com o Empreendedorismo no Brasil? Para a população negra, já há o que se comemorar neste seguimento?

Amanda Dias: Acredito que a principal relação entre a população negra, o Dia da Consciência Negra e o Empreendedorismo, é que a gente possa discutir mais empreendedorismo, e mais intraeconomia nesta data. Sim, precisamos garantir segurança na nossa experiência de consumo. Lojas com códigos racistas, lojas que seguem consumidores negros, lojas que atendem mal consumidores negros, precisam ser expostas e precisam desenvolver mecanismos, formas e treinamentos para que essa população não sofra racismo na experiência de consumo. Até porque é um grupo populacional que consome, em renda própria, R$ 1.7 trilhões por ano. Mas ao mesmo tempo, pensar mecanismos de fortalecer empresas de propriedade negra, que consequentemente por terem pessoas negras na liderança, na gestão, na diretoria, não vão reproduzir essas práticas racistas na experiência de consumo de seus clientes.

Seja no empreendedorismo ou em outros setores, ainda há pouco o que comemorar.

Monique Evelle: Seja no empreendedorismo ou em outros setores, ainda há pouco o que comemorar. O acesso de empreendedores negros a crédito e à orientação, no desenvolvimento dos seus negócios, ainda é negado e são desproporcionais quando a gente compara com as oportunidades oferecidas a pessoas não brancas. O mês da Consciência Negra é o período em que as marcas e instituições, no geral, se dão conta dessa realidade e desses dados, enquanto nos 11 meses demais, a população negra enfrenta, sem apoio, os desafios de empreender em um clico de sobrevivência".

2. Você acredita que o empreendedorismo negro já é consolidado no histórico da cultura afrobrasileira? Pode citar exemplos?

Monique Evelle: Não há história bonita por trás do empreendedorismo enquanto parte da cultura afrobrasileira. Os negros que foram escravizados se aproximam desse movimento, que hoje tratamos como empreendedorismo, como forma de sobrevivência, o que não é muito diferente nos dias atuais. Com o desemprego, o número de empreendedores aumenta. O marcador da nossa história ligada ao empreendedorismo ainda é no lugar da sobrevivência, da urgência para garantir direitos básicos, como ter comida na mesa, amanhã.

O marcador da nossa história ainda é no lugar da sobrevivência, da urgência para garantir direitos básicos, como ter comida na mesa, amanhã.

Camila Farani: Se formos pensar em empreendedorismo como a execução de um negócio na prática, gerando renda e estabilidade econômica por meio da venda de produtos ou serviços que atendem às necessidades do mercado, acredito que está mais do que consolidado no histórico da cultura afrobrasileira. Por outro lado, precisamos ampliar as oportunidades para empreendedores negros, que encontram mais dificuldade de acesso aos ecossistemas de inovação e empreendedorismo brasileiros e, por consequência, aos benefícios que esses ambientes oferecem.

3. Como vocês enxergam a atuação de grandes empresas para a data de 20/11? A Feira Preta, por exemplo, está tendo parceria esse mês com a C&A. Existe disponibilidade e vontade real ao longo do ano para investir em empreendedores negros?

Karine Oliveira: Esse é um dos grandes desafios: que as empresas não se responsabilizem pela pauta da população negra somente em novembro. Vale muito o exemplo da Feira Preta, e iniciativas como do Movimento Black Money na parceria com grandes marcas, fazendo esse trabalho de formiguinha durante ano inteiro. Quando se faz parceria por necessidade com mulheres e mães, investimentos com ações de impacto na periferia, naturalmente se investe também nesses ambientes pretos.

Quando se faz parceria por necessidade com mulheres e mães e investimentos com ações de impacto na periferia, naturalmente se investe também em ambientes pretos.

Amanda Dias: Uma coisa que precisa ser vista de forma mais estratégica pelas políticas públicas é o investimento em capacitação e fortalecimento para a expansão desses pequenos negócios, que são hoje representantes de boa parte do PIB brasileiro. Senão me engano, é 1.6% do PIB brasileiro que é representado pelas pequenas e médias empresas, e são essas mesmas que garantem a maioria dos empregos formais no Brasil hoje. Olhar para essas empresas não é uma obra de caridade, e sim investir num setor muito estratégico da nossa sociedade, da nossa comunidade, enquanto povo. É fundamental o investimento nesses negócios, para que se fortaleçam, e saiam da lógica da necessidade.

4. Como se dá o empreendimento por necessidade? Quais são as características dessa modalidade de negócio?

Camila Farani: No empreendedorismo negro, o principal motivo para a abertura de negócios é a necessidade financeira. O empreendedor por necessidade começa sem experiência em gestão nem conhecimento em áreas vitais como marketing ou finanças, muito menos dinheiro para contratar colaboradores especializados. Isso pode resultar em dificuldades para precificar os produtos ou serviços e para entender o seu nicho de mercado, impactando na sobrevivência do negócio a longo prazo. No entanto, a dificuldade também abre portas para o desenvolvimento de habilidades na prática e a descoberta de verdadeiros talentos empreendedores.

No empreendedorismo negro, o principal motivo para a abertura de negócios é a necessidade financeira. Mulheres negras apoiam-se em atividades historicamente vinculadas a elas.

Monique Evelle: No geral, os casos estão associados com o desemprego. São negócios informais que precisam ir pra rua de um dia para o outro. Esses empreendedores conseguem realizar algumas vendas no geral, mas não conseguem ver oportunidade de escalar esse negócio. A preocupação é que amanhã não falte comida na mesa. Eles prezam por baixo risco e não são iniciativas que começam porque se observou uma oportunidade, mas porque alguma habilidade pessoal precisa ser aproveitada para gerar renda.

5. Quais dicas você dá para homens e mulheres pretas que estão querendo empreender / investir?

Karine Oliveira: A primeira dica que eu dou vai para quem empreende por necessidade. Tudo bem você nascer pela necessidade, isso não é um problema. Não tem problema também o tamanho de empreendimento: pode ser um bolo de pote, pode ser eu começa a realmente cortando cabelo. O mais importante é que a gente não continue pensando pequeno. Então, é preciso pensar nessa necessidade: quais são os passos que eu vou fazer empreendendo para que saia da necessidade; quais são as minhas metas; qual são os meus planos.

O que a gente precisa é não falarem de nós é sem nós.

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