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Neste "Netuno ultraquente", um ano dura apenas 19 horas

Daniele Cavalcante
·4 minutos de leitura

Alguns exoplanetas (mundos que orbitam estrelas que não o Sol) semelhantes a Netuno, porém quentes, já foram encontrados antes, mas uma equipe de cientistas acaba de anunciar a descoberta de um Netuno "ultraquente". Ou seja, é um gigante gasoso que orbita muito próximo de sua estrela anfitriã e, por isso, suas temperaturas são extremamente elevadas.

Os Netunos quentes normalmente orbitam suas estrelas a uma distância menor que uma unidade astronômica (a distância entre a Terra e o Sol, que é aproximadamente 150 milhões de km). Entretanto, a nova descoberta é ainda mais surpreendente. Este planeta, chamado LTT 9779b, está tão perto de sua estrela (conhecida como LTT 9779) que seu ano dura apenas 19 horas!

Com essa distância tão curta, o Netuno ultraquente recebe radiação estelar suficiente para elevar sua temperatura a mais de 1700 graus Celsius. Isso por si só já é bastante impressionante, mas essas características implicam em consequências tão interessantes quanto raras, considerando nosso conhecimento atual sobre exoplanetas. Por exemplo, este mundo é tão quente que elementos pesados ​​como o ferro podem ser ionizados na atmosfera e suas moléculas desassociadas.

Além disso, o sistema LTT 9779 é relativamente jovem, com 2 bilhões de anos, menos que a metade do Sistema Solar. A estrela é semelhante ao Sol, embora seja mais rica em metais, com o dobro de ferro em sua atmosfera. Ela não está tão longe de nós — sua distância de é apenas 260 anos-luz, um quarteirão de distância em proporções cósmicas.

Para essa descoberta, publicada na revista Nature Astrônomy, os astrônomos usaram dados do Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS), telescópio espacial que descobriu o sinal de existência de um planeta ao redor da estrela. O sinal foi confirmado no início de novembro de 2018 como proveniente de um corpo de massa planetária graças às observações feitas com outro instrumento, o High Accuracy Radial-velocity Planet Searcher (HARPS), que fica no Observatório de La Silla, Chile.

Características misteriosas

Uma ilustração do GJ 3470b, um exemplo de Netuno Quente, envolto em uma nuvem de gás enquanto sua atmosfera é removida pelo calor de sua estrela hospedeira (Imagem: Reprodução/NASA/ESA/D. Player)
Uma ilustração do GJ 3470b, um exemplo de Netuno Quente, envolto em uma nuvem de gás enquanto sua atmosfera é removida pelo calor de sua estrela hospedeira (Imagem: Reprodução/NASA/ESA/D. Player)

Embora o LTT 9779b seja maior que Netuno, ele também é mais pesado. Isso significa que sua densidade ainda é semelhante à de nosso vizinho gigante do Sistema Solar. O núcleo deste exoplaneta tem cerca de 28 massas terrestres e sua atmosfera corresponde a cerca de 9% da massa planetária total, de acordo com os pesquisadores. O curioso aqui é o fato de ainda haver alguma atmosfera, considerando a quantidade de irradiação que este planeta recebe da estrela. Talvez ele tenha sido muito maior no passado.

Cálculos do Dr. George King, do Departamento de Física da University of Warwick, apontam para a ideia de que a atmosfera do Netuno Ultra Quente deve ter se perdido através do tempo por meio de um processo chamado fotoevaporação. “Raios-X e ultravioleta intensos da jovem estrela-mãe teriam aquecido a atmosfera superior do planeta e devem ter levado os gases atmosféricos para o espaço”, explicou ele. Entretanto, os mesmos cálculos mostram que o exoplaneta não teve condições de começar como um gigante gasoso muito mais massivo do que é atualmente.King conclui que “deve haver algo novo e incomum que devemos tentar explicar sobre a história deste planeta”.

Há outros mistérios sobre este planeta que desafiam os modelos atuais dos astrônomos. Por exemplo, nessas condições, ele deveria ter pelo menos duas a três massas terrestres de gás atmosférico, mas não é isso o que acontece. O professor James Jenkins, que liderou o estudo, afirmou que a estrela deveria ter capturado para si a atmosfera deste mundo, mas isso também não ocorreu, ao menos por enquanto. Uma das possibilidades é que o Netuno Ultra Quente se formou muito mais distante de sua estrela e acabou migrando para a órbita atual — com a ajuda de uma colisão com outro objeto, talvez. Se este for o caso, ele deve perder sua atmosfera com o passar do tempo.

Seja como for, futuras observações poderão fornecer algumas respostas para estes mistérios. Isso será de grande valor para os cientistas, porque observar planetas como este é uma oportunidade única para aprender mais sobre a química de mundos fora do Sistema Solar, já que alguns de seus elementos estão flutuando em suas atmosferas. E, já que este tipo de exoplaneta ainda é raro para nós, os pesquisadores deverão aproveitar bastante essa chance valiosa.

Fonte: Canaltech

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