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Nem o pão com ovo escapa da inflação

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 17.09.2021 - Still de mão segurando um pão francês. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 17.09.2021 - Still de mão segurando um pão francês. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Nem os lanches mais simples escaparam da inflação dos alimentos no Brasil. É o caso do pão com ovo, um sanduíche que muitas vezes salva quem tem pouca criatividade na cozinha ou anda com o orçamento apertado.

Em 2022, os preços do tradicional pão francês acumularam alta de 18,03%, segundo o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Trata-se da maior inflação em 14 anos, ou desde 2008 (19,35%).

O ovo de galinha, por sua vez, subiu 18,45% em 2022. É o avanço mais intenso em sete anos, desde 2015 (18,55%).

No caso do pão francês, economistas dizem que a principal pressão sobre os preços veio da guerra envolvendo Rússia e Ucrânia.

Após o início do conflito, em fevereiro de 2022, houve um salto nas cotações do trigo, insumo usado para a produção de alimentos nas padarias.

Rússia e Ucrânia estão entre os principais países produtores do cereal. O Brasil é dependente de importações de trigo.

As cotações até mostraram trégua recentemente, mas o movimento foi incapaz de impedir o impacto sobre o bolso do consumidor.

"A raiz dessa alta está na Guerra da Ucrânia", afirma o pesquisador Felippe Serigati, do centro de estudos FGV Agro.

Na capital paulista, o quilo do pão francês custou em média R$ 16,21 em dezembro de 2022, o equivalente a uma alta de 18,58% ante dezembro de 2021 (R$ 13,67).

Os dados são de uma pesquisa da cesta básica realizada pelo Procon-SP em convênio com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

Já a dúzia de ovos brancos custou R$ 10,63 para os paulistanos, em média, em dezembro de 2022. O valor está 28,69% acima do registrado um ano antes (R$ 8,26), conforme a mesma pesquisa do Procon-SP.

O economista Rodolfo Coelho Prates, professor da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), avalia que os ovos ficaram mais caros devido a uma combinação entre aumento nos custos de produção e demanda aquecida.

Nesse sentido, Prates destaca que a valorização da soja e do milho na pandemia pressionou os preços da ração usada na alimentação das galinhas.

Além disso, diz, houve uma pressão de demanda porque os ovos representam uma fonte de proteínas mais barata na comparação com a carne, que segue em um patamar elevado de preços, apesar dos recentes sinais de trégua.

"São as duas coisas. A população sofreu um processo de empobrecimento e substituiu proteínas, e o setor de frangos, galinhas, depende muito da ração", indica Prates.

A carestia dos ovos não é uma exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, os preços também subiram, mas por um motivo diferente: a gripe aviária.

A doença provocou a morte de aves poedeiras, gerando escassez de ovos. Com a oferta restrita, houve uma pressão sobre a inflação dos produtos.

"Está faltando ovo porque lá o pessoal está tendo de abater os animais", diz Serigati.

Na Europa, além da gripe aviária, a alta dos custos de grãos e da energia também afetam a produção neste momento. "Os ovos estão caros no mundo", ressalta o pesquisador.

Cenário para 2023 Serigati avalia que, após a forte alta no ano passado, não há mais tanto espaço para aumentos expressivos no início de 2023 no Brasil. A análise está ancorada na trégua dos preços ao longo da cadeia produtiva no começo deste ano.

O Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) indicou que as cotações dos ovos caíram em praças produtoras na segunda semana de janeiro com uma procura menor.

O movimento ocorreu após o registro em 2022 de recordes reais (descontada a inflação) na série histórica da instituição, iniciada em 2013.

"Não tem tanto motivo para continuar acelerando no começo do ano, mas ao longo dos próximos meses pode acontecer alguma turbulência", pondera Serigati.

Prates vê os preços dos ovos ainda pressionados. No caso dos pães, ele avalia que o cenário de trégua está mais claro, diante do alívio das cotações do trigo nos últimos meses.

"O trigo é o principal fator, embora também tenha os custos do trabalho, da energia necessária para a produção. Em um cenário sem um aumento nos outros fatores, a gente pode esperar alguma diminuição nos preços", projeta o professor.