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Nem Lula nem Bolsonaro parecem inclinados a política fiscal irresponsável, diz recém-saído do BC

***ARQUIVO*** SÃO PAULO/ SP, BRASIL, 26.07.2022 -  Retrato de Fabio Kanczuk, ex-diretor do BC que está no comando da área de macroeconomia da ASA Investments.  (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO/ SP, BRASIL, 26.07.2022 - Retrato de Fabio Kanczuk, ex-diretor do BC que está no comando da área de macroeconomia da ASA Investments. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Nomeado diretor de Política Econômica do Banco Central durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), o agora responsável pela área de macroeconomia da ASA Investments Fabio Kanczuk afirma que as expectativas do mercado acerca da responsabilidade fiscal de Lula (PT) e do atual chefe do Executivo, candidato à reeleição, não são discrepantes.

"Nas eleições passadas, era muito claro quem era o queridinho do mercado e quem era o inimigo do mercado, e que a política econômica seria muito diferente em termos de responsabilidade fiscal", diz. Para o economista, dessa vez, "nenhum dos dois parece inclinado a fazer uma política fiscal muito irresponsável".

Kanczuk indica que o período eleitoral não será um freio para a escalada dos juros e projeta que a taxa básica (Selic, atualmente em 13,25%) suba para 14,25% ao ano no fim do ciclo de aperto monetário. Mas, diferentemente das estimativas de outros economistas, ele vê espaço para corte no segundo trimestre de 2023. Isso porque a inflação cairia abruptamente em meio a uma recessão que atingiria o Brasil antes do que os Estados Unidos.

*

Pergunta: O que podemos esperar para a próxima reunião do Copom?

Fabio Kanczuk: O que veio diferente entre a reunião passada [em junho] e essa [agosto] foi a PEC [dos benefícios sociais], que o pessoal no escritório brinca que é a PEC da Xuxa, porque ‘tudo é possível, basta acreditar’. Com a PEC, teve mudança na [projeção de] inflação, de 2022 caiu e de 2023 subiu, piorou a situação de inflação para o horizonte relevante. Com isso, o plano típico de voo fica outra alta de 0,5 ponto percentual, de 13,25% para 13,75%.

P.: Quanto aos próximos passos, até onde o BC deve elevar os juros?

FK: Meu chute pessoal é que a economia brasileira vai desacelerar bem fortemente no quarto trimestre. Não vai desacelerar agora porque teve o novo auxílio de R$ 600, vale-táxi, vale-caminhoneiro. No quarto trimestre, tem todas as condições para a economia desacelerar fortemente e até ter recessão no Brasil. Daí o BC olha que a política monetária funcionou e tem uma confiança maior para parar de subir juros. Vai ser 0,5 ponto percentual agora em agosto, 0,25 em setembro, 0,25 em outubro e, quando chegar em dezembro, ele para, o que dá [Selic de] 14,25% [ao ano].

P.: E a partir de quando pode haver espaço para redução dos juros?

FK: Meu chute é que o BC começa a reduzir juros já no segundo trimestre do ano que vem, antes do que os economistas estão falando. A inflação vai cair de forma muito abrupta. A inflação subiu muito porque, em economês, a oferta estava vertical. É a história de faltar chip para carro. Ninguém podia consumir serviços por causa da pandemia, o pessoal saiu consumindo bens com tanta volúpia que a oferta não podia mais se expandir e ficou vertical. Quando a oferta fica vertical, o preço sobe muito. O modelo do BC errou feio. Agora vai ter o reverso da medalha. O preço que subiu muito abruptamente também vai cair muito abruptamente.

P.: Na avaliação de muitos economistas, o BC errou quando manteve a Selic no menor patamar histórico, em 2%, e demorou a voltar a subir a taxa. Acha que foi um erro?

FK: Foi, não tenho dúvida. O BC tem de colocar a inflação na meta; se errou, não tem esse negócio de "veja bem". Coloco minha mea culpa. O efeito líquido foi muito mais inflação do que a gente esperava. Erramos. Outro erro dá dica do que está acontecendo nos Estados Unidos. A gente falava que os auxílios emergenciais estavam segurando a economia, puxando a inflação e que, quando acabassem, teria um ‘fiscal cliff’ [abismo fiscal]. O que aconteceu na prática? Nada disso. Os ricos saíram consumindo toda a poupança que geraram e mantiveram o mercado de trabalho aquecido, com salário para os mais pobres e a economia andou. Tem gente dizendo que a economia americana já está em recessão porque os pobres não têm mais o que consumir. O nosso ponto é que não, os ricos estão cheios de dinheiro. A recessão da economia americana ainda não é para agora, vai demorar mais tempo para acontecer.

P.: Alguns economistas falam que, junto com a transparência, vieram também alguns ruídos de comunicação. Como encara essa crítica?

FK: Eu, pessoalmente, não compro tanto essa de que o mercado se confunde. Acho que entende direitinho. Outro [problema] é a humilhação pública. Quando você fala transparentemente que vai para um lado e a coisa não acontece, vem crítica adoidado. E se apanha muito mais mesmo, mas vamos em frente. Eu estou mais inclinado a ter mais transparência.

P.: De que forma uma recessão nos EUA poderá gerar efeitos na economia brasileira?

FK: Recessão nos EUA tem efeitos perversos, a economia sofre no mundo inteiro. O efeito para o Brasil é tanto da atividade mais fraca como da moeda mais desvalorizada. Dessa vez, acho que vai ter um lado positivo. Quando tiver a desaceleração dos EUA, vai ter efeito de menos inflação no Brasil. Para o BC, mais importante que o dólar, que é uma coisa momentânea, é a inflação mundial, que vai cair. Na minha cabeça, a recessão no Brasil acontece antes do que a recessão nos Estados Unidos. O Brasil está adiantado, a gente começou a subir juros muito antes, já estão super apertados aqui. Os Estados Unidos estão atrasados, lá [a recessão] deve ocorrer mais tarde, se aqui é no fim do ano, lá é mais para a metade do ano que vem.

P.: De um lado, espera-se uma desaceleração da economia com os efeitos defasados da política monetária. De outro, o governo tem aprovado medidas que estimulam a atividade econômica. O quanto isso dificulta o trabalho do BC?

FK: Se não tivesse esse novo estímulo, talvez o BC não precisasse dar 0,5 ponto percentual agora, poderia precisar de menos juros. Talvez desse para ver a economia desacelerando já no terceiro trimestre e [o BC] pudesse parar também antes.

P.: O BC se encaminha para estourar a meta de inflação pelo segundo ano consecutivo e começa a ver 2023 sob risco. Qual sua análise sobre esse cenário?

FK: Esse ano estoura a meta, não tem jeito. Ano que vem, para mim, ainda tem jogo. Para mim, a inflação cai muito abruptamente, então, não está dado que vai estourar no ano que vem.

P.: O contexto atual também traz de volta a discussão sobre o aumento do risco fiscal. Como vê isso?

FK: Tudo indica que o risco fiscal vai continuar, tem um tremendo desafio fiscal para o ano que vem. Um novo formato para o teto de gastos, [que] vai ser transformado em alguma coisa distinta, independentemente de quem ganhe a eleição. Todo mundo ansioso para ver como isso vai ser feito. E vão voltar a ser feitas as contas sobre sustentabilidade da dívida. Não foi resolvido, a gente vai continuar com esse problema, com essa espada em cima da cabeça, mais uma coisa que faz o BC precisar de mais juros. Com fiscal pior, juro neutro fica maior. O juro neutro era em torno de 6% em termos reais na época da Dilma [Rousseff] e caiu para 3%. Agora voltou a subir e já está em 4%.

P.: Como a possibilidade de medidas tidas como temporárias, como o Auxílio Brasil de R$ 600, se tornarem permanentes alimenta o temor de risco fiscal?

FK: Está com toda a cara de que vai ficar permanente, independentemente do governo, e vai ter de ser resolvido já para o primeiro ano como esse auxílio de R$ 600 vai caber no Orçamento. Tem de encontrar algum jeito de tirar do teto ou pedir um 'waiver' [perdão ou licença], não sei qual vai ser o formato, mas não cabe no teto original.

P.: Qual sua análise sobre a eleição e seus possíveis riscos?

FK: Nas eleições passadas, era muito claro quem era o queridinho do mercado e quem era o inimigo do mercado, que a política econômica seria muito diferente em termos de responsabilidade fiscal. Dessa vez, não tem um querido e um inimigo. As políticas econômicas são diferentes, Lula é muito mais intervencionista que Bolsonaro. Mas, em termos de responsabilidade fiscal, não é tão claro como vai ser. No cenário Lula, vai ter mais imposto e mais gasto; no cenário Bolsonaro, menos imposto e provavelmente menos gasto. Mas no líquido não é óbvio qual vai ser melhor ou pior. Não está sendo uma eleição tão crucial para o mercado financeiro. Comparada com as anteriores, está mais tranquila.

P.: Mais tranquilo talvez porque já são dois nomes conhecidos do mercado?

FK: Não por serem conhecidos, porque nenhum dos dois parece inclinado a fazer uma política fiscal muito irresponsável.

P.: O Lula defendeu que o BC também tenha metas de emprego e crescimento. Acha viável?

FK: A melhor forma de o BC garantir mais emprego e mais crescimento é por meio do combate à inflação. Não é que tenha um antagonismo nisso, já está na lei e já está sendo feito e não afeta a forma como a política monetária é conduzida.

P.: Em 2021, o que mudou, na prática, com a autonomia do BC?

FK: O grande ganho é agora, quando talvez troque o governo de Bolsonaro para Lula, e o Roberto [Campos Neto] continue como presidente do BC. Isso é um ganho, para mim, relevante. Poderia ter alguma coisa do tipo 'se o Lula ganhar, quem será que ele vai colocar no BC?'. No fim, acho que ele iria colocar alguém competente, como fez da outra vez. Mas, dessa vez, não tem ruído, são mais dois anos de Roberto.

RAIO X

Fabio Kanczuk, 53

Engenheiro eletrônico pelo ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), com mestrado e doutorado em economia pela Universidade da Califórnia e pós-doutorado em Harvard. Hoje, é responsável pela área de macroeconomia da ASA Investments. De 2019 a 2021, foi diretor de Política Econômica do Banco Central. Antes, atuou como diretor-executivo para o Brasil e outros oito países junto ao Banco Mundial, tendo sido secretário de Política Econômica entre 2016 e 2018.

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