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Negros LGBTQIA+ chegam a milhões com humor, beleza e sexualidade pelas redes sociais

·9 min de leitura

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Redes sociais são questionadas por se tornarem veículos para a disseminação de discurso de ódio e fake news, mas são nelas também que a população negra LGBTQIA+ hoje encontra espaço para falar sobre diversidade.

Influenciadores negros que têm contribuído ativamente com o debate sobre sexualidade e diversidade estão hoje no Instagram, Twitter e TikTok.

Raphael Vicente, 21 anos, é um deles. Negro, gay e morador do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, favela com cerca de 140 mil habitantes, ele bomba no TikTok. Tem 2,3 milhões de seguidores.

Vicente faz produções para redes sociais desde os 14 anos, mas ganhou fama no TikTok, em 2020, com vídeos de humor sobre tema do cotidiano que ele mesmo roteiriza e edita. Os personagens são membros da própria família. A avó, a madrinha, o cachorro de estimação.

Uma das postagens mais conhecidas defende a campanha de vacinação da Covid-19. Nele, Vicente e sua família explicam medidas de combate à pandemia e como funciona a imunização contra a doença. Com linguagem clara, direta e bem-humorada, o vídeo termina com uma coreografia funk. O post teve quase 70 mil compartilhamentos no Twitter.

Ele afirma que já pensou em ser bailarino, mas o seu trabalho na rede social se transformou na principal fonte de renda --e também espaço para ativismo. "Muitos influenciadores não se posicionam, mas eu não quero ser só mais um", diz.

Vicente defende ser importante mostrar a realidade que conhece. "O que eu sou hoje em dia é por causa da carga cultural que tive aqui dentro, na Maré", diz. "E mesmo não falando claramente sobre as pautas que me são mais importantes, eu quero que elas estejam inseridas no que estou fazendo."

Ele acredita que a visibilidade do seu trabalho numa rede como o TikTok pode inspirar outros jovens que têm os mesmos dilemas e origem. "Criando conteúdo com minha realidade, eu posso incentivar outras pessoas que vivem como eu a criarem alguma coisa, mostrar que elas também podem fazer isso, independente do lugar onde moram."

'Soltei tudo que sempre quis' Doug Oliver, 22, compartilha desse sentimento. Ele conta que sempre quis trabalhar com a internet, mas não tinha referências de criadores que o representassem. Além disso, era muito tímido, e sempre que postava um vídeo no YouTube, acabava apagando por vergonha.

Mesmo assim, o jovem nunca parou de tentar, e encontrou a ferramenta ideal: os stories do Instagram, lançados em 2016, que têm a vantagem de sumir após 24 horas. "Naquela época as pessoas postavam coisas luxuosas, e eu não tinha isso, decidi só mostrar a minha vida."

Hoje, o menino que apagava seus vídeos é produtor de conteúdo. Compartilha looks, maquiagens e vídeos de humor diariamente. Tem mais de 500 mil seguidores no Instagram e no TikTok.

Mas seu sucesso não foi construído sozinho. Para ele, um dos maiores motivos para sua ascensão foi ter unido amigos para a criação do canal Mansão das Poc (termo utilizado para se referir a membros da comunidade LGBTQIA+). O grupo vive na mesma casa e compartilha a sua rotina doméstica com quase 500 mil inscritos no YouTube.

"Quando eu era um espectador, não havia muitos criadores de conteúdo como eu: afeminado, negro, que não tem problemas em colocar um cropped [mini blusa que deixa barriga à mostra] e sair na rua. Hoje, muitas pessoas negras chegam em mim e falam que sou uma inspiração. Sempre fico muito feliz quando isso acontece", diz ele.

Por performar a feminilidade abertamente, Doug não escapou da homofobia. Ele conta que já foi vítima de vários ataques e já chegou a ser ameaçado de morte na rua por causa da forma como se veste.

"Quando a gente é uma pessoa LGBT e negra, já está preparado para isso. Eu já saio com a ideia de que eu vou ter que, de alguma forma, me defender de um ataque", afirma.

Também já foi alvo de ofensas na internet. Um dos momentos mais marcantes ocorreu quando uma postagem do Mansão das Poc foi retirada de contexto.

Na ocasião, Doug e seus amigos gravaram uma comemoração pela saída de Felipe Prior do BBB20. Figura polêmica na casa, Prior foi criticado pelo público por suas declarações consideradas machistas e homofóbicas.

Essa gravação virou meme em outras páginas da internet. Numa delas, veio o erro: o grupo estaria comemorando que o presidente Jair Bolsonaro havia sido diagnosticado com Covid, o que provocou comentários ofensivos nas redes do influenciador.

Hoje, ele afirma estar vivendo exatamente do jeito que gostaria. "Eu soltei tudo aquilo que sempre quis ser."

'Entrei na produção de conteúdo para sanar uma dor' Para Tássio Santos, 28, a internet também foi um lugar de descoberta. O influenciador cresceu com paixão pela arte, desenhando e pintando desde muito jovem na cidade de Santo Estevão (BA), onde nasceu. Às escondidas, também tinha outro hobby: assistir a tutoriais de maquiagem.

Por medo de represálias, Tássio passou uma boa parte da vida sem conseguir exercer aquilo que desejava. Precisou esperar até entrar no curso de jornalismo da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano), onde teve maior liberdade para pôr em prática o que havia aprendido nos tutoriais. "As mãos nervosas que pintavam telas tinham a necessidade de pintar rostos", diz.

Após começar a exercer a profissão de maquiador, começou a ficar incomodado com um detalhe: não havia negros nos conteúdos sobre maquiagem que ele mesmo consumia nas redes. Tássio decidiu, então, criar uma página no Facebook para divulgar o seu trabalho.

Primeiro, utilizou a plataforma para vender produtos, mas logo começou a fazer postagens sobre a pele negra e percebeu que outras pessoas também buscavam representatividade.

Assim, em 2012, nasceu o Herdeira da Beleza, blog voltado para a valorização da estética negra. Hoje, além de manter o blog, Tássio produz vídeos para seus perfis no YouTube, no Instagram e no TikTok, que juntos somam mais de 770 mil inscritos. Ele também continua com seu trabalho de maquiador profissional e oferece cursos na área.

Para o influenciador, a maquiagem pode ter vários papéis, inclusive de exclusão. Mas Tássio foca o poder que ela tem de reconstruir a autoestima negra, alvo do racismo.

Além de dar dicas e fazer tutoriais, Tássio convoca seus seguidores a cobrarem produtos de maquiagem que contemplem todos os tons de pele negra.

O criador de conteúdo também compartilha suas experiências enquanto homem gay com seu público. Ele conta que logo quando começou a fazer tutoriais, recebeu comentários homofóbicos, rejeição de parentes e teve até contratos rejeitados por usar maquiagem em seus vídeos.

Hoje, diz ter coragem para tocar nesses assuntos e faz questão de trazer a pauta LGBTQIA+ em seu trabalho. "Faço isso para as pessoas não acharem que eu tenho que assumir algum estereótipo. Eu gosto de assumir a direção da minha história."

'Meu trabalho é falar tudo o que eu queria ter ouvido' O papel de inclusão da maquiagem foi de grande importância para Nick Nagari, 24, criador de conteúdo voltado para pessoas trans e bissexuais. Ele conta que desde criança desejava se maquiar, mas não conseguia encontrar um tom da mesma cor que sua pele. Apenas em 2016 conseguiu itens com o seu tom, e afirma ter descoberto um mundo de possibilidades.

Mas a descoberta também gerou conflito, pois sua primeira maquiagem veio justamente na época em que ele estava se descobrindo uma pessoa transgênero. Antes socializado como mulher, Nick entendeu que não se encaixava naquele rótulo. "Eu pensava: 'ou eu sou uma pessoa trans, ou eu uso maquiagem'", diz.

Ele conta que, durante o processo inicial de descoberta, tentou se adequar ao gênero masculino, pensando que seria a única opção. Mas também não se sentiu confortável. Hoje, ele se entende como uma pessoa trans não binária, ou seja, que não se identifica como homem nem como mulher. Mesmo assim, prefere utilizar os pronomes masculinos.

Nick começou seu trabalho na internet em 2015, falando sobre bissexualidade. Ele afirma que ganhou mais visibilidade quando começou a compartilhar suas experiências da transição de gênero, no ano seguinte. Hoje, tem mais de 45 mil seguidores no Instagram, plataforma onde veicula a maior parte de seu conteúdo, e 54 mil no TikTok.

Após anos produzindo conteúdo, foi em 2020 que conseguiu transformar o trabalho na internet em profissão. Além do dinheiro da publicidade, Nick escreveu um conto, tem contrato fechado para a publicação de um livro e dá palestras sobre diversidade em empresas, de onde vem a maior parte de sua renda.

Para se apresentar em empresas, voltou a comprar itens de maquiagem e reavivou sua paixão. Hoje, enxerga se maquiar como uma forma de arte e repensou sua relação com os produtos.

"Quando as pessoas entendem a transgeneridade como a recusa a um estereótipo, elas esquecem que existem pessoas que nunca tiveram acesso a isso. Eu nunca pude ser uma pessoa arrumada, vaidosa. Por isso, hoje eu quero poder experimentar", diz ele. "A nossa identidade nunca pode ser um 'não pode', mas sempre ser um 'faça o que quiser'."

Com esse olhar, Nick busca lançar reflexões sobre o que significa ser uma pessoa trans, trazendo, também, recortes de raça. Seu conteúdo é voltado para ajudar pessoas de dentro da comunidade.

Assim como outros influenciadores, sua descoberta foi marcada por dificuldades. Ele não tinha referências de pessoas não binárias, sua mãe teve dificuldade de aceitar a transição e o influenciador precisou esconder sua identidade de parte da família. Além disso, era cristão, e considerava ser LGBTQIA+ um pecado. Dizia que esconderia isso para sempre.

"Por isso, falar de bissexualidade na internet é provar para esse Nick de 16 anos que a gente pode existir", afirma.

Hoje, sua mãe o apoia, interage com seus conteúdos, sugere pautas e busca entender a identidade de gênero do filho. "Foi uma virada que nem eu esperava que fosse acontecer", diz Nick. Após mudar oficialmente seu nome no cartório, em 2019, o influenciador contou sobre a transição para toda a família. A maior parte dela também o apoia.

"Meu trabalho é falar tudo o que eu queria ter ouvido. Eu quero que adolescentes não passem por uma descoberta como a minha, que foi muito difícil. Quero que as pessoas de 15 anos de hoje não sofram o que eu sofri dez anos atrás."

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