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Negociar pacto Reino Unido-UE será difícil, diplomatas alertam

Nikos Chrysoloras, Samy Adghirni e Bryce Baschuk

(Bloomberg) -- Se o Reino Unido tiver qualquer esperança de alcançar de maneira rápida ou fácil um acordo pós-Brexit com a União Europeia, basta falar com quem já negociou com o bloco europeu para saber que a realidade será dura.

Negociadores que trabalharam em outros acordos de acesso ao mercado com a UE descrevem o processo como profundamente frustrante. “A Europa ainda tende a se considerar como o centro do mundo”, diz Aloysio Nunes, que, como chanceler do governo de Michel Temer, ajudou a costurar o acordo entre a UE e o Mercosul.

Outros interlocutores da UE, que falaram sob condição de anonimato, são mais diretos do que Nunes. Um deles descreveu a atitude das equipes da Comissão Europeia como condescendentes; outro disse que o braço executivo da UE chega a manipular diplomatas no lado oposto da mesa; um terceiro recorreu a repetidos palavrões para comentar a estratégia do bloco.

O sucesso dessas táticas depende de quanto o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, de fato buscará um acordo abrangente após a saída do país da UE em 31 de janeiro. Os dois lados nem sequer começaram a discutir formalmente os termos de sua relação futura, mas já estão em desacordo: Johnson quer se libertar do que considera regras restritivas de Bruxelas, enquanto Bruxelas quer manter o Reino Unido bem alinhado. Para a UE, qualquer divergência vai custar ao Reino Unido o acesso ao seu maior e mais próximo mercado.

Negociações comerciais costumam ser marcadas por muita tensão em meio a equipes práticas e realistas que tentam ganhar vantagem a portas fechadas. A esse respeito, a UE usa seu peso econômico para obter concessões de parceiros que desejam ter acesso a um lucrativo mercado de exportação. O risco para a UE, no entanto, é que suas demandas possam ser tão onerosas que Johnson desista até mesmo de um acordo comercial restrito - um fracasso que prejudicaria ambas economias.

A comissão iniciará negociações com o Reino Unido em nome dos 27 estados restantes da UE no próximo mês. Diplomatas que trabalharam em acordos com o bloco dizem que a UE tende a adotar uma abordagem de pegar ou largar nas negociações, apresentando um modelo, muitas vezes copiado e colado de seus próprios acordos anteriores. A partir disso, como descreve uma autoridade, diz para o lado oposto: “somos grandes e você é pequeno, por isso não reclame”.

O Reino Unido já passou por essa situação durante as tensas negociações sobre a saída da UE. E a estratégia funcionou bem para Bruxelas. Os termos de retirada do Reino Unido - como o projeto de lei de separação, os direitos dos cidadãos e o futuro da Irlanda do Norte - são todos amplamente baseados nas propostas iniciais da comissão.

Abordagem ‘colonial’

Enquanto negocia, a UE costuma apresentar suas ideias como bem-intencionadas, destinadas a promover os interesses do outro lado, segundo duas autoridades. “Eles se apresentam como bons negociadores civilizados, mas te arrancam o couro”, disse um deles. O outro descreveu a abordagem como “colonial”.

Uma manobra padrão da comissão é exigir tudo de antemão, incluindo a eliminação total de tarifas e outras concessões, ao mesmo tempo em que exclui áreas da discussão, citando a sensibilidade dos estados membros da UE.

“Não é fácil falar em nome de tantos países com situações domésticas tão diferentes”, afirma Nunes. Essas considerações internas, na verdade os interesses nacionais dos grandes estados membros da UE, podem ser usadas frequentemente para segurar o processo, diz outra autoridade.

Negociadores experientes

Autoridades disseram que as negociações com a comissão tendem a se prolongar até que um acordo seja alcançado. Mas o Reino Unido não terá essa opção, porque Johnson descartou estender o período de transição além do fim do ano, havendo acordo pós-Brexit ou não.

Fechar um acordo vantajoso com a UE em tão pouco tempo será um desafio, até porque a comissão tem décadas de experiência negociando acordos comerciais - mais recentemente com o Canadá, Japão e países do Mercosul.

O Reino Unido, por outro lado, como todos os estados membros da UE, havia terceirizado a tarefa das negociações comerciais para a comissão, já que carece de memória institucional e profissionais suficientemente experientes nessa área.

“Os europeus são negociadores difíceis”, diz Nunes, o que pode ser um eufemismo.

--Com a colaboração de Jonathan Stearns.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Nikos Chrysoloras Brussels, nchrysoloras@bloomberg.net;Samy Adghirni em Brasília, sadghirni@bloomberg.net;Bryce Baschuk em Genebra, bbaschuk2@bloomberg.net

Para entrar em contato com os editores responsáveis: Chad Thomas, cthomas16@bloomberg.net, Edward Evans (News), Richard Bravo

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