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NBA: como um estudo racista dos anos 30 ajuda a minar a confiança dos atletas na vacina

Vitor Seta
·5 minuto de leitura

Com uma população estimada em 328 milhões de pessoas, os Estados Unidos ultrapassaram, na última sexta-feira, a marca de 200 milhões de doses aplicadas de vacinas contra a Covid-19. Em um dos países mais afetados pela pandemia, e também dos que agiram de forma mais rápida pelos imunizantes, a campanha de vacinação ainda enfrenta um obstáculo: a desconfiança. Esta tem gerado reflexos imediatos no basquete, um dos principais esportes do país.

Conhecido pelo seu posicionamento forte e engajamento em inúmeros questões políticas e raciais, o astro LeBron James chamou a atenção ao dizer que não tornaria pública sua decisão sobre se vacinar:

— É uma conversa que terei com a minha família. Vou manter isso como um assunto particular.

Nos últimos meses, a NBA vem tentando convencer atletas e funcionários de suas equipes a aderirem aos imunizantes e promovê-los, um esforço que mobilizou lendas do esporte, como Kareem Abdul-Jabbar, Jerry West, Bill Russell e Julius Erving. Os ex-jogadores gravaram os momentos de suas vacinações e mensagens de incentivo para o “NBA Cares”, campanha envolvendo temas sociais e serviços à comunidade da liga. Mas o progresso ainda tem sido lento.

A liga anunciou, em março, que flexibilizaria as regras envolvendo uso de máscaras e encontros fora de quadra para equipes que já estivessem com 85% do seus quadros vacinados. Tanto incentivo é reflexo de uma dificuldade em ganhar a confiança dos atletas, cuja visão sobre a vacina varia radicalmente entre o “de jeito nenhum” e o “por que não tomar ainda mais cedo?”, nas palavras de Michele Roberts, diretora-executiva da associação de jogadores (NBPA), em entrevista de fevereiro ao portal americano Yahoo Sports.

Na entrevista, Roberts menciona um fator que tem adicionado ainda mais camadas ao problema quando se fala na comunidade negra americana, que compõe a maior parte do quadro de atletas da NBA: as memórias do experimento de Tuskegee, entre os anos 30 e 70.

O estudo foi o caso que ganhou mais repercussão entre uma série de procedimentos antiéticos e racistas praticados em pesquisas no país durante o início do século XX, décadas antes do surgimento dos movimentos pelos direitos civis. A pesquisa, organizada pelo serviço de saúde público americano na Universidade de Tuskegee, no Alabama, reuniu 399 homens com sífilis e prometeu a eles tratamento de saúde gratuito.

Sem consentimento dos participantes, foi administrado placebo, um remédio sem qualquer efeito, visando à observação da evolução da doença quando não tratada em afro-americanos. A pesquisa durou de 1932 a 1972, quando foi encerrada após repercussão na imprensa do país, e terminou com 128 mortes, 28 delas diretamente relacionadas à doença e 100 por complicações ligadas a mesma.

— Mesmo depois de 1947, quando a penicilina já tinha sido descoberta como um remédio bom e efetivo para a sífilis, continuaram não dando remédio à população — lembra Lise Sedrez, professora do Instituto de História da UFRJ.

Na época, o governo americano foi condenado a pagar uma indenização de 10 milhões de dólares, bem como custear os tratamentos dos filhos dos participantes que nasceram infectados com a doença. Em 1997, o então presidente do país, Bill Clinton, pediu desculpas públicas pelo estudo.

—Em muitas ocasiões, nós fomos as cobaias da ciência — diz Michele Roberts.

'Nós não esquecemos'

Em dezembro, o técnico do Philadelphia Sixers, Doc Rivers, se disse a favor da vacina, mas lembrou do estudo ao dizer entender a desconfiança:

— Vamos ser honestos: eu entendo as suspeitas também, especialmente por ser um homem negro e por conta de Tuskegee. Nós não esquecemos coisas assim — disse, em declarações reproduzidas pelo jornal “USA Today”.

Entre os jogadores, nomes como Dwight Howard (Sixers), Michael Porter Jr. (Denver Nuggets), Kent Bazemore e Andrew Wiggins (Golden State Warriors) já se posicionaram publicamente contra o imunizante. Wiggins chegou a mencionar que só tomaria se fosse obrigado pela liga, que, por sua vez, deixa os atletas livres para optarem.

Lise Sedrez explica que, apesar de Tuskegee ser o caso mais famoso, outros estudos com práticas antiéticas ajudaram a construir essa desconfiança entre a comunidade negra e outras populações vulneráveis:

— Tuskegee não era um ponto fora da curva. Historicamente, havia o uso de corpos negros com muita frequência pela medicina no passado. Há todo um outro histórico, que tem que ser levado em consideração, de dificuldades dessa população de ter acesso à medicina, dificuldades que são correntes, não são de ontem.

NBA realiza palestras

Em dezembro, uma pesquisa da Kaiser Family Foundation apontava que, entre a população negra norte-americana, 52% aguardaria antes de procurar a vacinação, enquanto cerca de 20% se vacinaria imediatamente. Os números cresceram após atualização em março: agora, 55% afirma que procuraria a imunização imediatamente (ou já está imunizado) e apenas 24% dos entrevistados seguem afirmando que aguardarão para observar.

De olho nesses números, a NBA vem realizando uma série de palestras e conversas particulares para tentar deixar seus atletas confortáveis sobre o assunto, iniciativa liderada pelo vice-presidente médico Leroy Sims, que esteve à frente da “bolha” da temporada passada. Franquias como Pelicans, Hawks e Timberwolves já anunciaram que começaram a vacinar seus elencos.

Especialista em bioética, Tatiana Tavares, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ressalta a importância da transparência.

— Em políticas de de saúde pública, de tratamento médico, você só consegue a aderência quando o paciente tiver compreendido. Ele não vai ser convencido se tiver medo.