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Napoleão gera dilema por lembrar que França foi construída com militarismo e escravidão, diz historiador

·6 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Napoleão Bonaparte ajudou a criar as bases da França atual: um país com um Estado organizado, que tenta garantir uma vida confortável e valoriza a educação e as artes. No entanto, esse modelo de país foi alcançado também por conta de vitórias militares e do trabalho escravo, e lembrar disso gera um dilema para os franceses, avalia o historiador Adam Zamoyski.

A morte do imperador completa 200 anos nesta quarta (5), e a França debate se deve celebrar ou não seu legado. Alguns nomes de esquerda e ativistas pelos direitos civis o questionam por ter cancelado a abolição da escravidão, em 1802, e por ter criado um Código Civil que colocava as mulheres em posição subalterna. Já líderes de extrema direita, como Marine Le Pen, o elogiam por seu talento militar e pulso firme.

O presidente francês Emmanuel Macron levou uma coroa de flores ao túmulo do imperador, em Paris, nesta quarta. Foi o primeiro líder do país a homenageá-lo desde 1969, quando foi celebrado o bicentenário de seu nascimento, segundo a agência de notícias AFP.

Macron disse que Napoleão foi complexo e merece ser analisado de frente. Ele pediu que os franceses não cedam à tentação de julgar o passado com as leis do presente. O presidente elogiou o imperador por fortalecer o Estado e unir o país, mas o criticou por não se importar com o grande número de mortos nas batalhas e por retomar a escravidão.

Para o historiador britânico Adam Zamoyski, 72, que escreveu dois livros sobre Napoleão, o líder francês (1769-1821) tinha uma visão pragmática sobre o trabalho forçado --ele trazia resultados-- e era até um pouco progressista sobre as mulheres --chegou a facilitar o divórcio, por exemplo.

Autor de "Napoleão - O Homem por Trás do Mito" (ed. Crítica) e "1812 - A Marcha Fatal de Napoleão Rumo a Moscou" (ed. Record), Zamoyski aponta também que as visões sobre o estadista francês mudaram várias vezes ao longo da história. Ele conversou com a reportagem por email.



PERGUNTA - Como vê a polêmica atual na França sobre o legado de Napoleão?

ADAM ZAMOYSKI - Napoleão segue sendo um problema fundamental para os franceses. Ele foi uma figura imponente que resume um período no qual a França liderou o mundo em muitas esferas. Foi uma grande força na criação do mundo moderno. Apesar de muitas mudanças de regime, a França de hoje ainda é a França que ele criou. E as estruturas e procedimentos da maioria da Europa (e de muitos países ao redor do mundo) são profundamente influenciados por sua visão de mundo, que ele foi capaz de aplicar a instituições de todo tipo.

Portanto, é muito difícil para qualquer francês tratá-lo como uma mera figura histórica. Ele está presente ao redor delas na forma das instituições que deixou. Em uma era em que o militarismo e o nacionalismo estão fora de moda e instituições como a escravidão são condenadas, isso coloca a maioria dos franceses em um dilema.

Alguns grupos criticam Napoleão por ter reinstaurado a escravidão. Como ele lidou com a questão?

AZ - Napoleão era um pragmático. A única coisa que ele queria era recuperar as colônias francesas, que eram um ativo econômico para a França, e ter elas operando de modo eficiente. A escravidão tinha se provado muito eficiente em produzir esses resultados, então ele era inclinado a conservá-la, particularmente porque os franceses que viviam nas colônias estavam determinados a mantê-la. Temos que ver as ações das pessoas pelos olhos de seu tempo, assim como as questões que nos preocupam hoje serão vistas como absurdas, ou talvez más, para as futuras gerações.

Napoleão é elogiado por ter criado um Código Civil, mas é criticado atualmente porque esse código colocava as mulheres em segundo plano. Como era a relação de Napoleão com as mulheres?

AZ - Ele tinha uma atitude muito mediterrânea com as estruturas sociais, começando com a família, e a mulher tinha um lugar muito específico na família. De muitas maneiras, elas eram uma base, mas também seu pilar mais frágil. Napoleão era um pouco obcecado por controle, odiava "desordem" e era também um orgulhoso moral: gostava de seduzir mulheres, mas considerava as que havia seduzido como decaídas. Foi por isso que ele as cercou com várias cláusulas em seu Código. Mas ele também tornou o divórcio muito mais fácil. De novo, temos que ter em mente os tempos em que ele viveu. Suas visões eram, de alguma forma, mais progressistas que as dos seus contemporâneos.

Como a visão dos historiadores sobre ele mudou ao longo destes 200 anos, especialmente nas últimas décadas?

AZ - Mudou imensamente, principalmente nos últimos 30 anos ou mais, à medida que uma nova geração de historiadores franceses usou os bicentenários [de nascimento e morte] para reavaliar muitas coisas que eram consideradas como gravadas em pedra.

Em 1815, com a restauração da monarquia dos Bourbon, Napoleão passou a ser visto oficialmente como um monstro. A monarquia de Louis-Philippe em 1830 o reabilitou, seu sobrinho Napoleão 3º [que governou de 1848 a 1852] o idolatrou, e desde então a maioria dos franceses tem aceitado ele como uma grande figura histórica cujo legado é, em geral, positivo. E muitos, não só na França, são muito suscetíveis ao imaginário de "glória" de Napoleão, com seus maravilhosos uniformes e feitos militares épicos.

Um dos principais legados de Napoleão foi o modelo de Estado organizado, comandado por burocratas. Atualmente, muitos políticos atacam esse modelo e colocam esses funcionários como inimigos do povo. Como vê essa questão?

AZ - A principal meta de Napoleão ao tomar o poder em 1799 foi acabar com o caos e a demagogia começada com a Revolução Francesa de 1789. Ordem e estabilidade eram o que todos na França queriam depois de dez anos de combates violentos e guerra civil. Ele conseguiu isso ao criar novas estruturas para ordenar tudo, dando a cada um um papel na sociedade, na economia, no Estado, no Exército etc.. Muita gente gostou disso. As pessoas se sentiam seguras e sabiam seus lugares.

O problema é que esse estado de coisas gera uma enorme burocracia, amplamente ineficiente, e instituições que não veem outro objetivo além de sua própria perpetuação. É por isso, por exemplo, que as estruturas da União Europeia são totalmente incapazes de reformarem a si mesmas.

Em seu livro, o senhor diz considerar que Napoleão foi um homem bastante comum. Como chegou a essa conclusão?

AZ - Eu apenas lembrei às pessoas que ele não era um tipo de gênio divino. Ele era um homem como o resto de nós. Em alguns aspectos, ele era um pequeno homem enfadonho com gostos limitados. O que o fez extraordinário foram os eventos em que ele se envolveu, além de sua habilidade de surfar essa grande onda, com sucesso, por tanto tempo. Mas quando ele caiu, como vemos em Elba e Santa Helena [ilhas onde foi exilado], voltou a ser um chato.

Raio-x

Adam Zamoyski, 72

Nascido em Nova York, em uma família de origem polonesa, cresceu no Reino Unido e se graduou em História e Línguas Modernas em Oxford, em 1970. Escreveu 12 livros, com temas como Napoleão, a Revolução Francesa e a história da Polônia.

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