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‘Não dá mais para comprar carne’, relata mãe sobre viver com auxílio emergencial reduzido

Alma Preta
·4 minuto de leitura
Mães negras contam como a redução do auxílio emergencial para R$ 300 agravou ainda mais a situação financeira na pandemia; No Brasil, número de pessoas que passam fome tem aumentado. Foto: Acervo Pessoal
Mães negras contam como a redução do auxílio emergencial para R$ 300 agravou ainda mais a situação financeira na pandemia; No Brasil, número de pessoas que passam fome tem aumentado. Foto: Acervo Pessoal

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Na casa da atendente de lanchonete Cinthia Bonfim Teodoro, 35 anos, a redução do valor do auxílio emergencial de R$ 600 para R$ 300, a partir de setembro, agravou ainda mais a situação financeira de sua família que já enfrentava dificuldades desde o início da pandemia da Covid-19, o novo coronavírus.

“Fui demitida na pandemia e não consigo outro emprego. Pago R$ 450 de aluguel e agora não dá mais nem para comprar carne”, conta Cinthia, que mora no Jardim Amália, na zona sul de São Paulo e é mãe solo de três crianças. “Conto com a ajuda dos amigos. Meu microondas pifou e os móveis estão quebrados, tem armário caindo das paredes. Ainda bem que moro perto da associação Pequeno Mestre e lá tem recreação para as crianças e distribuição de cesta”, acrescenta.

No dia 16 de outubro, durante um evento virtual promovido por uma empresa do setor financeiro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reforçou que, além de o valor do auxílio emergencial ter sido reduzido até dezembro, não haverá prorrogação.

“Não há qualquer plano para estender o auxílio, nenhum. Isso não é verdade. Essa não é nossa intenção, não é o que o presidente disse. Não é o que o ministro da Economia quer. De jeito nenhum”, afirmou.

Por outro lado, as famílias que recebem o benefício e tiveram a renda ainda mais comprometida buscam uma adaptação para sobreviver sem perspectivas de melhoras. A dona de casa Enivalda dos Santos Silva, 58 anos, mora na Cachoeira, na zona norte da capital paulista, em uma casa com o marido e dois filhos, todos desempregados. Ela recebia o auxílio de R$ 1.200 e caiu para R$ 600.

“Está muito difícil. Não dá nem para passar o mês. Os preços subiram muito. Arroz, óleo, feijão, tudo encareceu. O gás estava R$ 60 e subiu para R$ 75. A carne, então, está muito cara. Deixamos de comprar mistura”, relata.

Entre abril e setembro, a inflação oficial, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), acumulou uma alta de 0,81%. O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) apura que o valor da renda necessária para manter uma família de quatro pessoas é de R$ 4.694,57. O valor do auxílio emergencial de R$ 300 equivale a 6,13% do mínimo necessário para manter uma família.

“Quando a pandemia nos atingiu, nós criamos um regime emergencial. Agora, nós não podemos utilizar a desculpa do regime emergencial para explodir o teto de gastos”, disse o ministro Paulo Guedes, ainda no evento da empresa corretora de investimentos.

Fome

Em setembro, mês em que o governo iniciou o pagamento dos R$ 300, também saíram os dados mais atualizados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017 e 2018, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que revelou o perfil da insegurança alimentar no Brasil.

Dos 207,1 milhões de brasileiros, 84,9 milhões vivenciam a insegurança alimentar, que acontece quando a família não tem acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. Existem três níveis de segurança alimentar: leve, moderado e grave.

No Brasil, são 56 milhões com insegurança alimentar leve, 18,6 milhões no nível moderado e 10,3 milhões com insegurança alimentar grave. A grave é quando há redução quantitativa severa de alimentos também entre as crianças, ou seja, ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos entre todos os moradores. Nessa situação, a fome passa a ser uma experiência vivida no domicílio.

Os 10,3 milhões com insegurança alimentar grave, que é passar fome, são 12,1% do total de pessoas com insegurança alimentar no Brasil. São 7,7 milhões nas áreas urbanas e 2,6 milhões na zona rural. A estimativa é que a insegurança alimentar grave esteja presente em 3,1 milhões de lares.

Conviver com a insegurança alimentar é uma realidade na casa da dona Enivalda, que ainda precisa pagar R$ 600 por mês de aluguel. “A gente tem que passar com o que dá para comprar que é feijão, arroz, farinha e ovo. Não compramos mais leite. Na região tem muitas outras famílias passando dificuldades também”, revela.