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A nada glamourosa origem do Post em Branco, um alerta sobre ansiedade

·6 minuto de leitura

Foram 227 posts no Instagram, todos em branco, sem texto, numa sequência que foi mal recebida pela maioria das pessoas impactadas na hora em que foram publicados. Houve quem se aborrecesse. Alguns desconfiaram de um ataque hacker. E poucos procuraram o autor para saber se estava tudo bem. A verdade é que essa foi a maneira que o publicitário Daniel Portuga encontrou para expressar sua angústia no dia 25 de abril de 2020. Ele estava sofrendo sua pior crise de ansiedade desde que se mudara para Nova York, onde vive há pouco mais de quatro anos.

Aquela manifestação nascida em um momento grave acabou por se tornar um experimento que objetiva ajudar outras pessoas que padecem do mesmo mal. Post em Branco, ou The Blank Post, foi lançado em junho passado em um esforço pessoal de Daniel, que contou com a parceria de outro publicitário, Rodrigo Esteves. Os dois têm diagnóstico de TAG, Transtorno de Ansiedade Generalizado.

Post em Branco (https://anxiety.social e www.instagram.com/blank.anxiety) pretende ser uma ferramenta para ajudar quem está sofrendo com uma crise ansiosa. Se a pessoa está vivendo um episódio agudo, pode postar em branco para chamar atenção. Se nas redes começarem a aparecer sequências de mensagens sem texto, então, é sinal de que alguém precisa de ajuda. O alerta não deve ser ignorado.

Era isso que Daniel queria dizer quando disparou a publicar os posts. Ele estava entrando em crise. Antes de narrar os episódios que a deflagraram, porém, é importante destacar que as doenças da mente estão entre os problemas que mais se intensificaram na quarentena. Na era anterior à esta pandemia, calculava-se que entre 20% e 30% da população global teriam ao menos um diagnóstico de transtorno ansioso na vida. Com o mundo obrigado a lidar com um perigo ainda pouco estudado, era esperada uma intensificação dos casos.

O que de fato ocorreu. Nos EUA, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), agência que monitora a disseminação de doenças e estabelece diretrizes preventivas, apresentou um relatório em março passado apontando que, entre agosto de 2020 e fevereiro deste ano, o percentual dos adultos com sintomas de transtornos ansiosos ou de depressão – que costumam andar juntos – cresceu de 36,4% para 41,5%.

Mas é bom que se diga: o cenário criado pela Covid-19 pode ter agravado certos quadros. Porém o estilo de vida e as estressantes rotinas de trabalho pré-pandemia já estavam provocando o aumento da ocorrência desses males.

“MATAR OU MORRER”

Com Daniel, a crise que originou o Post em Branco começou a se delinear meses antes de o mundo se fechar em casa e o home office ser instaurado globalmente. Em janeiro, ele tinha passado por um burnout, distúrbio marcado por stress extremo e esgotamento físico e emocional. Preso em um projeto que demandava ficar trancado com um grupo de profissionais em uma sala sem janelas, o publicitário passou a sentir que estava em um clima de “matar ou morrer”.

Foram 10 dias trabalhando sem parar, comendo junk food e sem poder deixar o prédio direito. Havia uma academia no local, mas até isso afligia Daniel, já que nem para se exercitar podia sair. O que seria uma comodidade para alguns, para ele era uma tortura.

Ao final desse processo, quando o time completou a missão que tinha levado todo mundo a viver como prisioneiros, a equipe comemorou o desfecho, mas o publicitário explodiu em choro. Seu chefe foi até ele para conversar sobre seu estado. Daniel conseguiu se acalmar. No entanto, a péssima experiência cobraria seus efeitos posteriormente.

Desde a mudança para Nova York, o publicitário, que faz terapia há mais de oito anos e há seis tem acompanhamento de um psiquiatra, vinha lidando com a sombra do TAG. “Estava com a sensação de que iria jogar uma Champions League. Dois meses antes de embarcar, comprei remédios para durar um ano”, lembra.

Embora estivesse com a doença sob controle, Daniel sabia que alguma crise poderia vir. Podia ter entrado no ritmo do jogo, como disse, mas estava em constante estado de vigilância. Para evitar maiores problemas, a atividade física era uma grande aliada.

Daniel Portuga, em sua casa em NY (arquivo pessoal)

ESCADA DE EMERGÊNCIA

Aí veio a pandemia. As ruas esvaziaram e a cidade lhe parecia uma versão real da série The Walking Dead. Solitário e isolado, não podia fazer mais seus exercícios costumeiros. Numa tentativa de compensar isso, passou a andar na escada de emergência. Afinal, aquela era uma emergência. E assim a ansiedade foi a mil. “Me tiraram as coisas que me colocavam no eixo”, explica.

Quando teve seu colapso, no dia 25 de abril, ele só parou de fazer posts em branco porque cansou. Dormiu esgotado. Ao despertar, viu as reações no Instagram, que o surpreenderam negativamente. O inbox lotou, no entanto apenas algumas pessoas entenderam que ele não estava bem. Isso demonstrou o quão pouco se sabe a respeito do problema. Além disso, perdeu seguidores. Como diz Daniel, muita gente não gosta de lidar ou se envolver com quem é “problema”.

PARA NÃO NORMALIZAR A ANSIEDADE

Um mês e meio depois de ter dado seu recado na rede, Daniel conseguiu pensar no que havia acontecido. Acabou descobrindo que tinha amigos que padeciam da mesma doença. A história mudou de figura a partir dessa percepção. Passou a ver o episódio como um experimento e, desse modo, criou o projeto Post em Branco, que funciona como um alerta. “Luto para não normalizar a ansiedade”, reforça.

Fora a parceria com Rodrigo Esteves, Daniel teve o apoio de outros profissionais que o procuraram por empatia. As ilustrações do projeto, por exemplo, foram feitas por Leandro Dário, que demonstrou o que sente uma pessoa quando explode uma crise de ansiedade.

MÊS AMARELO

Setembro é tido como o mês amarelo, o de prevenção ao suicídio. É uma época em que surgem campanhas para falar de saúde mental. O tema vem ganhando atenção mais recentemente, desde que a ginasta americana Simone Biles desistiu de competir nas provas em que era favorita nos Jogos de Tóquio. A atleta se sentiu muito pressionada a ser o grande nome das Olimpíadas e não deu conta. Apesar do buzz em torno dos males da mente, Daniel acredita que ainda há muito a ser feito.

“As empresas falam em ‘summer Friday’, mas marcam reunião com o cliente às 19h”, exemplifica, referindo-se às folgas que algumas empresas dizem oferecer às sextas. Se há solução? O publicitário diz não tê-las, mas salienta que, com seu projeto, busca fazer algo pela sociedade.

Daniel entende que o sucesso do Post em Branco será não ver tantos posts em branco nos feeds alheios. De sua parte, pelo menos eles não serão vistos tão cedo, exceto se for para divulgar o projeto. Ao lançar oficialmente a iniciativa, ele comemorou a coragem de se expor ao mesmo tempo em que joga luz sobre os transtornos ansiosos. E também celebrou estar há um ano e quatro meses sem crises.

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